Caravana da Agrobiodiversidade visita experiências da Rede de Sementes da Paraíba

Agronegócio

Caravana da Agrobiodiversidade visita experiências da Rede de Sementes da Paraíba

Mais de 3 mil quilômetros rodados para intercambiar experiências sobre conservação, multiplicação e manejo da agrobiodiversidade.
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De Petrolina (PE) e Aracaju (SE) com destino ao Polo da Borborema e Sertão do Cariri Paraibano. Mais de 3 mil quilômetros rodados para intercambiar experiências sobre conservação, multiplicação e manejo da agrobiodiversidade local, com foco em Bancos e Casas de Sementes Comunitárias do Semiárido Nordestino. Com esse propósito, dois grupos de agricultores e agricultoras, agentes de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), pesquisadores, professores e alunos vindos da Bahia, Pernambuco e Sergipe se encontraram no último dia 3 de agosto, em Campina Grande-PB.

Além de garantirem a diversidade genética, as sementes preservadas na região são resistentes à seca e representam um patrimônio da agricultura local. Há uma relação muito forte dos agricultores paraibanos com as sementes crioulas que as famílias vêm guardando, selecionando e conservando de geração em geração.

Fruto da articulação da Rede Territorial de Agroecologia Sertão do São Francisco, que atua em Pernambuco e Bahia, a primeira Caravana da Agrobiodiversidade do Semiárido partiu de Petrolina dia 31 de julho. Conduzida por agentes da Embrapa Semiárido (Petrolina, PE), passou primeiro por Triunfo, no Sertão do Pajeú (PE), onde foram recebidos por representantes da Casa da Mulher, Centro Sabiá e Associação de Desenvolvimento Rural Sustentável da Serra da Baixa Verde (ADESSU) e puderam conhecer seis experiências na região. Já o grupo de Sergipe, saiu de Aracaju dia 2 de agosto e seguiu direto para a Paraíba para se unir à caravana em uma visita de intercâmbio de experiências. Coordenado por agentes da Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju, SE), o intercâmbio é fruto de parceria entre o Núcleo de Agroecologia desta Unidade, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Instituto Federal de Sergipe (IFS) em torno de projeto de pesquisa relacionado à temática das sementes crioulas em Sergipe.

Na manhã do dia 3, os grupos se reuniram no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Queimadas-PB para assistir apresentação sobre a organização e o trabalho da rede e suas organizações no estado: a história das Sementes da Paixão, a visibilidade e valorização das experiências dos guardiões e guardiãs, as conquistas e as lutas pela estruturação de uma política de sementes para o Semiárido paraibano, além da atuação das sete dinâmicas territoriais presentes no estado ligadas à ASA Paraíba.

Na tarde do mesmo dia, a programação seguiu com visitas a três bancos de sementes nas comunidades de Torrões, Guritiba e Maracajá, no município de Queimadas. "O que mais me chamou atenção foi a história da fundação do banco, que começou com as mulheres se organizando", disse dona Maria José, agricultora assentada vinda de Sergipe. Ela participou da visita ao Banco de Sementes da comunidade de Torrões e conheceu, além da experiência do próprio banco, as dinâmicas organizacionais da comunidade: a cozinha comunitária, os fundos rotativos solidários, a organização da juventude e das mulheres. Dona Maria anotava em uma folha de papel suas impressões sobre tudo que via. Ela diz que estão tentando montar uma Casa de Sementes da Liberdade – como são chamadas as sementes crioulas no seu estado – na sua comunidade e que a caravana já lhe trouxe muito conhecimento.

Para Paola Cortez Bianchini, pesquisadora da Embrapa Semiárido e coordenadora do Núcleo de Agroecologia da Unidade, o trabalho com as Sementes da Paixão tende a trazer muitos benefícios para as comunidades e para a própria Embrapa no seu modo de fazer pesquisa, de entender ciência e na sua proposta de pesquisa em agroecologia. "Se a gente pensar numa perspectiva de trabalho em rede, a Embrapa tem a contribuir com a pesquisa para fortalecer e valorizar o conhecimento dos agricultores", diz a pesquisadora.

Na manhã do segundo dia de visitas, os grupos se dividiram entre as experiências dos bancos de sementes das comunidades Caiana, em Soledade, e Alto do Umbuzeiro, em São Vicente do Seridó.

Após as visitas de intercâmbio nas comunidades, o grupo se reuniu na Capela Santa Clara em Soledade, onde foi apresentada a pesquisa participativa das Sementes da Paixão, com ênfase no processo metodológico, construído a partir da valorização do conhecimento das famílias agricultoras sobre as suas sementes. "Os principais resultados dessa integração mostraram que as sementes da paixão produzem mais ou igual às sementes comerciais. Isso nos possibilita levantar subsídios para construção de políticas públicas que possam valorizar a rica biodiversidade de sementes presentes nos bancos comunitários de sementes", afirma o assessor técnico da AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa) Emanoel Dias.

Diversidade genética e patrimônio da agricultura local

Iniciado em 2009, o projeto "Transição Agroecológica – Construção Participativa do Conhecimento para a Sustentabilidade", coordenado pelo pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros Amaury Santos, tinha como foco o resgate das sementes crioulas nas regiões da Borborema e do Cariri, no Semiárido da Paraíba.

A Articulação do Semiárido (ASA), através do trabalho integrado entre diversas organizações não governamentais que atuam na Paraíba, mantém atualmente uma rede de Bancos de Sementes Comunitários que mobilizam aproximadamente 6.500 famílias em 61 municípios do Estado. De acordo com Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA, as pesquisas em parceria com a Embrapa fortaleceram a discussão e o trabalho com as Sementes da Paixão, como são conhecidas as sementes crioulas na Paraíba.

Conduzidos em parceria com o Polo da Borborema, a AS-PTA, o Coletivo Regional do Cariri, Curimataú e Seridó Paraibano, a Patac e UFPB, os ensaios de competição revelaram em seus resultados que muitas cultivares oriundas das Sementes da Paixão tiveram rendimento igual ou superior às sementes comerciais ou aquelas fornecidas por políticas públicas. "Isso mostra que o produtor conhece a sua terra, sua lavoura e sabe que cada semente "vinga" e desenvolve melhor em um determinado solo e em um determinado clima", acredita Santos.

Os trabalhos contaram com a participação dos agricultores em todas as etapas. Em conjunto com técnicos e pesquisadores, eles escolheram as variedades que seriam testadas e a forma de manejo. Em um segundo momento, avaliaram o desenvolvimento das plantas, identificando aquelas que poderiam atender melhor as suas necessidades, através da utilização de parâmetros definidos pelos próprios produtores, como produtividade, peso de grãos, número de espigas por planta, além da quantidade de palha produzida, produção de massa e resistência à seca. 

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