Acordo comercial iminente entre Mercosul e Europa poderá pôr fim à Alca
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Agronegócio

Acordo comercial iminente entre Mercosul e Europa poderá pôr fim à Alca

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As maiores economias da América do Sul ficaram nesta segunda-feira (19-04) um passo mais próximas o acordo comercial com a União Européia, o qual poderá complicar os esforços para forjar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) até o final do ano.

As autoridades da União Européia e do Mercosul -o bloco comercial que inclui Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai como membros plenos, e Bolívia e Chile como associados- trocaram ofertas no fim de semana em Buenos Aires, com a intenção de fechar o acordo até outubro. As negociações também conseguiram obter progresso na agricultura, um setor que repetidamente tem provocado o colapso de negociações globais de comércio.

"Nós melhoramos substancialmente nossa oferta, e eles responderam atendendo a nossas maiores prioridades, principalmente na agricultura", disse Regis Arslanian, negociador-chefe do Brasil nas conversações com a União Européia.

A corrida para expandir o comércio com a Europa ganhou nova urgência para o bloco sul-americano no início deste mês, após as conversações separadas em Buenos Aires para início da Alca, composta por 34 países, ter acabado em impasse pela terceira vez em dois meses.

O impasse levou os negociadores a adiarem por tempo indeterminado o encontro de cúpula comercial pan-americano previsto para o final deste mês em Puebla, México, colocando em dúvida a probabilidade de que uma zona de livre comércio, incluindo todos os países do continente americano com exceção de Cuba, poderá ser conseguida até a data alvo de janeiro de 2005.

"Há dois anos, ninguém pensava que as negociações com a União Européia eram sérias - todos diziam que a Alca viria primeiro", disse Marcos Sawaya Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, ou Icone, um grupo de pesquisa de São Paulo. "O que surpreende é que agora é o oposto."

EUA x UE

Temendo que um bloco comercial nas Américas possa deixar empresas e bens europeus em desvantagem na América do Sul, a UE (União Européia) começou a cortejar os países do Mercosul -especialmente os pesos pesados regionais Brasil e Argentina- há cerca de cinco anos.

As disputas em torno da agricultura -uma área na qual os países sul-americanos são mais competitivos e na qual a Europa é mais protecionista- atrapalhou as negociações desde o início. Mas a UE atraiu o Mercosul de volta à mesa neste fim de semana, oferecendo algumas concessões na agricultura.

Mas as autoridades européias se recusaram a discutir os subsídios agrícolas, um ponto delicado que também está atrasando as negociações nas Américas. Em vez disso, Bruxelas propôs uma abordagem em dois passos, na qual ofereceria inicialmente ao Mercosul cotas mais generosas de importação para produtos agrícolas como carne bovina, laticínios, açúcar e café solúvel. As cotas restantes seriam distribuídas posteriormente na rodada de Doha das negociações da Organização Mundial de Comércio.

Em troca, o Mercosul ofereceu à União Européia acesso privilegiado a novos investimentos e setores de serviço, particularmente telecomunicações e bancos. O bloco sul-americano também prometeu acelerar a redução das tarifas de importação sobre bens europeus e fornecer maiores proteções legais para os investidores estrangeiros.

Os negociadores de ambos os lados devem se encontrar novamente em Bruxelas, na primeira semana de maio, para acertar detalhes, e um esboço do acordo poderá ser apresentado já em 28 de maio, no encontro de cúpula da União Européia e América Latina em Guadalajara, México.

A aparente troca do pacto pan-americano pelo europeu também reflete as políticas domésticas no Brasil e na Argentina, onde os dois governos de esquerda têm buscado evitar serem vistos como muito amigos de Washington. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil, até mesmo alertou enquanto estava em campanha que a Alca poderia significar a "anexação" do Brasil pelos Estados Unidos caso as negociações não fossem cautelosas, apesar de ter atenuado sua retórica de lá para cá.

E com a campanha presidencial nos Estados Unidos já explorando o grande temor com a migração de empregos para o exterior em conseqüência, em parte, dos acordos de livre comércio, o pacto continental também está enfrentando resistência em Washington.

"Não há dúvida de que não há muito interesse em Washington para quaisquer novos acordos comerciais neste ano", disse Riordan Roett, diretor do Programa para o Hemisfério Ocidental da Universidade Johns Hopkins.

"E não há dúvida de que o atual governo em Brasília preferirá fechar o acordo com a União Européia neste verão ou no início do outono", disse Roett. "Será um acordo comercial relativamente leve, mas simbolicamente e diplomaticamente será muito importante."

O Mercosul também está aproveitando o esfriamento nas negociações da Alca para se aproximar de um dos mais estreitos parceiros comerciais de Washington -o México. Em uma viagem para a Argentina na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do México, Luis Ernesto Derbez, disse que o México foi convidado a se juntar ao bloco comercial sul-americano.

Ainda assim, os Estados Unidos, que são co-líderes das negociações pan-americanas ao lado do Brasil, disseram estar confiantes de que um acordo poderá ser fechado até o prazo do próximo ano. "Nós estamos trabalhando arduamente com outros no processo da Alca para cumprir nosso mandato", disse Richard Mills, um porta-voz do representante de comércio dos Estados Unidos, Robert B. Zoellick, na última sexta-feira (16/04).

Em Brasília, o espírito é menos otimista. Apesar de as autoridades brasileiras insistirem que não perderam a esperança nas negociações continentais, elas disseram que cabe ao governo Bush romper o impasse.

Após as negociações terem atingido um bloqueio de estrada no início deste mês, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, enviou uma carta dura, algo incomum, para Zoellick, na qual sugeriu que os americanos envenenaram as negociações. Na carta, Amorim criticou os Estados Unidos por insistirem em "questões paralelas" em vez de prosseguirem na "mutuamente benéfica negociação de acesso ao mercado".

Segundo Adhemar Bahadian, co-presidente das negociações com as Américas e cônsul geral do Brasil em Buenos Aires, "se os Estados Unidos não adotarem uma abordagem mais flexível, então está óbvio que não haverá um acordo".


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