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Safra de trigo 2010 no RS: análise amostral do desempenho qualitativo de cultivares

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Safra de trigo 2010 no RS: análise amostral do desempenho qualitativo de cultivares
06/12/10 - 18:14 
Por *Eduardo Caierão e Martha Zavariz de Miranda

As condições climáticas para a produção de trigo no estado do Rio Grande do Sul não podem ser comparadas com o cerrado brasileiro (sob regime irrigado) ou mesmo ao pampa argentino, onde a estabilidade na temperatura e precipitação garante a previsibilidade da produção e da qualidade do cereal. O trigo gaúcho, com frequência,está sujeito a condições de alta umidade na primavera, estação onde o cereal é colhido. Não raras vezes, a precipitação supera as normais históricas em 50/100%, depreciando a qualidade do produto e seu valor de mercado.

Na safra 2010, entretanto, não se pode atribuir ao clima, qualquer problema qualitativo do trigo riograndense. Consequência do efeito do fenômeno “La Niña”, as temperaturas e a precipitação durante o ciclo de desenvolvimento do cereal nesta safra foram abaixo das normais históricas. Os meses de outubro e novembro foram secos, favorecendo a maturação gradual das lavouras e a colheita nas melhores condições.

Quando uma nova cultivar de trigo é lançada no mercado pelo seu obtentor, e conforme os critérios da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale, para que seu nome seja publicado nas “Indicações anuais de pesquisa do cereal”, cada obtentor deve fornecer à Comissão, o conjunto de características inerentes do material. A classe comercial é uma destas informações e baliza o mercado e a cadeia produtiva em relação ao tipo de uso em que o trigo poderá ser empregado. Normalmente, a classe comercial é definida tendo como base o percentual de amostras enquadradas nas faixas de força de glúten (valor W da análise de alveografia) e o número de queda (ou falling number), conforme Instrução Normativa nº 7, de 15 de agosto de 2001, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo legislação em vigor, para que um trigo seja enquadrado como “Trigo Melhorador”, tomando como base somente a força de glúten, deve apresentar, no mínimo, W = 300 x 10-4J. Para as amostras entre W = 180 e W = 330 x 10-4J, classifica-se o trigo como “Pão”. Amostras de trigo que apresentarem valor de W menor do que 180 x 10-4J são enquadradas como “Brando”. Em anos secos, como o da safra 2010, o número de queda, que está relacionado a atividade da enzima alfa-amilase, não é problema, pois em geral está acima de 200 segundos, indicando trigo não germinado ou com baixa atividade da enzima, enquadrando o trigo nas classes comerciais acima citadas. Entretanto, mesmo em safras favoráveis ao cereal, como a de 2010, a classe comercial real (obtida de amostras de lavouras) pode não corresponder àquela informada pelo obtentor, devido aos valores de W. Não se trata de má fé ou desconhecimento técnico, mas sim, das interações da cultivar com as mais variadas condições de clima, de solo, e de manejo em que a mesma está sujeita ao ser semeada e durante o seu desenvolvimento. Na fase de pesquisa e experimentação, apenas parte destas variações são identificadas pelos melhoristas e fitotecnistas, visto que os ensaios são instalados em número reduzido de ambientes. Mesmo assim, é objetivo prioritário dos program s de melhoramento de trigo no Brasil a busca por variedades cada vez mais estáveis quanto à produtividade e, principalmente, quanto à qualidade.

Tendo como base as amostras de trigo recebidas pelo Laboratório de Qualidade de Grãos da Embrapa Trigo nos meses de outubro e novembro deste ano, fez-se um levantamento em relação ao comportamento qualitativo de algumas variedades de trigo considerando a classe comercial indicada pelo obtentor e a classe comercial real, isto é, a classe resultante das análises com base nos valores de força de glúten obtidos. Na Tabela 1 as cultivares estão apresentadas de forma codificada.

Foram recebidas até o final do mês de novembro, 129 amostras de diferentes municípios do estado do Rio Grande do Sul, das quais 2 foram enquadradas como “Trigo Melhorador”, 69 como “Trigo Pão” e 58 como “Trigo Brando”, apesar de todas elas terem sido indicadas como pertencentes à classe Pão no momento de seu lançamento. Apesar disso, das 11 cultivares avaliadas, 9 delas foram enquadradas na mesma classe de indicação e, somente 2, em classe inferior à indicada pelo obtentor. A maior variação observada em termos de frequência das amostras recebidas em cada classe esteve na cultivar L, onde 33 amostras foram enquadradas como “Trigo Brando”, de um total de 49, mesmo sendo indicada como sendo da classe Pão.

Tabela 1. Classe comercial de diferentes cultivares de trigo no Rio Grande do Sul, conforme informação do obtentor (informada no livro de indicações publicado pela Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale de 2010), número de amostras recebidas de lavouras comerciais na safra 2010 e seu enquadramento conforme portaria do MAPA, considerando o valor de força de glúten.
 
 
Embora a pesquisa tenha contribuído significativamente para a qualidade do trigo brasileiro, muitos desafios ainda precisam ser superados, especialmente no que diz respeito à previsibilidade da qualidade do cereal, o que passa, necessariamente, pela obtenção de cultivares mais estáveis às condições climáticas, principalmente no estado do Rio Grande do Sul.

*Pesquisadores da Embrapa Trigo

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