Fazer ou não fazer pousio na soja?

Imagem: Marcel Oliveira

ENTREVISTA

Fazer ou não fazer pousio na soja?

Pesquisadores apontam que deixar a terra sem nada pode aumentar incidência de insetos e daninhas na safra seguinte
Por: -Eliza Maliszewski
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A safra de soja 19/20 está praticamente encerrada e com bons resultados. São 120,3 milhões de toneladas de acordo com levantamento mensal da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O pousio da soja ou safrinha, momento em que a terra fica parada e sem nenhuma cobertura, vem se mostrando um manejo não recomendado para o controle de plantas daninhas. 

Já mostramos em outra reportagem que as plantas daninhas causam prejuízo de R$ 9 bilhões por ano, somente na soja. Conversamos com pesquisadores da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT) para entender como o pousio impacta do ponto de vista dos insetos e das plantas daninhas. Os entrevistados são a pesquisadora da área de Entomologia, Lúcia Vivan e o pesquisador da área de Plantas Daninhas e Tecnologia de Aplicação  de Defensivos Agrícolas, Autieres Farias.

Portal Agrolink: nesta época onde a soja é retirada pesquisas dizem que é melhor um cultivo de inverno do que  terra parada para a proliferação de pragas. O que é aconselhável para o pousio da soja?
Lúcia:
em área de plantio de soja que não serão semeadas culturas “safrinhas” é importante que se faça uma cobertura a fim de não deixar em pousio com plantas invasoras. As plantas invasoras (daninhas) podem manter população de insetos, servindo de abrigo a alimentação para esses. Nesse caso temos o percevejo barriga verde – Dichelops melacanthus que sobrevive em diferentes plantas, inclusive nas plantas daninhas que serão as mais comuns em um sistema de pousio não planejado. Esses insetos irão se manter na entressafra e com possibilidade de reprodução, pois muitas plantas daninhas são fonte de alimento para essa espécie, também se verifica aumento populacional, pois ocorre a reprodução dessa espécie em muitas espécies de plantas daninhas.

Outro inseto que pode se manter em uma área sem plantio é percevejo marrom – Euschistus heros, no entanto essa espécie usará essas plantas para sobrevivência durante um período, pois a qualidade desse alimento não viabiliza desenvolvimento de ninfas, no entanto pode ser um abrigo para essa espécie que apresenta uma diapausa em um período do ano, com temperaturas mais baixas, umidade baixa e fotoperíodo com dias mais curtos, nesse caso essa espécie procurará áreas de matas para seu período de diapausa.

O ideal é termos plantios de plantas de cobertura que podem ser milheto, brachiária, sorgo, crotalárias, dependendo do problema do cada produtor. É importante que essas coberturas sejam vistoriadas em relação ao taque de pragas, pois é comum termos lagarta Spodoptera frugiperda em áreas de milho, braquiária e sorgo.

Nesse caso, é importante que no momento da dessecação dessas plantas de cobertura, para o plantio da soja, observar a população de insetos, o ideal é fazer a dessecação antecipada a fim de desfavorecer os insetos presentes com a falta de alimento. Se não houver tempo hábil para fazer a dessecação é importante avaliar a necessidade de um inseticida no momento da dessecação.

Portal Agrolink: em termos de produtividade da safra seguinte melhor terra parada ou com uma cultura?
Lúcia:
uma cultura poderá trazer mais cobertura a área e também palhada, oferecendo proteção as plantas recém emergidas caso tenha um veranico.
 
Portal Agrolink: a rotação de culturas é velha conhecida do produtor mas que culturas ele pode implantar no pousio da soja para ter recuperação de solo e combate a pragas?
Lúcia:
em relação a pragas alguns insetos irão estar presentes nas coberturas, como lagarta spodoptera, lagarta helicoverpa, percevejo barriga verde, principalmente se essa cobertura for gramíneas. No caso da crotalaria também será fonte de abrigo e alimentação para os percevejos e para lagarta helicoverpa.

No entanto, é importante monitorar essas áreas e tratá-las com uma cultura de entressafra, a fim de não proliferar e manter os problemas para a cultura subsequente, que na maioria das vezes será a soja. Importante ressaltar que sistemas de plantio direto da soja contribuem para aumentar o complexo de inimigos naturais e diminuir a ocorrência de várias espécies fitófagas. Estudos mostram que o plantio com rotação de culturas favoreceu a sobrevivência de espécies saprófitas e, circunstancialmente, rizófagas que necessitam de palha para oviposição e desenvolvimento inicial, como larvas de elaterídeos entre outros.

Portal Agrolink:  que é aconselhável para o pousio da soja do ponto de vista da proliferação de daninhas?
Autieres:
além de pragas as plantas daninhas são hospedeiras de doenças, como macha-alvo, mofo branco e mantendo na área plantas tigueras de soja, podem manter a ferrugem asiática da soja na área, nematoides (Pratylenchus, Meloidogyne e Rotylenchus). Outro ponto de extrema importância e ausência de palha que pode ter grande benefício para a cultura na safra, ciclando nutrientes, protegendo o solo e conservando a umidade e evitando a erosão de solo.

Quando não se adota cobertura e se deixa a área em pousio a infestação com plantas daninhas aumenta muito os custos de dessecação para posterior plantio da cultura e que posterior custo de produção.

É muito importante a informação sobre quais plantas daninhas temos na área, para melhor posicionar a cobertura, quais herbicidas posso utilizar, quais nematóides temos na área para evitar posicionar coberturas que multipliquem os nematóides e aumente a população desses. 
 
Portal Agrolink: Em termos de produtividade da safra seguinte melhor terra parada ou com uma cultura?
Autieres:
além da palhada é importante ciclar nutrientes, fixando nitrogênio, cobrindo e protegendo o solo, colocando carbono em subsuperfície, evitando problemas com erosão e minimizando problemas como compactação de solo e reduzindo custos de produção.

Portal Agrolink:  que culturas o produtor pode implantar no pousio da soja para ter recuperação de solo e combate à plantas daninhas?
Autieres:
para plantas daninhas é muito importante o posicionamento de coberturas logo após o levantamento de quais espécies se tem presente na área, pois se temos gramíneas é muito importante posicionar Eudicotiledôneas, se temos folhas largas é interessante posicionar monocotiledôneas, dessa forma, temos herbicidas seletivos.
Caso contrário, temos que posicionar e utilizar outras estratégias de manejos mais robustas tecnicamente que encarecem o sistema.  

Portal Agrolink: a atitude certa pode impactar em menos uso de herbicidas na safra seguinte?
Autieres:
com toda certeza sim! Utilizar plantas de cobertura reduz banco de sementes do solo, além de manejar plantas de difícil controle que poderiam  arrastar o custo de produção para cima. Coberturas são fáceis de serem manejadas e competem e suprimem plantas daninhas, além de formar palhada que cobre o solo e evita a fluxos de emergência de  outras plantas daninhas nas culturas subsequentes. Reduzindo o custo de dessecação, pré-emergentes e pós. podemos reduzir em alguns casos em mais de 70% com herbicidas. E de forma indireta reduzir a competição com a cultura por falha de controle.
 


 


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