Introdução
A doença infecciosa da bolsa de Fabrício, mais comumente conhecida como doença de Gumboro, continua a se apresentar nos planteis avícolas da maioria dos países da América latina atingindo o sistema imunológico dos frangos, os predispondo a sofrer doenças que normalmente passariam inadvertidas em aves com sistemas imunológicos normais. As reações post-vacina são geralmente mais severas em aves que têm padecido a doença de Gumboro e os efeitos secundários que deixa a doença influem nos parâmetros produtivos dos lotes de frangos.
As cepas do vírus que atuam sobre o sistema imunológico dos frangos variam em sua patogenicidade, se encontrando desde cepas vacinais clássicas que não causam doença, até cepas muito virulentas do vírus que têm a capacidade de produzir porcentagens variáveis de mortalidade, dependendo da imunidade que possuam as aves e a idade quando se atingem as condições do meio ambiente. Na figura 1 se apresenta uma bolsa de Fabrício atingida por uma cepa muito virulenta do vírus. Também estão presentes as cepas variantes do vírus de Gumboro que geralmente não causam mortalidade mas que induzem atrofia severa da bolsa que se traduz em menor quantidade de linfócitos e portanto menor reação do sistema imunológico da ave.
Identificação das cepas
A identificação das cepas do vírus de Gumboro tem se facilitado nos últimos anos devido ao progresso alcançado nas técnicas moleculares desenvolvidas para identificar a presença de ácido nucléico do vírus bem seja em impressões de bolsa de Fabrício em cartões FTA (ver figura No. 2), ou na detecção do vírus em bolsas de Fabrício que tem sido fixadas em formol e incluídas em blocos de parafina. As amostras podem ser transportadas de um país para outro com sua correspondente licença de importação.
A identificação das cepas se consegue através da seqüênciação de um segmento da proteína VP2 do vírus. Esta proteína é em boa parte a responsável pelo desenvolvimento da imunidade contra os vírus de Gumboro, pelo que tem se selecionado para a identificação e comparação dos vírus, sendo que as seqüências de muitos vírus ambos de campo quanto vacinais estão publicadas no Banco de genes (GenBank). Na tabela No. 1 se inclui um exemplo da forma como podem ser comparadas as seqüências de nucleotídeos ou aminoácidos entre as cepas.
As porcentagens de identidade se apresentam na parte superior direita da tabela (os de divergência na parte inferior esquerda). No extremo direito aparecem os nomes das cepas com seu correspondente número de ordem, por exemplo, a cepa OH (No. 1) representa o sorotipo 2 dos vírus de Gumboro, as cepas variantes A y E (Nos. 2 y 3), a cepa UK661 (No. 4) é protótipo para as cepas muito virulentas, a cepa STC (No. 8) é a cepa de desafio recomendada pelo departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a cepa Lukert (No. 6) é uma cepa vacinal clássica, as cepas 562SP y DR-1 (Nos. 7 y 8) são cepas de campo muito virulentas identificadas na Espanha e República Dominicana, e a cepa 9109 (No. 9) é uma cepa de campo dos Estados Unidos identificada como cepa clássica.
Com esta informação pode ser comparada a cepa de campo 562SP (No. 7) com as outras cepas, por exemplo, tem um 64.9% de identidade com a cepa OH do sorotipo 2, o que é esperado sendo que as cepas de Gumboro em frangos e galhinhas correspondem ao sorotipo 1. Esta mesma cepa de campo tem um 100% de semelhança com a cepa UK661, indicando que a cepa corresponde a um vírus muito virulento de Gumboro. É possível fazer outras comparações da relação entre a cepa de campo e outras cepas, incluindo as vacinais.
Situação durante o ano de 2007
A presença de cepas muito virulentas tem sido reportada em países como a Bolívia, Brasil, Colômbia, Uruguai, a Venezuela e mais uma vez na República Dominicana; no entanto, as mortalidades causadas por este tipo de vírus têm diminuído consideravelmente devido a ter se criado consciência acerca dos efeitos da doença e os programas de vacinação são praticados numa forma mais ordenada.
As cepas variantes têm se identificado na maioria dos países de América do Sul, sendo importante destacar que no Peru a maioria das cepas encontradas nas amostras recebidas para o diagnóstico corresponde a este tipo de cepas variantes. Nos países de América central se repete esta observação, mesmo sendo que o número de amostras analisadas é reduzido e que, portanto não permite fazer uma avaliação completa da situação de campo.
No México, a presença de cepas muito virulentas não tem sido diagnosticada, e as cepas de campo que se identificam correspondem a cepas variantes, semelhantes ás que se encontra nos Estados Unidos.
É difícil conhecer com exatidão as razões pelas quais em alguns países ou regiões não tem se encontrado as cepas muito virulentas, talvez os programas de biosegurança e de controle do movimento das aves sejam responsáveis nestes casos. Mesmo assim, até o momento não se conhecem os motivos pelos quais em alguns países a presença de cepas muito virulentas tem sido identificada em laboratório, sendo que no campo não se observam lesões ou altas porcentagens de mortalidade. É possível que nestes casos os programas de vacinação estejam proporcionando a proteção necessária para conter a patogenicidade dos vírus de campo.
Controle
Ao igual do que em outros países do mundo, o controle da doença de Gumboro em América latina se realiza através do uso de vacinas tanto nas mães (reprodutoras, avós, etc.) quanto nas progênies (frangos, franguinhos de postura comercial). As mães recebem uma combinação de vacinas que inclui vacinas a vírus vivo (dois ou três vacinas) e vacinas não ativadas (geralmente uma). Na maioria dos casos as vacinas vivas que recebem estas aves consistem em vacinas preparadas com cepas intermédias.
Nos programas de vacinação para frangos, existem numerosas vacinas e programas de vacinação. A vacinação inicial pode se realizar pelo sistema in ovo, ou ao dia de idade vacinado por injeção na planta de incubação. Mais uma vez, as vacinas usadas nesta vacinação são do tipo intermédio. No campo, as vacinas contra Gumboro se administram por diferentes vias como a água de bebida, aspersão e ainda alguns países o fazem individualmente através da aplicação oral/ocular.
As vacinas a vírus vivo utilizadas em frangos variam desde cepas intermédias de pouca patogenicidade, até cepas com maior poder de disseminação no frango. Estas últimas cepas vacinais têm recebido o nome de cepas “quentes” y são utilizadas quando as cepas muito virulentas do vírus de Gumboro causam altas porcentagens de mortalidade. Estas cepas são efetivas para o controle da mortalidade; porém, devem ser removidas dos programas de vacinação quando estiverem estabilizados as porcentagens de mortalidade e a doença tiver sido controlada.
As experiências no controle da doença de Gumboro, principalmente no frango de engorde, mostram um variado plano de vacinação com o uso de vacinas com cepas de tipo intermédio, intermédio plus e ainda cepas com maior poder de disseminação. Esta variabilidade deve-se a fatores tais como idade do sacrifício do frango, densidade na população avícola e tipo de doença presente na região ou país. Portanto, não é possível recomendar métodos ou procedimentos comuns para o controle da doença desde que as condições são variáveis em cada país ou região.
*Pedro Villegas é Professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Georgia.
Fonte : Revista AveWorld - Edição 32.