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Tecnologia de sementes

Qualidade da semente

No Brasil, dois sistemas de produção de sementes operam integrados, o de certificação e o de fiscalização, que ofertam sementes certificadas e fiscalizadas, respectivamente. Nessas duas classes de sementes, a qualidade é garantida através de padrões mínimos de germinação, purezas física e varietal e sanidade, exigidos por normas de produção e comercialização estabelecidas e controladas pelo governo.

Na compra de sementes, indica-se que o agricultor conheça a qualidade do produto que está adquirindo. Para isso, existem laboratórios oficiais e particulares de análise de sementes que podem prestar esse tipo de serviço, informando a germinação, as purezas física e varietal e a qualidade sanitária da semente. Essa última informação é extremamente importante para a decisão do tratamento da semente com fungicida.

Outra maneira de conhecer a qualidade do produto que se está adquirindo é consultando o Atestado de Garantia de Semente, fornecido pelo vendedor. Esse atestado transcreve as informações dos laudos oficiais de análise de semente que têm validade até cinco meses após a data de análise. Ao consultar o Atestado de Garantia de Semente, o agricultor deve prestar atenção às colunas de germinação (%), pureza física (%), pureza varietal (outras cultivares e outras espécies, sementes silvestres, sementes nocivas toleradas), mancha-café (%) e validade da germinação. Esses valores devem estar de acordo com os padrões mínimos de qualidade de semente estabelecidos para cada estado.

 

Armazenamento das sementes

Após a aquisição, as sementes são armazenadas na propriedade, até a época de semeadura. As sementes, como ser biológico, devem receber todos os cuidados necessários para se manterem vivas e apresentarem boa germinação e emergência no campo. Assim sendo, devem ser tomados cuidados especiais no seu armazenamento, tais como:

- Armazenar as sementes em galpão bem ventilado, sobre estrados de madeira;

- Não empilhar as sacas de sementes contra as paredes do galpão;

- Não armazenar sementes juntamente com adubo, calcário ou agroquímicos;

- O ambiente de armazenagem deve estar livre de fungos e roedores;

- Dentro do armazém a temperatura não deve ultrapassar 25ºC e a umidade relativa não deve ultrapassar 70%.

Caso essas condições não sejam possíveis na propriedade, indica-se que o agricultor somente retire a semente do armazém do seu fornecedor o mais próximo possível da época de plantio.

 

Tratamento de sementes com fungicidas

O tratamento das sementes com fungicidas oferece garantia de melhor estabelecimento da população de plantas por controlar patógenos importantes transmitidos pelas sementes, diminuindo a chance de sua introdução em áreas indenes. As condições desfavoráveis à germinação e emergência da soja, especialmente a deficiência hídrica, tornam mais lento esse processo, expondo as sementes por mais tempo a fungos do solo, como Rhizoctonia solani, Pythium spp., Fusarium spp. e Aspergillus spp. (Aspergillus flavus), entre outros, que podem causar a sua deterioração ou a morte da plântula.

Os principais patógenos transmitidos pela semente de soja são: Cercospora kikuchii, Cercospora sojina, Fusarium semitectum, Phomopsis spp. anamorfo de Diaporthe spp. e Colletotrichum truncatum. O melhor controle dos quatro primeiros patógenos citados é propiciado pelos fungicidas do grupo dos benzimidazóis. Dentre os produtos avaliados e indicados para o tratamento de sementes de soja, carbendazin, tiofanato metílico e thiabendazole são os mais eficientes no controle de Phomopsis spp., podendo assim ser considerados opção para o controle do agente do cancro da haste, em sementes, pois Phomopsis é a forma imperfeita de Diaporthe. Os fungicidas de contato tradicionalmente conhecidos (captan, thiram e tolylfluanid), que têm bom desempenho no campo quanto à emergência, não controlam, totalmente, Phomopsis spp. e Fusarium semitectum nas sementes que apresentam índices elevados desses patógenos (>40%).

A função dos fungicidas de contato é proteger a semente contra fungos do solo e o dos fungicidas sistêmicos é controlar fitopatógenos presentes nas sementes. Assim, é importante que os fungicidas estejam em contato direto com a semente. O tratamento de semente com fungicidas, a aplicação de micronutrientes e a inoculação podem ser feitos de forma sequencial, com máquinas específicas de tratar sementes, desde que essas disponham de tanques separados para os produtos, uma vez que foi proibida a mistura de agrotóxicos em tanque.

A maioria das combinações de fungicidas indicados para o tratamento de sementes reduz a nodulação e a fixação biológica de nitrogênio (FBN), reduzindo a sobrevivência das bactérias do gênero Bradyrhizobium nas sementes.

A maior frequência de efeitos negativos do tratamento de sementes com fungicidas na FBN ocorre em solos de primeiro ano de cultivo com soja, com baixa população de Bradyrhizobium spp. Nesse caso, para garantir melhores resultados com a inoculação e o estabelecimento da população do Bradyrhizobium spp. ao solo, o agricultor deve evitar o tratamento de sementes com fungicidas, desde que:

1) as sementes possuam alta qualidade fisiológica e sanitária, estejam livres de fitopatógenos importantes (pragas quarentenárias A2 ou pragas não quarentenárias regulamentadas), definidos e controlados pelo Certificado Fitossanitário de Origem (CFO) ou Certificado Fitossanitário de Origem Consolidado (CFOC), conforme legislação;

2) o solo apresente boa disponibilidade hídrica e temperatura adequada para rápida germinação e emergência.

Caso essas condições não sejam atingidas, o produtor deve tratar a semente com fungicidas, dando preferência às misturas Carboxin + Thiram, Difenoconazole + Thiram, Carbendazin + Captan, Thiabendazole + Tolylfluanid ou Carbendazin + Thiram, que demonstraram ser os menos tóxicos para o Bradyrhizobium.

 

Inoculação das sementes

O nitrogênio é o nutriente requerido em maior quantidade pela cultura da soja. Estima-se que para produzir 1000 kg de grãos são necessários 80 kg de nitrogênio. A fixação biológica do nitrogênio (FBN) é a principal fonte de aquisição de nitrogênio para a cultura da soja, e é realizado por Bactérias do gênero Bradyrhizobium que, quando em contato com as raízes da soja, infectam-nas, via pêlos radiculares, formando nódulos. Esta relação simbiótica pode fornecer todo o nitrogênio que a soja necessita.

A inoculação:

a) deve ser feita à sombra e efetuar a semeadura no mesmo dia, especialmente se a semente for tratada com fungicidas e micro-nutrientes, mantendo a semente inoculada protegida do sol e do calor excessivo;

b) deve-se evitar o aquecimento, em demasia, do depósito da semente na semeadora, pois altas temperaturas reduzem o número de bactérias viáveis aderidas à semente;

c) para melhor aderência dos inoculantes turfosos, recomenda-se umedecer a semente com 300 mL 50 kg-¹ semente de água açucarada a 10% (100 g de açúcar e completar para um litro de água);

d) é imprescindível que a distribuição do inoculante turfoso ou líquido seja uniforme em todas as sementes para que todas as plantas sejam beneficiadas pela fixação biológica do nitrogênio.

 

Métodos de Inoculação

Inoculação nas sementes

Inoculante turfoso - umedecer as sementes com solução açucarada ou outra substância adesiva, misturando bem. Adicionar o inoculante, homogeneizar e deixar secar à sombra. A distribuição da mistura açucarada/adesiva mais inoculante nas sementes deve ser feita, preferencialmente, em máquinas próprias, tambor giratório ou betoneira.

Inoculante líquido - aplicar o inoculante nas sementes, homogeneizar e deixar secar à sombra.

Inoculação no sulco de semeadura

O método tradicional de inoculação pode ser substituído pela aplicação do inoculante por aspersão no sulco, por ocasião da semeadura, em solos com ou sem população estabelecida. Esse procedimento pode ser adotado desde que a dose de inoculante seja, no mínimo, seis vezes superior à dose indicada para as sementes. O volume de líquido (inoculante mais água) indicado pela pesquisa é superior a 50 L ha-¹.

 

Inoculação de sementes de soja para cultivo em áreas novas 

Em áreas de primeiro ano de cultivo, a resposta da planta de soja à inoculação é elevada, porque no solo não há, originalmente, rizóbio em quantidade e com eficiência suficientes. 

 

Inoculação de sementes de soja para áreas com mais de um ano de cultivo 

No sistema convencional de preparo do solo, os ganhos com a inoculação das sementes, em áreas com cultivo anterior de soja, são menos expressivos do que os obtidos em solos de primeiro ano, mas a reinoculação deve ser feita de forma a favorecer as estirpes inoculadas, pois estas necessitam competir com as estirpes nativas do solo para formação de nódulos. No sistema plantio direto, com no mínimo três anos de cultivo de soja inoculada, poderá não haver resposta à inoculação. Neste caso, a decisão sobre seu uso cabe à assistência técnica, com base na avaliação da nodulação e no desenvolvimento da cultura, na safra anterior.

 


José Luis da Silva Nunes

Eng. Agrº, Dr. em Fitotecnia

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