No 1° semestre de 2008, quando o mundo tremeu com o preço das commodities, o Brasil pensou nos fertilizantes. Como se surpresa fosse, descobriu-se nossa dependência crescente de importações e a concentração da produção nacional pós-privatização.
Na época, pouca bola se deu ao histórico do setor ou ao momento da economia mundial. Eram tantas as más notícias que se procurássemos saber da sorte pelo periquitinho do realejo por certo encontraríamos seus preços já remarcados. A inflação da feijoada pautava o Jornal Nacional.
Mas temos o predicado do efêmero e o clamor já se foi. Sobretudo em esplanadas, mídias e levianas entidades. Os preços dos adubos caíram e os elementos nitrogênio, fósforo e potássio se esfumaram como ensinou Ary Barroso, em 1952, no samba-canção "Risque" ("creia, toda quimera se esfuma/como a brancura da espuma/que se desmancha na areia").
Não que a nossa dependência externa esteja perto de desequilibrar a oferta ou fazer explodir os preços desses nutrientes. Não estão. Mas assim como, acertadamente, se discute o pré-sal com horizonte de longo prazo, os fertilizantes também mereceriam algum planejamento.
Hoje, o oligopólio nacional de matérias-primas e produtos intermediários nivela seus preços com o mercado internacional. Cotados na origem como commodities, para formar o preço interno entram o frete marítimo, o câmbio, as despesas portuárias, impostos e o transporte até as misturadoras que levarão o NPK aos agricultores.
Essa barreira natural permitiu à indústria local aproveitar como margem as altas cotações dos últimos anos no exterior.
Claro que há períodos em que ocorre o inverso. Despenca o mercado lá fora e nem mesmo aquelas barreiras permitem à indústria se remunerar como gostaria, fato que ficou menos grave depois que a produção nacional se concentrou.
Se a necessidade de investir na produção de matérias-primas para fertilizantes pode hoje ser relativizada, no futuro ela será essencial para consolidar o País como potência agrícola. Da mesma forma que os biocombustíveis e o petróleo nos habilitarão a potência econômica.
Tanto a fabricação de nitrogênio, a partir do gás natural, como as minerações de fosfato e potássio requerem recursos volumosos, projetos complexos e anos de execução. Tarefas para grandes empresas ou Estados.
Nos últimos anos de alto consumo, o Brasil importou, em média, 2,5 milhões de toneladas de nitrogênio; 2,7 MM t de fósforo; e 4,1 MM t de potássio. Quase 10 MM t de nutrientes que pesaram, a preços de 2008, US$ 11,3 bilhões na balança comercial.
Nossa capacidade instalada pouco cresceu desde as realizações do governo nas décadas 1960 e 70, mais tarde privatizadas. De estatal restou apenas parte (63%) do nitrogênio com a Petrobras. O fósforo, embora de perfil menos concentrado, é dominado pela ex-estatal Fosfértil. E a produção de potássio (500 mil toneladas) vem toda da Vale, também uma herança do Estado.
Não faltam anúncios para o futuro. Dos ministros Lobão e Stephanes, prevendo autossuficiência em fósforo daqui a seis ou oito anos. Jazidas, é verdade, não faltam. Da Vale, que se dispõe a explorar o potássio desde a Argentina até a Amazônia. E da Petrobras, que há muitos anos estuda a implantação da terceira unidade de amônia e ureia, adiada por gargalos no fornecimento de gás natural que, segundo a diretora de Gás e Energia, Maria Foster, não existem mais.
A exemplo do que vem ocorrendo nas últimas décadas, a demanda brasileira deverá continuar a crescer entre as maiores do mundo, ao lado de China e Índia.
Depois não venham se queixar, pondo a culpa no periquitinho de realejo que não soube ler a sorte.
*Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.
Artigo originalmente publicado no site da Terra Magazine, em 09.09.2009.