Cafeicultura

Cafeicultura de qualidade ainda resiste em cinco cidades da região

Mecanização ajuda a reduzir custos e municípios como Garça, Dois Córregos, Torrinha e Itatinga ainda mantêm produção de qualidade
Por: -Aurélio Alonso
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A mecanização foi importante para reduzir custos e manter a cafeicultura. O setor mantém produtores nos municípios de Jaú, Dois Córregos, Torrinha, Garça e Itatinga. Os tempos são outros: a produtividade não é no volume como no passado, mas a qualidade do produto tem se destacado. Produtores até obtiveram bom desempenho em concursos estaduais.

A safra no País deste ano deve atingir 44,77 milhões de sacas de 60 kg, inferior aos 51,37 milhões de sacas da safra passada, a maior da história do país, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mas é um setor que vem se fortalecendo.

Na região de Dois Córregos e Garça, cafeicultores ouvidos pelo JC relatam que a falta de chuva favoreceu a qualidade, mas fez a safra reduzir. O café é uma cultura bianual em que um ano a produção é alta e no seguinte baixa.

O Escritório de Desenvolvimento Regional de Jaú é composto por 14 municípios e possui cerca de 960 proprietários que exploram café comercialmente em uma área de 7.600 ha, mas o auge da cafeicultura foi a década de 1920. O município progrediu muito com os grandes produtores. A cafeicultura trouxe à ferrovia e muitos investimentos. A primeira crise que assolou o setor foi a quebra da Bolsa de Nova York de 1929. O município chegou a possuir 27 milhões de pés de café em área de 43.000 ha.

Depois da crise o setor ainda se recuperou e, em 1960 chegou a ter cerca de 16 milhões de cafeeiros, dos quais, oficialmente, aproximadamente três milhões com menos de 15 anos. Essa paisagem começou a mudar pela substituição do café pela cana-de-açúcar. Entre 1960 e 1964, mais de 20 mil hectares de cafeeiros foram arrancados e plantados cana. Em apenas dois anos, a lavoura de gramínea teria passado de 8 mil para 16 mil hectares, consta no relato de José Renato de Almeida Prado e Léa De Ungaro de Almeida Prado no livro "Terra Roxa Vida e Ciência na Estação Experimental de Jaú".

A cafeicultura ainda resiste em Dois Córregos com cerca de 300 produtores, Torrinha com cerca de 150 e Jaú com cerca de 20 produtores. A região de Garça e Pardinho são outros eixos de produção de café, mas também apostou na qualidade do produto.

O produtor de café e presidente da Associação dos Produtores Rurais de Dois Córregos, Alessandro Mendes de Camargo, destaca que a mecanização foi muito importante para cortar custos no setor, principalmente a da mão de obra. Atualmente os produtores têm máquina para beneficiamento e adquiriram equipamentos pelo projeto Micro Bacias II do governo estadual.

No caso de Torrinha, segundo Ricardo Cassola, o café persiste no município ainda por causa do tamanho das propriedades. "As áreas são menores e de agricultura familiar que ainda prefere a cafeicultura do que o plantio de cana", conta. Leia mais nas páginas 18 e 19.

Mecanização ajuda a cortar custos

O "império" da cana-de-açúcar ainda tem que conviver com a cafeicultura que no passado foi muito forte na região de Jaú. Nos tempos atuais a cultura ficou para as pequenas propriedades, mas a tecnologia com advento de novos equipamentos ajudou a viabilizar a produção, com mais rentabilidade e qualidade. O café é uma bebida que continua sendo consumida mundialmente, por isso mercado sempre vai existir. Em Dois Córregos, o setor vem se mantendo.

O agricultor e atual presidente da Associação dos Produtores de Café de Dois Córregos, Alessandro Mendes de Camargo, é típico homem do campo. Desde a adolescência convivia na propriedade do pai. A cafeicultura ainda é uma cultura que passa de gerações para gerações. Atualmente a produtividade média da região é de 35 sacas beneficiadas por hectare.

O engenheiro agrônomo de Torrinha Ricardo Cassola conta que o café realmente foi trocado pela cana-de-açúcar na região de Jaú, mas as propriedades que persistiram foram devido o tamanho menor da propriedade por não compensar arrendar para a cana.

Camargo confirma que se consegue produzir mais o café mesmo em área menor. O cafeicultor, no entanto, mantém diversidade de cultura. Ele não só planta café e arrenda parte da propriedade para a cana-de-açúcar que garante a renda para investimentos nos cafeeiros e outros até tem parte da área para pequeno rebanho de gado.

Em Dois Córregos, atualmente a Associação dos Produtores Rurais possui 15 produtores, a grande parte do município e pelo menos um de Dourado. Em 2014 os associados tiveram que mudar o estatuto para aceitar proprietário rural de município vizinho.

Mas o associativismo ainda é visto com reservas, segundo Camargo. De acordo com dados com Escritório de Desenvolvimento Rural de Jaú, em Dois Córregos há pelo menos 300 produtores de café. Em Garça também ocorre algo semelhante o número de associados é bem menor do que os produtores rurais que plantam café. Mesmo com o baixo interesse em participar de forma conjunta, a Associação dos Produtores de Café conquistou nos últimos anos um barracão, equipamentos para colheita e máquina para beneficiamento do café colhido.

Em novembro de 2016, num projeto com participação da Secretaria da Agricultura e Abastecimento foi entregue a unidade de beneficiamento, rebeneficiamento, classificação e armazenamento de café. Tudo isso, conforme Camargo, ajuda a garantir mais qualidade ao produto. A conquista foi uma parceria entre prefeitura e o governo do Estado. Os recursos são do Banco Mundial via projeto Microbacias II. O investimento chega a R$ 800 mil, sendo apoiados R$ 588 mil e a contrapartida de 30% dos associados conseguidos junto ao Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap).

Camargo explica que o fato de beneficiar o café colhido ajuda a aumentar o preço do grão de café vendido. Antes a safra praticamente tinha que ser vendida no chamado "café em coco" para o produto ser beneficiado em outro município. Hoje é no barracão da associação, onde também serve para estocagem da produção.

Auge da produção foi década de 20

O auge do café na região foi na década de 1920, mas 1929 com quebra da Bolsa de Nova York não trouxe só prejuízos aos americanos, a economia brasileira foi fortemente atingida. Nesse período o município de Jaú chegou a ter 27 milhões de pés de café em área de aproximadamente 43.000 ha. 

De acordo com o diretor técnico de Divisão do EDR de Jaú, João André Miranda de Almeida Prado, na região havia, em 1929, o total de 100 milhões de pés em área de 160.000 ha. Da noite para o dia muitos cafeicultores quebraram.

A Crise de 1929 atingiu em cheio a economia do Brasil, muito dependente das exportações de um único produto, o café. O crash provocou uma mudança no foco de poder no país, acabando com um pacto político interno que já durava mais de trinta anos.

A cafeicultura em Jaú ainda resistiu até a década de 60, quando começou a erradicação dos cafezais para o plantio da cana-de-açúcar. Entre 1960 e 1964, mais de 20 mil hectares foram arrancados e plantados com cana. Em apenas dois anos, a lavoura da gramínea teria passado de 8 mil para 16 mil hectares.

No livro Terra Roxa de José Renato de Almeida Prado e Léa De Ungaro de Almeida Prado que conta a história da Estação Experimental de Jaú especializada no aperfeiçoamento da cana relata que os produtores rurais não ponderaram com maior profundidade a substituição de cultura agrícola.

Cafeicultor diversifica produção 

O produtor rural Rinaldo Aparecido Gamba aposta na cafeicultura embora no Sítio São Pedro tem parte da área destinada ao plantio de cana-de-açúcar e gado. Mas a cafeicultura é o forte, onde tem uma estrutura boa com tulha, secadores e um terreiro para a secagem dos grãos colhidos.

A mecanização ajudou a reduzir os custos. A mão de obra para a colheita praticamente dificultava porque já não conseguia mais pessoas para fazer a colheita. Já há maquinário que faz esse tipo de serviço com eficiência. O espaçamento das plantas também mudou para possibilitar o uso das máquinas. Pelo menos 21 hectares dos 50 hectares são destinados ao plantio de café. "Prefiro o plantio do café do que a cana. Se o preço não está bom, você pode manter o produto armazenado. Com a cana tem que oferecer, implorar para comprar. O café vende na hora que você quiser", conta.

Garça tem maior área de plantio de cafeeiros na região de Marília

O café já representou um percentual alto do Produto Interno Bruno (PIB) do município de Garça, mas atualmente a indústria eletro eletrônica é responsável pela geração de empregos e renda, mas a cafeicultura no passado também teve forte presença na economia do Estado e ainda persiste no município com produção em áreas menores. A tecnologia possibilita que a produção seja até maior com novos espaçamentos do plantio, uso de mecanização e implementos. Na regional de Marília dos 100 milhões de pés de café nos 9 dos 13 municípios que têm plantio pelo menos 50 milhões de pés de café estão no município de Garça, o maior produtor com participação de 500 propriedades.

A qualidade do café é outro objetivo a ser destacado para conseguir preço melhor e até a exportação. Quem se dedica à cafeicultura já mantém uma estrutura há anos. Não basta somente o plantio. Na própria propriedade é necessário ter um terreiro para a secagem e equipamentos de pré-secagem. E se possível conseguir o beneficiamento do produto em conjunto com outros produtores. Só a venda do produto em grãos não representa obter bom preço final.

O engenheiro agrônomo Vanderlei Tavares Dias, da Coordenadoria de Assistência Técnica de Garça, conta que na agricultura a cafeicultura ainda responde com 80% da agricultura do município, depois vem a serigueira e a macadâmia (em menor quantidade).

Os produtores de Garça têm uma associação de produtores composta de 30 integrantes, embora o número de cafeicultores seja bem superior ao de associados. A cana-de-açúcar não emplacou com força nesta região. Também no passado o café foi de economia pujante nos arredores de Garça. Em Gália, por exemplo, a Fazenda dos Ingleses manteve uma alta produção na década de 50 até o negócio não representar mais grandes lucros ao grupo britânico que decidiu deixar o país no final do governo Getúlio Vargas. 

Na região de Marília, do qual Garça está inserida, de acordo com o diretor do EDR, Claudio Hagime Funai, atualmente a área total é de 27 mil hectares de café plantados. Houve um aumento se comparado aos anos anteriores. Conforme dados do Instituto Agronômico disponível no site da Secretaria de Agricultura e Abastecimento a área de produção em 2016 foi 24.551 ha, contra 24.253 ha em 2015 e um acréscimo em relação os dois anos seguintes a área de 25.178 ha em 2014. "Garça possui a metade da produção no EDR de Marília que é composto de 13 municípios, porém pelo menos 9 produzem café", citou o diretor Claudio Hagime Funai. 

Altitude ajuda Torrinha ter café de qualidade

O município de Torrinha tem 9.330 habitantes na região de Jaú e já foi conhecido como "café com leite" devido a produção agrícola cafeeira e de pecuária leiteira. Na área agrícola do Escritório de Desenvolvimento Regional (EDR) a cafeicultura tem 1.600 hectares de área plantada com pelo menos 150 produtores.

O número de agricultores é significativo pelo tamanho do município. Jaú que já foi muito forte tem 1.000 hectares com participação de 20 produtores. A cana ganhou força nesta região na década de 60 e aumentou ainda mais com a chegada do Pro-Álcool nos anos 80. 

A resistência da cafeicultura em Torrinha, segundo o engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica de Torrinha, Ricardo Cassola, é por causa do tamanho das propriedades. Por ainda persistir uma agricultor mais familiar, houve uma preferência de continuar na atividade.

Cassola cita também outro fator que ajudou ainda a manter a cafeicultura. "De 15 anos para cá, a tecnologia ajudou muito na mecanização das lavouras. Havia dificuldade na colheita de conseguir mão de obra, que começou a ficar cara e já não achava mais pessoas dispostas a fazer a colheita. A mecanização ajudou o pequeno produtor a continuar na atividade, junto com alguns programas do governo de aquisição de máquinas sem juros - o Pró-Trator e Pró-Implemento. Então, isso facilitou muito. Essa mecanização, mudou um pouco o manejo da cultura do café, o espaçamento e trabalhou-se com adensamento para trabalhar com essas máquinas. Isso resultou em aumento de produtividade", cita Cassola.

A condição climática do município também ajuda, com altitude média de 850 metros. "Isso é bom para a qualidade de café, se o manejo for feito de maneira correta e a secagem dos grãos. Então isso facilita em produtividade e qualidade", cita o engenheiro agrônomo.

O produtor rural e presidente da Associação dos Cafeicultores de Café Natural, do bairro Paraíso Alto, Ivanildo Gazola, disse que o clima da região diversificado, durante o dia a temperatura é mais alta e à noite há numa queda devido a altitude. "Essa variação ajuda para a qualidade do café, mas a produção de café em muitas propriedades vem desde os avós. A agricultura familiar acaba mantendo a gente", diz Ivanildo, cuja família centenária e ligada ao homem do campo.

Ele cita que os antepassados já enfrentaram crise de 1929 e a geada negra de 1975 que causou muitos prejuízos. Ivanildo ressalta que a altitude é importante para reduzir a possibilidade para geadas mais fortes que podem danificar os cafeeiros.

Torrinha já ganhou destaque estadual na 14ª edição do Concurso Estadual de Qualidade do Café de São Paulo. O agricultor Mario Marchionno foi o vencedor ao conquistar 2º lugar na categoria descascado. 

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