Censo agropecuário terá foco no produtor
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Agronegócio

Censo agropecuário terá foco no produtor

Pela primeira vez o Censo Agropecuário vai investigar a idade, sexo e escolaridade do produtor
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Pela primeira vez, o Censo Agropecuário, que começa em abril com cinco anos de atraso, vai investigar a idade, sexo e escolaridade do produtor. A questão aparece na lista das novidades, entre a coleta de dados sobre o efeito estufa e o uso de palm top (computadores de mão) pelos 68.141 recenseadores. “Esperamos encontrar grandes mudanças”, avisa o coordenador, Antônio Carlos Simões Florido. Uma delas é o envelhecimento da população que, aliado à queda da taxa de natalidade, provoca o esvaziamento da zona rural.

O fenômeno aparece em estudos pontuais no Sul e Sudeste do País e está no horizonte dos produtores. “Só estão ficando os velhos”, diz o fruticultor Ronaldo Serigioli, que cultiva goiaba e caqui em duas áreas arrendadas no interior de São Paulo, em Valinhos e Guapiara. Com 34 anos, é neto de um pequeno proprietário que viu sua terra ser fragmentada entre os oito filhos. “Viramos meeiros e em 2000, consegui arrendar”, conta.

Irrigante nômade

A solução, trazida por colegas japoneses, está criando uma nova categoria de homem do campo, a de irrigantes nômades. “É interessante, pois facilita o acesso a terra e melhora as condições da família. Não fosse isso, teriam que ir para a cidade”, diz o gerente de planejamento do Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas do Estado de São Paulo, José Luís Fontes.

Em São Paulo, segundo o Levantamento das Unidades de Produção Agropecuária (Lupa), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado, existem 1.472 áreas arrendadas por irrigantes, a maioria como Serigioli. “Parece pouco, mas estes são os que deram certo. Tem muita gente tomando tombo e estes, nem o Lupa vê”, alerta o engenheiro agrônomo Sérgio Basílio, que há 25 anos trabalha na extensão rural do Estado.

“Me firmei quando resolvi investir na comercialização”, conta Serigioli, que exporta parte de sua produção e entrega o restante para venda direta aos supermercados. “Na média, consigo preços 80% melhores do que na Ceagesp”. Segundo Basílio, além de ter comprador, o produtor arrendatário tem de saber usar a irrigação e conhecer a cultura. “E se precisar financiar, vai ter que arrumar uma garantia para o banco”. Serigioli não precisou. “Arrendei o pomar formado”. Ele ainda sonha em ter um pedaço de terra. “Assim vou poder diversificar e fazer o que quiser. No arrendamento só posso fazer o que o dono quer”, diz.

Celibato

“Outra grande mudança é a masculinização. O êxodo de jovens é maior entre as mulheres, que se recusam a casar com filhos de agricultores”, diz o agrônomo Valmir Luiz Stropasolas, que investigou 22 comunidades rurais da cidade de Ouro, no Vale do Rio do Peixe, oeste de Santa Catarina. Ele afirma que a situação da colônia se repete em outras regiões e identifica tendência ao celibato entre os que ficam.

A cidade, que tem seu nome inspirado no tom dourado dos campos de trigo maduro, abriga 900 propriedades onde funcionam 400 aviários e 370 granjas de suínos. Por ano, produzem 142 mil cabeças de porco, 24 milhões de aves, 640 mil sacas de milho e 6,2 toneladas de leite. “São colônias fortes, onde o problema financeiro não é determinante. Mesmo assim, os jovens não querem ficar”, conta Stropasolas.

“Eu sempre digo que é esta falta de tempo, ter aquele momento para não pensar em nada. Como o pessoal da cidade, que no fim de semana fica até duas da madrugada, enquanto nós não, temos que voltar antes porque temos bichinhos para cuidar”, relata uma das moças entrevistadas, da comunidade de Linha Pinheiro Alto. O trabalho que ela descreve, não remunerado, é tratado como “ajuda”, a mais crua definição da condição feminina no campo. “Na maioria das vezes, nem direito à herança em terra elas têm”, diz Stropasolas.

“Tenho um cunhado que fez assim. Estudou as filhas e deixou a terra para os meninos, como os antigos. Eu não. Tem que ser dividido igual para todos”, diz Teresa de Jesus Bisan, 50 anos, que ao lado do marido, Augusto Odair Bisan, 53 anos, produz 150 litros de leite por mês em uma área de 63 hectares na comunidade São José, na bacia do rio Águas da Cachoeira, a 25 quilômetros de Itararé, interior de São Paulo.

“É uma propriedade modelo, participante ativa do programa Balde Cheio, da Embrapa, que conseguiu aumentar sua rentabilidade”, conta o agrônomo Paulo Roberto Leite, da Casa de Agricultura local. “O filho, que havia ido embora para a cidade, voltou”.

“Mas já quer ir de novo. É uma pena. Vou ficar longe dos meus dois netinhos”, lamenta dona Teresa, que coloca o futuro de sua terra nas mãos da filha, estudante de veterinária em Curitiba. “Ela diz que vai voltar, porque gosta disso tudo, tem amor pela terra. Custou muita dor comprar isto aqui”.


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