Café para o estrangeiro

Agronegócio

Café para o estrangeiro

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Após décadas de retração no campo, produto conserva liderança nas exportações de Londrina

Os vastos cafezais que cobriam a região de Londrina ficaram na história. Atualmente, a cultura, que foi responsável pelo desenvolvimento regional entre as décadas de 1940 e 1970, enfrenta reduções de área ano a ano. Os produtores que resistem têm dificuldades para manter suas lavouras. Paradoxalmente, mesmo não sendo mais o principal produto nos campos do Norte do Paraná, o café é a matéria-prima para o item de maior volume e valor na pauta de exportações de Londrina: o café solúvel.


Com larga vantagem sobre os demais produtos, os embarques de café renderam US$ 40,5 milhões a Londrina no primeiro bimestre deste ano (3/4 para o solúvel e 1/4 para o café em grão). O milho, segundo colocado, atingiu US$ 23 milhões. Em âmbito estadual, o café rendeu US$ 65 milhões, enquanto sexto produto nas exportações do agronegócio.

A valorização da soja e do milho frente aos altos custos de produção do café têm feito com que tradicionais cafeicultores desistam do cultivo, agravando o recuo iniciado em 1975, quando a geada arrasou os cafezais da região. Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), a área ocupada pelo produto no Paraná caiu de 164 mil hectares, em 2000, para cerca de 80 mil ha, em 2013.

A escassez e o encarecimento da mão de obra favorecem a redução da área dos cafezais, afirma Paulo Franzini, técnico do Deral em Apucarana e secretário-executivo da Câmara Setorial do Café. “A mão de obra representa 63% do total do custo de produção.”


Os produtores menos tecnificados trabalham no vermelho. A saca de 60 quilos de um café com padrão médio de qualidade está cotada a R$ 290. Para produzir a mesma saca, o produtor arca com custos que variam entre R$ 270 e R$ 300, conforme o Deral.

O coordenador de Projeto do Instituto Emater em Londrina, Ildefonso José Haas, diz que a redução da área ocupada pelos cafezais na região só não foi maior porque, há cerca de um ano e meio, os preços estavam em alta e a saca chegou a ficar entre R$ 470 e R$ 530. Houve recuo nos preços e quedas na produtividade agravam essa tendência, aponta Haas. “As lavouras estão mais velhas e os investimentos em tratos culturais menores.”

O especialista afirma que a tecnologia do adensamento das lavouras, lançada na década de 1990 pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Londrina, ainda pode viabilizar a cafeicultura. “Mas é preciso que haja investimento nas lavouras, com implantação de novas variedades e adequação para uso de máquinas.”

O coordenador de Projeto da Emater-PR em Londrina, que também é cafeicultor, observa que quem gosta da cultura, mesmo com tantas dificuldades, pensa duas vezes antes erradicar a plantação.

Mecanizar pode ser até barato, mas é pouco

Cuidar do cafezal com o cuidado dispensado a um pomar. Esta é a receita encontrada para produtores que acreditam na viabilidade da cultura no Paraná. O geneticista do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Tumoro Sera, que afirma ser cafeicultor muito antes de pesquisador (ele foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia do café adensado no estado e criador de algumas variedades da planta), defende que a cultura é ainda a melhor alternativa para o pequeno produtor. “Mais de 90% das lavouras cafeeiras estão em propriedades de até 10 hectares”, afirma.


Sera relata que durante 10 anos manteve uma lavoura de 10 ha, em Congonhinhas, no Norte do estado, e há quatro anos ampliou para os atuais 20 ha. “O objetivo é atingir 50 ha”, comenta entusiasmado. “É uma cultura viável, mas a maioria está patinando, principalmente aqueles que ainda não adotaram o modelo adensado e não investiram em mecanização”, observa.

O pesquisador garante que é possível mecanizar sem grandes investimentos. “Não é tecnologia cara. Inicialmente, pode-se adotar técnicas e equipamentos que são simples e baratos”, afirma. Sera observa que com um investimento entre R$ 10 mil e R$ 20 mil é possível mecanizar uma pequena propriedade.

“É preciso pensar na lavoura como uma empresa. O foco é produzir lucro, e não café. Para isso, é necessário tecnologia e informação, disponíveis com os pesquisadores e extensionistas”, recomenda o pesquidor-produtor, que teve café premiado pelo concurso Abic de Qualidade do Café.


Quem investiu em tecnologia no cafezal está colhendo melhores resultados. É o caso do produtor Francisco Barboza Lima, que cultiva 29 ha de café em sua propriedade, no município de Japira, Norte Pioneiro. Com boa parte do manejo da lavoura e tratos culturais feitos com máquinas, a produção de Lima não ainda não escapou dos altos custos da colheita manual. “A mão de obra ainda é o grande gargalo da produção”, comenta.

No entanto, Lima e sua família apostaram na agregação de valor ao produto para garantir resultados melhores. “Montamos uma pequena empresa para processar o melhor café da nossa produção”, afirma. Desta iniciativa surgiu o café gourmet Pecatto, que é comercializado em lojas especializadas de Londrina e com venda direta ao consumidor. No ano passado, ressalva Lima, apenas 10% de toda a colheita foi industrializada pela família, e o restante exportado.

Serviço:
As reivindicações dos cafeicultores, como controle de estoques por parte do governo, serão discutidas no 21º Encontro do Café, que ocorre na ExpoLondrina, dia 10, às 8h30 no Recinto José Garcia Molina e às 13h30 no Milton Alcover.

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