Por Aroldo Gallon Linhares*
A cultura do trigo no Rio Grande do Sul vem percorrendo uma trajetória de persistência exemplar, marcada por grandes frustrações e alguns sucessos significativos. Num passado não muito distante, predominava a incerteza. Os triticultores que vivenciaram aquele período não guardam boas lembranças.
Até o início da década de setenta, com todos os seus defeitos e algumas virtudes, o trigo era a única opção do agricultor gaúcho para desenvolver atividade econômica de produção de grãos no período do inverno, ou, quiçá, no ano, excetuando-se o arroz irrigado. O milho era apenas uma cultura colonial e a soja ainda não havia despontado comercialmente.
Melhoradas as condições químicas do solo, com o exitoso programa que difundiu o uso do calcário, as doenças passaram a predominar como foco principal das limitações da produção do cereal no Estado. Em vários anos, as epidemias derrubavam a produção a níveis irrisórios, causando prejuízos ao produtor e à economia dependente da produção. Para auxiliar a pesquisa local na busca de soluções àquele grave problema, vários pesquisadores estrangeiros foram convidados a prestar consultoria em áreas específicas. Um deles foi o Dr. D. J. Samborski, renomado estudioso canadense, especialista na doença conhecida como ferrugem da folha do trigo, uma das mais problemáticas e de difícil controle, até aquela época.
Após conhecer de perto a situação, o sincero visitante, impressionado com o que viu, foi realista ao concluir que estávamos “tentando produzir trigo contra a vontade de Deus”. Por certo, não deixava de haver fundamento, tantos e tão graves eram os problemas que ele encontrou. Naquele ano de 1975, a produção média de trigo no Rio Grande do Sul foi, segundo dados estatísticos, de apenas 653kg / ha.
Hoje, o cenário é outro. Identificadas as doenças de solo, a rotação de culturas ou o emprego de cultivares resistentes, conforme o caso, resultaram nos remédios indicados pela pesquisa. Pulgões que infestavam em massa, sugando as plantas e transmitindo viroses, foram controlados pela adoção do programa que importou inimigos naturais, multiplicou-os e distribuiu-os em grande escala no Sul do Brasil.
O conhecimento detalhado do ciclo evolutivo das doenças e suas interações com as cultivares, aliado à introdução de produtos químicos cada vez mais eficientes e de menor impacto ambiental, evitaram que, em anos problemáticos, houvesse reduções drásticas de produção, conforme ocorria no passado.
A adoção do sistema de plantio direto, estancando a sangria da erosão dos solos do planalto e incorporando matéria orgânica acrescentou mais produtividade às lavouras.
Mais recentemente, novas cultivares, com maior potencial produtivo e de qualidade buscada pelo mercado, são disponibilizadas pelas organizações de melhoramento genético. Faz-se aqui uma referência à Lei de Proteção de Cultivares, por estar viabilizando o trabalho das empresas de melhoramento e, por consequência, aumentando a opção de escolha dos agricultores.
O aprimoramento das previsões climatológicas e a agricultura de precisão estão aportando contribuição aos resultados.
Está certo que este ano o clima ajudou, mas não é por acaso que muitos agricultores estejam colhendo 4.000kg por hectare ou até mais.
Será que Deus ficou bonzinho para com a triticultura gaúcha? Se muito trabalho, muito esforço, muita capacitação, muito treinamento, muito investimento e, porque não, muita teimosia traduzem esse avanço, então podemos dizer sim. O pesquisador canadense tinha razão, no entanto o mais provável é que um grande exemplo de tenacidade e de trabalho inteligente esteja sendo recompensado.
*Engenheiro Agrônomo