Introdução
Em 1947, Olafson e colaboradores descreveram uma aparentemente nova doença transmissível de bovinos, onde observava-se hipertermia, anorexia, salivação, descarga nasal, diarréia, desidratatação e aborto.
Petéquias e úlceras na cavidade bucal, no esôfago e no trato gastrointestinal foram associadas a nova doença que apresentava alta morbidade mas baixa mortalidade.
Face à transmissibilidade da doença e à impossibilidade de demonstrar microscopicamente a presença de um microrganismo, a doença foi denominada de diarréia viral bovina (BVD), não obstante não existirem provas de sua natureza viral.
Alguns anos mais tarde, Ramsey e Chivers (1953) descreveram uma doença mais severa em bovinos, caracterizada por anorexia, diarréia aquosa, salivação profusa, depressão, emaciação e morte.
Os animais acometidos apresentavam erosões e ulcerações por todo trato alimentar, num quadro mais severo que aquele relatado na BVD.
A maior severidade das manifestações associada a uma menor morbidade com alta letalidade em animais mais jovens, levou esses autores a considerar tratar-se de uma doença diversa da BVD, denominando-a de doença das mucosas (MD).
Nos anos que se sucederam nenhum vírus foi isolado tanto dos casos diagnosticados como BVD ou como MD, até que em 1957 isolou-se uma amostra viral citopatogênica (capaz de induzir efeito citopático visível em cultivos celulares) a partir de um caso de MD.
Esta amostra permitiu o desenvolvimento de testes de soroneutralização, onde é pesquisada a inibição do efeito citopático viral por anticorpos específicos.
Na década de 60, através de testes de neutralização cruzada, diversos trabalhos demonstraram o estreito relacionamento antigênico entre os vírus causadores da BVD e da MD, concluindo-se que ambas as manifestações eram causadas pelo mesmo vírus.
Todavia, a denominação de vírus da BVD (BVDV) prevaleceu em função da primasia do nome proposto por Olafson e colaboradores em 1947.
No capítulo Patogênese os diferentes aspectos da BVD e da MD serão discutidos.
Distribuição Geográfica
A BVD apresenta distribuição mundial, causando prejuízos devidos principalmente aos problemas ocasionados nas esferas reprodutiva (infertilidade, repetição de cios, abortamentos, natimortalidade e mal-formações) e gastroentérica.
No Brasil diferentes trabalhos têm demonstrado a ocorrência da infecção de bovinos com o BVDV tanto por métodos diretos (demonstrando a presença do vírus) como indiretos (demonstrando a presença de anticorpos séricos contra o vírus).
Etiologia
O BVDV é um vírus RNA pertencente à família Flaviviridae e ao gênero Pestivirus.
Este gênero compreende ainda o vírus da Peste Suína Clássica (CSFV), causando doença em suínos e o vírus da Border Disease (BDV), causando doença em ovinos.
Todavia, os Pestivirus apresentam características genotípicas (estrutura genômica) e fenotípicas (estrutura antigênica) comuns, demonstradas por técnicas sorológicas e de biologa molecular.
Assim, através do reconhecimento de epítopos específicos com anticorpos monoclonais, 4 grupos de Pestivirus podem ser estabelecidos de acordo com a espécie animal em que são mais frequentemente isolados:
Grupo do CSFV: Essas amostras são unicamente isoladas de suínos.
Grupo do BVDV: Além das amostras isoladas de bovinos, há amostras isoladas de ovinos, outros ruminantes e suínos.
Grupo do BDV: Além das amostras de ovinos, há amostras isoladas de suínos.
Grupo atípico, contém amostras isoladas de bovinos, ovinos e suínos.
Desta forma, fica claro que a nomenclatura virológica baseada na espécie animal hospedeira é inadequada para os Pestivirus, visto que vírus semelhantes são isolados em espécies diferentes e vírus diferentes podem ser isolados em uma mesma espécie.
Com base na atividade biológica, são descritos dois biotipos do BVDV:
Biotipo não citopatogênico (BVDVncp):
É o biotipo mais isolado no campo, sendo responsável pela maioria das infecções agudas pós-natais. Não apresenta capacidade de produzir efeito citopático em cultivos celulares, onde sua presença só pode ser demonstrada por técnicas que detectem antígenos ou ácidos nucléicos virais, como a imunofluorescência direta e a PCR.
Amostras de BVDVncp são capazes de atravessar a placenta e causar infecções persistentes, caso isso ocorra entre 40 a 125 dias de gestação
Biotipo citopatogênico (BVDVcp):
Este biotipo é capaz de induzir apoptose e morte celular causando efeito citopático visível em cultivos celulares.
Todavia, é incapaz de causar infecções persistentes conforme confirmado por infecções experimentais.
Acredita-se que este biotipo surja de mutações que ocorrem em amostras de BVDVncp. Um dos marcadores de amostras de BVDVcp é a presença concomitante, nas células por elas infectadas, de duas proteínas virais não estruturais (não fazem parte da partícula viral), a saber NS2-3 e NS3 (fruto da clivagem de NS2-3).
Nas células infectadas com amostras de BVDVncp só é constatada a presença da proteína NS2-3 sem o seu produto de clivagem.
Com base no sequenciamento genômico, as amostras de BVDVncp e de BVDVcp podem apresentar dois genotipos denominados de I e II.
As amostras do genotipo I compreendem as amostras de BVDV clássicas, ao passo que as amostras do genotipo II compreendem aquelas relacionadas a surtos de BVD aguda severa recentemente descritos (síndrome hemorrágica) e pertencentes ao já referido "grupo atípico" classificado com anticorpos monoclonais.
Patogênese e manifestações clínicas
A variação antigênica e genômica do BVDV, assim como a existência de 2 biotipos é fundamental para a compreensão de diversos aspectos da patogênese da infecção com o BVDV, a qual pode ser dividida em 3 categorias:
Infecções pós-natais de animais imunocompetentes.
Estas infecções são atualmente denominadas de BVD aguda, onde pode-se ou não se observar os sinais clássicos descritos por Olafson e colaboradores em 1947.
Usualmente estas infecções são subclínicas, mas com prejuízos à fertilidade da propriedade. Estima-se que 95% dessas infecções é causada por amostras de BVDVncp.
O vírus penetra pela via oronasal replicando-se no trato respiratório superior e no tecido linfóide.
A viremia ocorre 2 dias após a infecção e pode manter-se por até 15 dias.
Os anticorpos são detectados 2 semanas após a infecção e seus títulos elevam-se por 10 a 12 semanas.
Anticorpos induzidos por infecções naturais persistem por anos ou até mesmo por toda vida do animal.
Durante a infecção com o BVDV ocorre uma leucopenia transitória, tendo-se já relatado um efeito imunossupressor do vírus o qual pode causar um aumento de susceptibilidade a outras doenças.
Recentemente têm sido relatados casos de BVD aguda com severas manifestações clínicas.
Entre bezerros, algumas das amostras virais isoladas causam um quadro denominado de síndrome hemorrágica.
A infecção é seguida de trombocitopenia e hemorragias com alta mortalidade.
Infecções agudas pelo BVDV, com alta mortalidade de vacas e bezerros, têm sido descritas em diversos países e as amostras virais envolvidas são pertencentes ao genotipo II.
Infecções intrauterinas
Em fêmeas gestantes anticorpos naturalmente adquiridos parecem prevenir a infecção fetal.
Ao infectar fêmeas gestantes soronegativas o BVDV atravessa a placenta e infecta o feto, causando diferentes graus de lesões macroscópicas, que vão desde imperceptíveis até a morte fetal.
Doença das Mucosas
A possibilidade de reprodução experimental da BVD, mas não da MD, constituiu um enigma a ser decifrado.
A observação que animais com MD não apresentavam anticorpos contra o BVDV (mesmo em casos de curso longo), em contraposição aos altos títulos encontrados em animais sadios da mesma propriedade, permitiu a elaboração da hipótese de imunotolerância decorrente de infecção intrauterina.
O conhecimento da existência de dois biotipos de BVDV, quais sejam: citopatogênico (cp) e não citopatogênico (ncp) permitiu a elucidação do problema.
A MD só ocorre em animais que sofreram infecções intrauterinas por amostras não citopatogênicas do BVDV (BVDVncp) entre os 40 e 125 dias de gestação (época em que o feto não é ainda imunocompetente), desenvolvendo imunotolerância ao BVDV.
Esta infecção fetal com imunotolerância pode ter vários cursos, inclusive o nascimento de animais persistentemente infectados (PI) que eventualmente podem chegar até a fase adulta sem manifestações clínicas, com incapacidade de produzir anticorpos contra o BVDV e eliminando grandes quantidades de vírus.
Existe ainda a possibilidade de um animal PI entrar em contato com uma outra amostra de BVDVncp diferente antigenicamente daquela indutora de imunotolerância e vir a apresentar anticorpos contra os epítopos divergentes na nova amostra.
Todavia isso parece ocorrer raramente, sendo a maioria dos animais PI livres de anticorpos.
Animais PI, quando posteriormente infectados por uma amostra citopatogênica do BVDV (BVDVcp) que não tenha diferenças antigênicas em relação à amostra de BVDVncp que induziu a imunotolerância, por serem também imunotolerantes à amostra de BVDVcp, são incapazes de elaborar anticorpos e desenvolvem a MD.
A infecção com BVDVcp pode ocorrer por mutações do BVDVncp já presente no animal ou por uma superinfecção com um BVDVcp presente no ambiente.
Uma forma mais lenta de MD tem sido descrita, onde o BVDVcp apresenta pequenas diferenças antigênicas em relação ao BVDVncp indutor da imunotolerância.
Nesta situação o animal pode produzir uma resposta imune contra os epítopos divergentes presentes no VBDVcp, sendo no entanto insuficiente para proteger o animal e apenas retardando o curso da MD.
Animais PI têm seu desenvolvimento retardado e normalmente morrem mais cedo em função de infecções secundárias.
Todavia, tais animais podem eventualmente sobreviver até a idade reprodutiva e gerar animais também persistentemente infectados.
Em síntese, atualmente a MD é tida como uma manifestação especial da infecção pelo BVDV, onde bovinos com imunotolerânica induzida por infecções fetais com amostras de BVDVncp são infectados por amostras de BVDVcp.
Transmissão
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As principais fontes de infecção da BVD são os animais doentes e animais PI.
Estes últimos são os mais importantes epidemiologicamente tendo em vista: a grande quantidade de vírus excretada por longos períodos a possível ausência de manifestação clínica e a dificuldade de detectá-los pela pesquisa de anticorpos séricos, visto o estado de imunotolerância ao BVDV.
Os animais PI são os principais responsáveis pela manutenção e disseminação da BVD no rebanho.
A via de eliminação é ampla, envolvendo descarga nasal, saliva, sêmen, fezes, urina, lágrima e leite.
A transmissão pode ocorrer tanto por contato direto entre animais como pelo contato indireto por meio de água, alimentos, agulhas contaminadas etc.
Diagnóstico
Métodos Indiretos
Esses métodos, extremamente empregados pela sua praticidade e baixo custo, baseiam-se na detecção de anticorpos contra o BVDV no soro ou no leite dos animais.
Podem ser quantitativos (informam sobre a quantidade de anticorpos presentes) ou qualitativos (informam a presença ou não de anticorpos).
As técnicas mais comumente usadas são a soroneutralização viral (SN) e o ELISA.
Os métodos quantitativos dependem da colheita de soros pareados (uma amostra colhida na fase aguda da doença e outra e na convalescença) para mostrar o aumento no título de anticorpos.
Já os métodos qualitativos não impõem esta condição, sendo entretanto necessário assegurar a não utilização prévia de vacinas para que a positividade traduza infecções naturais.
De suma importância é ressaltar a incapacidade dos métodos indiretos de detectar animais PI, em função do fenômeno de imunotolerância observado nesses animais.
Métodos Diretos
Tais métodos baseiam-se na detecção do BVDV ou de seus componentes (proteínas e ácidos nucléicos) e constituem a forma mais objetiva de diagnóstico da infecção.
Entre os métodos diretos mais comumente empregados estão:
a) o isolamento do BVDV em cultivos celulares;
b) a detecção de antígenos virais através das técnicas de imunofluorescência, imunoperoxidase ou ELISA;
c) a detecção de ácidos nucléicos virais através das técnicas de hibridização e PCR.
BVD aguda
A BVD aguda é diagnosticada pela demonstração de soroconversão com soros pareados, com intervalos de aproximadamente 3 semanas.
A pesquisa de soroconversão em outros animais eventualmente assintomáticos constitui estratégia que fortalece o diagnóstico.
Abortos associados ao BVDV
Em casos de aborto, a pesquisa de anticorpos na mãe é problemática pois muitas vezes o aborto ocorre após longo tempo da infecção aguda.
Caso a fêmea seja soronegativa, pode-se excluir o BVDV como causa do aborto, exceto no caso da fêmea constituir-se num animal PI.
É possível realizar-se a pesquisa de anticorpos ou do vírus no feto abortado e a presença de ambos, ou um deles, demonstra a infecção intrauterina.
Infecções neonatais / Animais PI
O sorodiagnóstico da infecção neonatal implica na colheita de soro antes do animal ingerir o colostro, sendo o animal testado tanto para presença de anticorpos como de vírus.
A presença de vírus aponta tanto para o fato que o animal pode ser um PI, como eventualmente para uma infecção aguda.
Animais PI são confirmados pela persistência do vírus no sangue após o desaparecimento dos anticorpos maternais, aproximadamente aos 3 meses de idade.
Bezerros que nesta ocasião permanecerem soropositivos indicam uma infecção intrauterina.
A soropositividade de bezerros após a queda de anticorpos maternos pode estar relacionada a defeitos congênitos, retardo no crescimento e perda de vigor.
Animais PI são confirmados pela detecção de vírus em 2 amostras de sangue colhidas com EDTA ou heparina, em intervalos de 3 meses.
Devido ao estado de imunotolerância, esses animais não podem ser detectados pela pesquisa de anticorpos
MD.
A MD é diagnosticada pela detecção do vírus nos órgãos.
A confirmação final é obtida pelo isolamento de BVDVcp no intestino, biotipo este quase que exclusivamente isolado de casos de MD.
Profilaxia
A profilaxia da BVD repousa basicamente sobre 2 ações:
Eliminação de animais PIs.
O fator de maior preponderância para o controle da enfermidade constitui-se na identificação e eliminação dos animais persistentemente infectados, pelo fato dos mesmos serem os mais efetivos disseminadores da doença em um plantel.
Vacinação
Vacinas Inativadas
Vacinas inativadas ou de vírus vivo modificado têm sido amplamente utilizadas para a imunoprofilaxia da BVD
Face à importância da infecção fetal nos prejuízos causados pelo BVDV, a obtenção da imunidade fetal constitui um dos objetivos de grande importância das vacinas.
Vacinas Atenuadas
São consideradas seguras inclusive para o uso em vacas prenhes, entretanto a imunidade fetal é de curta duração, especialmente para amostras heterólogas do BVDV.
Induzem proteção mais ampla e mais duradoura, mas podem causar danos ao feto, incluindo a formação de animais PI.
Caso um biotipo citopatogênico seja empregado na produção de vacina, o mesmo pode induzir a MD se aplicado em animais PI.
A vacinação repetida é recomendada tanto para vacinas inativadas como atenuadas.
Tratamento
Não existe tratamento para a Diarréia Viral Bovina.