Brasil e Estados Unidos defendem Alca equilibrada
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Agronegócio

Brasil e Estados Unidos defendem Alca equilibrada

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O embaixador Adhemar Bahadian, co-presidente pelo Brasil das negociações da Alca, admitiu, dias atrás, que ele e seu parceiro na co-presidência, o norte-americano Peter Allgeier, não vinham se comportando exatamente como damas até recentemente, em face das agudas divergências entre os dois países.

Ontem, no entanto, seus respectivos chefes, Celso Amorim e Robert Zoellick, certamente como reflexo da trégua entre Brasil e EUA, foram "verdadeiras" damas nos discursos que inauguraram a 8ª Ministerial da Área de Livre Comércio das Américas.

Nem por isso deixaram de marcar posições e, no caso de Amorim, de usar de fina ironia para fazê-lo. Zoellick, em pelo menos três momentos de seu discurso, citou "Celso disse que...", ou fórmula parecida, para realçar concordância entre eles.

Mas não deixou também de afirmar que os Estados Unidos "vão se empenhar por um pacote muito forte [na Alca]", tal como vêm dizendo desde o início das negociações, em 1994.

Também não deixou de reafirmar a tese de que, "em todas as negociações, os benefícios correspondem aos compromissos". Traduzindo: quem assume mais compromissos (por exemplo, em serviços, propriedade intelectual, investimentos e compras governamentais) recebe acesso mais amplo ao mercado americano.

Como o Brasil não quer compromissos muito amplos nessas áreas, teria menor acesso ao mercado dos EUA, que é, bem feitas as contas, o grande prêmio da Alca.

Mas Zoellick teve que reconhecer que "o mundo é diferente neste início de século do que nos anos 90" (quando os governantes das Américas se comprometeram com uma Alca abrangente).

Uma das mudanças: "Governos diferentes", óbvia alusão ao fato de que, tanto no Brasil como na Argentina, há agora presidentes com reservas em relação à Alca.

Por fim, Zoellick cravou as duas qualificações que estão se transformando numa espécie de logomarca da Alca: "Ambiciosa, mas também equilibrada".

O chefe do comércio exterior norte-americano lembrou sua passagem anterior pelo governo, no fim da Guerra Fria, e, por extensão, da reunificação da Alemanha (início dos anos 90) para dar a dimensão da importância que atribui à Alca. Disparou: "Conseguir uma área de livre comércio das Américas teria importância histórica igual à desses eventos".

Celso Amorim usou esse trecho do discurso de Zoellick para uma primeira ironia: disse que, embora não tivesse participado de eventos tão importantes, estivera, por exemplo, na 1ª Cúpula das Américas (em Miami, em 1994), justamente a que lançou a Alca ambiciosa que os EUA suspeitam que o Brasil, agora, não quer.

A lembrança é maliciosa. Amorim era, de fato, o chanceler à época (no governo Itamar Franco), mas já havia um presidente eleito (Fernando Henrique Cardoso) e um novo chanceler designado (Luiz Felipe Lampreia).

Uma segunda ironia surgiu ao defender a necessidade de respeitar as "sensibilidades" de cada país: "Todos sabemos onde está a sensibilidade do Estado da Flórida", espetou. Nem precisou dizer que a "sensibilidade" é a defesa do suco de laranja e do açúcar do Estado, símbolos do protecionismo agrícola norte-americano que nem a idéia de uma "Alca ambiciosa" consegue arranhar.

Terminando o discurso, Amorim retomou o microfone para uma terceira ironia: disse que discursara em inglês, apesar de o português ser a língua oficial da Alca e "de mais fácil entendimento para os jornalistas brasileiros", exatamente para demonstrar que praticava o "equilíbrio" que ele e Zoellick defendem para a Alca.

Ironias à parte, o ministro também não deixou de marcar posições: colocou o acesso a mercado (derrubada das tarifas de importação) como ponto fundamental para o Brasil, o que, automaticamente, deixa em segundo plano regras para áreas como investimentos e propriedade intelectual.

E mencionou "três ou quatro palavras-chaves" para definir a Alca: ambição, equilíbrio e flexibilidade. A quarta palavra (tratamento especial e diferenciado) foi um anzol para os países mais pobres, que querem ter benefícios proporcionais à sua pobreza, e não a seus compromissos.

Eles não se sentem contemplados devidamente pelo texto de Miami, que os ministros começaram a discutir ontem, ao som dos helicópteros da polícia que não paravam de sobrevoar o centro da cidade, vigiando, do céu, os manifestantes que protestavam contra a Alca, seja ela leve ou pesada, ambiciosa ou equilibrada.


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