Coluna Detalhe

Um olhar analítico sobre alimentos orgânicos

Por:
acessos

Um olhar analítico sobre alimentos orgânicos

Decio Luiz Gazzoni

 

Liminarmente, quero deixar muito claro: nada tenho contra produzir ou consumir alimentos orgânicos. Sua produção é uma das formas de agricultura, e todas elas têm o mesmo objetivo que é oferecer produtos – alimentos, fibras, fitoterápicos, madeira, energia – aos consumidores. Portanto, bem vindas sejam todas as formas de contribuição para saciar a fome no mundo.

O que não me agrada são inverdades ou meias verdades, alegações que se propagam na mídia, ou nas redes sociais, feito fogo morro acima (ou água morro abaixo), mas que não resistem ao crivo da demonstração científica. Neste particular, recomendo a leitura dos artigos da Profa. Nathalia Pasternak ((revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2019/11/16/o-mito-da-superioridade-dos-organicos) e do Prof. Claud Ivan Goellner (sindag.org.br/alimentos-organicos-e-concepcao-errado-do-risco-zero-ou-seguranca-absoluta/), que expandem o tema deste artigo e abordam outros.

As alegações que são efetuadas a respeito de orgânicos objetivam, claramente, diferenciá-los de outros alimentos. Ora, isto se aprende em uma das primeiras aulas de qualquer curso de marketing. O que me lembra o famoso dito de Dan Glickman, ex-Secretário da Agricultura dos EUA, quando do lançamento da legislação sobre orgânicos: Let me be clear about one thing: the organic label is a marketing tool. It is not a statement about food safety, nor is ‘organic’ a value judgment about nutrition or quality (Deixe-me ser claro sobre uma coisa: a certificação orgânic é uma ferramenta de marketing. Não se trata de uma afirmativa sobre segurança de alimentos, nem “orgânico” é um julgamento de valor sobre nutrição ou qualidade).

Absolutamente nada tenho contra um produto se diferenciar de seus similares. Desde que os atributos sejam verdadeiros e seja entregue tudo o que promete. E uma alegação é que a produção orgânica não usa agrotóxicos. Meia verdade: Usa, sim, caso contrário não haveria colheita, que seria devorada por pragas como lagartas ou dizimada por fungos. Só não podem ser utilizadas moléculas sintéticas. Mas, os produtos naturais utilizados para controle de pragas em cultivos orgânicos são absolutamente seguros? São inócuos para os seres humanos e para outros animais?

Há controvérsias. Por exemplo, a afirmação de que os agrotóxicos ditos naturais, como a piretrina, a nicotina ou o óleo de nim, utilizados na agricultura orgânica, são inofensivos para o homem e outros animais, varia entre mito, inverdade ou meia verdade.

 

Nim

O óleo de nim (Azadirachta indica), ou sua substância ativa contra pragas, a azadiractina, são largamente utilizados para controle de insetos pragas na produção orgânica. A principal base de dados em escala global, que congrega informações sobre pesticidas (pesticideinfo.org), aponta que há falta de informações a respeito da azadiractina em relação à sua a toxicidade aguda, carcinogênese, contaminante de águas subterrâneas, toxicidade para o sistema reprodutivo e desenvolvimento fetal. O efeito alergogênico por contato dermal é comprovado, sendo o óleo de nim suspeito de causar disrupção endócrina.

O Dr. Robert Krieger (ver detalhes em http://faculty.ucr.edu/~krieger/KriegerCV.pdf) refere casos de mortalidade humana por uso de óleo de nim na Índia e na Malásia. Cinco a dez mililitros do óleo, administrado oralmente a crianças como remédio anti-helmíntico, causaram vômitos, sonolência, taquipneia com respiração acidótica, leucocitose polimorfonuclear e encefalopatia, desenvolvidos em poucas horas após a ingestão. Convulsões associadas ao coma desenvolveram-se em alguns casos. A autópsia demonstrou infiltração pronunciada de ácido graxo no fígado e nos túbulos renais proximais, com dano mitocondrial e edema cerebral, alterações compatíveis com a síndrome de Reye (doença rara e grave que causa confusão mental, inchaço no cérebro e danos ao fígado). Também existem inúmeras referências do impacto negativo da azadiractina sobre insetos úteis (https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/Azadirachtin_A#section=Safety-and-Hazards) e sobre peixes, abelhas e animais aquáticos (https://link.springer.com/article/10.1007/s13592-016-0473-3).

 

Piretro

Trata-se de uma substância extraída do crisântemo. Possui acentuado efeito inseticida, porém é facilmente degradado, especialmente por fotólise, razão pela qual foi modificado em laboratório, originando os piretroides. De acordo com o Depto. de Saúde de New Jersey (EUA), a exposição de humanos ao piretro pode causar desde pequenas irritações e alergias, até dificuldade de respiração, asma, dores de cabeça, vômito, fadiga e opressão no peito. Pode danificar os pulmões e causar catarro crônico. Foi constatado que o piretro pode causar danos ao aparelho reprodutivo, porém seu potencial carcinogênico não foi estudado até o momento. Assim como os piretroides, o piretro também possui efeito adverso sobre diversos animais de sangue quente e insetos úteis, como abelhas e inimigos naturais.

 

Nicotina

A nicotina era muito usada como inseticida, até meados do século passado, tendo sido praticamente eliminada do campo pela sua alta toxicidade, restando apenas os usos na agricultura orgânica, normalmente com preparados a partir do fumo ou de folhas de tabaco (Nicotiana tabacum).

A nicotina é muito tóxica, sendo sua dose letal média (DL50) de 0,8mg/kg de peso vivo, ou seja, seriam necessários apenas 56mg para levar a óbito 50% das pessoas que a ingerissem. Essa dose é muito semelhante ao cianeto, de 0,7 mg/kg. Considerando que uma folha de fumo pesa, em média, 10g e que a concentração de nicotina nas folhas gira em torno de 3,26%, temos que uma folha contém 326mg de nicotina. Logo, o conteúdo de nicotina de uma única folha de tabaco é sete vezes superior à dose que levaria a morte 50% das pessoas que ingerissem essa quantidade.

Detalhe irônico: Por conta de sua alta toxicidade para animais de sangue quente, os químicos modificaram a molécula da nicotina, criando um grupo de inseticidas sintéticos denominado neonicotinoides, de muito baixa toxicidade para humanos e outros vertebrados, mantendo a sua eficiência no controle de pragas. Porém, neonicotinoides sintéticos não podem ser usados na agricultura orgânica.

 

Finalizando, reitero a mensagem inicial, com o registro de que alimentos orgânicos sempre são mais caros que convencionais. Portanto, destinam-se a um nicho de mercado de alto poder aquisitivo. Esse fato, aliado com a menor produtividade de cultivos orgânicos por área cultivada, não permite deles esperar a redenção da fome no mundo. Mas, sem dúvida, contribuirão para tanto. Poderiam também contribuir para um mundo em que todas as alegações que diferenciem um produto de seus concorrentes sejam efetivamente demonstráveis.

 

O autor é Engenheiro Agrônomo, membro do Conselho Científico Agrosustentável.


Atenção: Para comentar esse conteúdo é necessário ser cadastrado, faça seu cadastro gratuíto.
  • Clicar no botão Entrar caso já possua cadastro no Agrolink
  • Se não tiver cadastro ainda em nosso site Cadastre-se gratuitamente e terá acesso a conteúdos exclusivos
  • Clique aqui todas as vantagens de fazer seu cadastro no Agrolink