As ameaças da guerra à segurança alimentar e commodities agrícolas
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Imagem: Divulgação
OPINIÃO

As ameaças da guerra à segurança alimentar e commodities agrícolas

Brasil é dependente desse insumo. Importamos mais de 80% do total que consumimos. Em 2020, demandamos 40 milhões de toneladas, dos quais 33 milhões foram comprados no exterior
Por:

Fábio de Salles Meirelles*

O sexto levantamento da safra de grãos 2021/22, que acaba de ser divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), reitera a resiliência, grau de profissionalismo e eficácia do agronegócio brasileiro. Apesar das agruras inerentes a dois anos de pandemia, estiagem enfrentada em vários estados, dificuldade de acesso ao crédito, alta dos juros e recrudescimento inflacionário, deverão ser colhidas 265,7 milhões de toneladas, 4% a mais do que na temporada anterior. A área plantada apresenta crescimento de 4,3%, atingindo 72,7 milhões hectares.

Os números demonstram que nossa agropecuária, como tem ocorrido há anos, seguirá contribuindo de modo significativo para a economia nacional, tanto no mercado doméstico quanto no externo. É previsível uma receita agropecuária robusta em função dos preços das commodities, como soja, milho e algodão, e dos resultados positivos nas exportações. Porém, neste momento, a sustentabilidade do setor corre um risco sem precedentes: ameaça da falta de fertilizantes minerais.

Infelizmente, o Brasil é dependente desse insumo. Importamos mais de 80% do total que consumimos. Em 2020, demandamos 40 milhões de toneladas, dos quais 33 milhões foram comprados no exterior. Deste total, 23% são provenientes da Rússia e 3% de Belarus. As sanções econômicas aos dois países em decorrência da crise política no Leste Europeu, agravadas agora pela invasão da Ucrânia, ameaçam nossa produtividade agrícola, que só cresceu nos últimos anos. Para isso, o fertilizante é muito importante, somado aos avanços genéticos das sementes, ao conhecimento técnico dos produtores e agrônomos e à tecnologia empregada no campo.

A situação piora, sem uma perspectiva de solução em curto prazo. A Rússia, independentemente das sanções do Ocidente, recomendou aos fabricantes de fertilizantes que suspendam as exportações. Seu governo quer garantias de efetivação das entregas e recebimento, considerando que navios de contêineres, caminhões e trens do sistema internacional de fretes param de operar em portos russos.

Como não temos qualquer controle sobre a situação geopolítica global, a não ser somar forças aos apelos de paz e entendimento, cabe-nos buscar soluções com urgência e eficácia. A primeira, que nos parece decisiva e premente, é ampliar a compra de fertilizantes minerais de outras nações produtoras, principalmente do Canadá, Estados Unidos e China, grandes parceiros comerciais do Brasil. Aliás, uma redução da nossa produção nacional de alimentos e commodities agrícolas afetaria a economia desses países, principalmente a norte-americana e a chinesa. Assim, temos solicitado que nosso governo redobre os esforços diplomáticos e comerciais nessa direção.

Em médio e longo prazos, o Ministério da Agricultura e Pecuária trabalha no Plano Nacional de Fertilizantes para reduzir nossa dependência externa. Porém, os resultados esperados, conforme estimam os especialistas e entidades do setor, não nos darão autossuficiência e tampouco surgirão em tempo de mitigar os presentes riscos.

Em outra frente, está o aumento da produção de adubos orgânicos, provenientes do tratamento de esgotos e resíduos da indústria e da própria agropecuária. Porém, sua produção atual é de apenas 1,5 milhão de toneladas anuais. Além disso, os compostos não substituem os minerais, sendo necessário ainda aumentar sua eficácia e produtividade. Por isso, é válido seu desenvolvimento, mas não como solução do problema atual.

Os produtores rurais brasileiros têm enfrentado e vencido numerosos desafios, desde os climáticos e pandêmicos até os que afetam genericamente a economia nacional. Porém, tão perplexos quanto todos os seres humanos de boa vontade, assistem entristecidos ao grave conflito no Leste da Europa. E pedem uma solução para que a guerra, além de seus intrínsecos horrores, não faça recrudescer inflação, a insegurança alimentar e a carência de commodities agrícolas.

*Fábio de Salles Meirelles é o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP). 


 


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