Reconhecida desde 1931, a bronquite infecciosa das galinhas (BIG) pode ser definida como uma doença infecto-contagiosa causada por um coronavírus, com manifestações respiratórias, renais, reprodutivas e entéricas de frangos, poedeiras e reprodutoras, causada por uma grande diversidade de tipos de VBIG, com ampla disseminação mundial.
A importância da BIG reside nas perdas econômicas pela diminuição da produção de ovos, ovos com alterações de conteúdo interno e de casca, geração de falsas poedeiras, infertilidade, retardo no crescimento, aumento na suscetibilidade a infecções secundárias e, em alguns casos, mortalidade de moderada à severa.
No Brasil, embora a vacinação contra BIG tenha sido estabelecida desde o final da década de 70, a doença ainda não foi controlada satisfatoriamente. Atualmente, os principais pontos críticos para o controle da BIG no Brasil são:
- a elucidação dos diferentes tipos de VBIG presentes nos plantéis avícolas e sua distribuição geográfica e em grupos filogenéticos, respondendo à questão da existência de um único tipo de VBIG ou de múltiplos tipos no Brasil.
- a relação entre os tipos de VBIG detectados no Brasil e as amostras de VBIG de referência e aqueles representativos de cada país.
- a relação entre as amostras brasileiras de VBIG e as amostras vacinais, considerando que, atualmente, apenas o sorotipo Massachusetts é permitido, em forma viva atenuada, para a vacinação no país.
Para estabelecer os pontos críticos acima estabelecidos com coerência e homogeneidade entre as diferentes entidades relacionadas à avicultura nacional (sejam produtores, entidades de pesquisa e diagnóstico e esferas governamentais), é necessário definirmos alguns termos de uso rotineiro relacionados com esta doença.
Variante: Este termo é largamente utilizado no campo em casos de BIG e tornou-se um termo consagrado no meio avícola, sendo entendido como tal como a amostra diferente (desde o ponto de vista sorológico e/ou molecular) às amostras de referência de VBIG.
Sorotipo: Este termo refere-se à classificação baseada em reações sorológicas de uma dada amostra de VBIG. No caso de VBIG, existem atualmente mais de 20 sorotipos diferentes, definidos em função de epítopos presentes na porção globular externa da glicoproteína de espícula do envelope.
Assim, amostras de VBIG pertencentes a um determinado sorotipo são aquelas que compartilham epítopos comuns entre si na glicoproteína de espícula do envelope, o que pode ser revelado utilizando-se, por exemplo, a reação de soroneutralização.
A importância da determinação do sorotipo de uma dada amostra de campo de VBIG reside no fato de haver baixa ou nenhuma proteção cruzada entre os sorotipos (Cook et al, 1999; Cavanagh, 2007).
Genótipo: Este termo refere-se à classificação baseada em características genéticas de uma dada amostra de VBIG.
Para a determinação de genótipo, podem ser utilizadas RT-PCRs com primers específicos para os diversos genótipos em uma reação única em um único tubo (multiplex RT-PCR), resultando em produtos de PCR de tamanhos diferentes para cada genótipo (Capua et al., 1999) ou utilizando o seqüenciamento de DNA, este último com a vantagem de permitir uma caracterização mais acurada de amostras de campo de VBIG por permitir a visualização de “assinaturas genéticas” únicas para determinados tipos virais.
Além disso, utilizando-se o seqüenciamento de DNA para o gene S, é possível prever o grau de proteção conferido por uma dada vacina em relação às amostras circulantes de VBIG no plantel, (Ladman et al., 2006), sendo uma alternativa mais facilmente alcançável em comparação a estudos de desafio in vivo. A informação genética é objetiva e fornece informação essencial para estudos epidemiológicos.
No entanto, resultados de genotipagem devem ser analisados com cautela, pois algumas poucas mudanças de nucleotídeos e aminoácidos no gene S não necessariamente implicam em novos sorotipos e, por outro lado, podem levar à perda de proteção cruzada entre tipos de VBIG.
Protectotipo: Pode ser definido como o tipo de VBIG contido em uma vacina que leve à proteção in vivo contra o desafio por vírus de campo do seu mesmo sorotipo ou de sorotipos diferentes àquele contido na vacina. Por este motivo, desde o ponto de vista prático, é importante pensar em termos de protectotipos e não de sorotipos (Cook et al., 1999).
Tropismo: Pode ser entendido como a capacidade do vírus em se ligar aos receptores celulares, adsorvendo-se à membrana celular e, eventualmente, adentrar o meio intracelular. No caso do VBIG o tropismo é determinado pela proteína S que é responsável pela ligação a receptores celulares.
Entretanto, o fato de uma amostra de VBIG ter tropismo por certo tipo de células ou tecido não implica necessariamente que o mesmo seja capaz de causar lesões nestes locais, pois pode haver adsorção viral e até mesmo infecção intracelular sem que o vírus seja capaz de manifestar sua patogenia na célula em questão.
Patotipo: Define-se como patotipo a classe a que pertence uma amostra de VIBG em relação à sua capacidade em causar lesão em certo tipo de célula ou tecido. Desde que a forma típica respiratória da BIG foi relatada nos anos 30 (Cavanagh e Naqi, 1997), cepas nefropatogênicas (Meir, 2004), enteropatogênicas (Ambali e Jones, 1990, Villarreal et al, 2007), cepas que causam patogenicidade ao trato reprodutivo tanto das fêmeas quanto dos machos (Cavanagh e Naqi, 2003; Boltz et al., 2004; Villarreal et al., 2006) e associadas à lesão de musculatura peitoral (Yu et al., 2001) têm sido encontradas.
Situação atual da Bronquite infecciosa no Brasil
No Brasil, a presença de vírus da Bronquite Infecciosa das galinhas diferentes aos isolados em diferentes paises da América, Europa, ou Ásia começou a ser relatada com bastante freqüência por volta dos anos 2000, o que não significa que esta variação não estava presente antes desta época.
Di Fabio, et al., 2000, estudaram 15 isolados oriundos de aves apresentando sintomas respiratórios, entéricos, renais e/ou reprodutivos no ano de 1995. Após testes de neutralização cruzada, foi demonstrado que 14 isolados representavam pelo menos 4 grupos antigênicos, todos os quais diferentes daqueles descritos anteriormente em outros países. Neste mesmo trabalho, foi demonstrado que a utilização de um programa de vacinação que incorpore duas vacinas heterólogas apresentou ótimos resultados de proteção.
Em pesquisa realizada por Montassier et al., 2006, foram analisadas 12 amostras isoladas entre 1988 e 2000 de granjas de frango de corte e de granjas de poedeiras comerciais. Destas 12 amostras, 4 apresentaram uma baixa identidade com a maioria das cepas de referência e isolados de diferentes países, se mostrando como isolados nativos brasileiros.
Segundo Abreu et al, 2006, após a análise de parte do gene S de 16 isolados de VBIG de granjas em Minas Gerais, sete encontraram-se em um grupo diferente de todos os demais VBIG descritos no mundo, incluindo amostras vacinais e além disso, demonstrando ser isolados regionais do Brasil.
Até pouco tempo atrás, acreditava-se que surtos atípicos da BIG, acometendo os plantéis avícolas brasileiros, e caracterizados por sintomas renais e respiratórios severos e, em alguns casos, associados a alterações da musculatura superficial e profunda, eram causados pelo sorotipo 4/91 do VBIG.
No entanto, Brentano et al. 2006 após analisarem filogenéticamente 3 amostras isoladas de aves apresentando este tipo de sintomas, demonstraram que nenhuma das amostras se agrupava com a amostra 4/91. Ao invés disso, uma das amostras agrupou com o sorotipo Massachusetts e as outras duas estavam relacionadas com amostras nefropatogênicas, sendo que uma delas estava próxima ao sorotipo D274 do VBIG.
Villarreal et al, 2006, detectaram um VBIG em galos apresentando problemas de fertilidade e, após a análise molecular, foi evidente que o vírus não pertencia ao sorotipo Massachusetts, comumente usado para vacinação no Brasil, e que pelo contrário, este vírus ficou próximo aos sorotipos D274 e Arkansas.
Do mesmo modo, após serem realizadas análises do gene S de diferentes amostras de VBIG isoladas de lotes de aves comerciais apresentando problemas entéricos entre 2002 e 2006, sem outro sintoma clássico de BIG, foram agrupadas num único cluster e estando próximos ao sorotipo D274 e distantes ao sorotipo Massachusetts.
Estas mesmas amostras, quando comparadas com 4 amostras isoladas por Montassier et al, 2006, nos anos de 1988 e 2000 e oriundas de lotes apresentando sintomas respiratórios, ficaram bastante próximas com estas últimas, o que indica que as amostras circulando nos planteis brasileiros estejam eles apresentando sintomas, respiratórios, renais ou entéricos, possuem um padrão molecular bastante particular, tanto quando comparadas entre elas, quando comparadas com amostras de referência e isolados representativos de diferentes partes do mundo.
Assim sendo, de um modo geral, os isolados brasileiros, na sua maioria apresentam-se como pertencendo a um mesmo genotipo, podendo representar neste caso um novo genótipo/sorotipo característico do Brasil, o qual, ao mesmo tempo, apresenta-se próximo aos sorotipos Arkansas e D274.
De um ponto de vista prático, são logisticamente impossíveis a produção e o emprego de vacinas específicas para cada tipo de BIG que surja no campo; deste modo, com a alta taxa de recombinação que os coronavírus apresentam, seria necessário o emprego de centenas de vacinas para o controle de cada sorotipo específico que surgisse.
Ao invés disso, uma vez que não há uma vacina específica contra os isolados brasileiros, a identificação da amostra vacinal mais próxima ao desafio de campo para a eleição de um esquema vacinal combinado seria a estratégia ideal.
Concluindo, os tipos de VBIG existentes atualmente no Brasil já estavam circulando no plantel avícola nacional antes mesmo da introdução da vacinação com o sorotipo Massachusetts. Um grande número das amostras brasileiras de VBIG pode ser classificado em um único grupo consistente de amostras exclusivamente brasileiras, divergente de todas as demais amostras conhecidas mundialmente, fato relatado pelos diversos grupos de pesquisa envolvidos com BIG, sendo este grupo de amostras brasileiras mais próximo aos sorotipos Arkansas e D274.
Dentre estas amostras tipicamente brasileiras de VBIG, há a evidenciação de patotipos não usuais, como aqueles relacionados a enterite e outros à infertilidade em galos.
Somando-se à ocorrência dos sorotipos clássicos no Brasil, o conhecimento da existência de um grupo único tipicamente brasileiro de VBIG deve ser utilizado para pesquisas dirigidas à caracterização dos padrões patogênicos e de proteção para as mesmas, conferindo uma utilidade mais racional ao grande número de seqüências de DNA que vem sendo gerado em relação ao VBIG.
Fonte : Revista AveWorld -Edição 29.