Controle biológico de carrapatos tem resultados no RS
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Imagem: Divulgação
EM ANGUS

Controle biológico de carrapatos tem resultados no RS

Gastos com medicamentos foram reduzidos em 80%
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O Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de rebanho bovino do Brasil. De acordo com o IBGE, o estado registrou uma produção de mais de 13 milhões de cabeças, em média, no triênio 2016-2018. Um grande problema sanitário enfrentado pelos criadores da região, entretanto, é a infestação por carrapatos nas criações.

Principal praga da pecuária gaúcha, os parasitas são transmissores da Tristeza Parasitária Bovina e causam a morte de ao menos 100 mil bovinos por ano, segundo a SEAPDR. O ácaro é mais prejudicial aos rebanhos de raças europeias, como Angus, criados predominantemente na região. Diante disso, o uso recorrente de agentes químicos para combate do parasita possibilita que o carrapato fique resistente aos métodos tradicionais, tornando-os ineficazes e mantendo as infestações entre os animais. 

Iria Luiza Gomes Farias, criadora de Angus há 30 anos na cidade de Tupanciretã, lidava com o carrapato em seu rebanho todos os anos. A produtora faz o ciclo completo de 130 cabeças, e acompanhou uma alta infestação nos animais - e consequente incidência de Tristeza Parasitária - no verão de 2019. “Como consequência, várias cabeças tiveram perda do escore corporal. Utilizei produtos químicos injetáveis e pour on para controle do carrapato, sem sucesso”, pontua. 

Depois de inúmeras tentativas com carrapaticidas, Iria conheceu a Decoy Smart Control, desenvolvedora de soluções biológicas para controle de pragas. A startup criou dois produtos: um para ser aplicado no rebanho, e outro na pastagem, onde ficam 95% dos carrapatos de uma propriedade. As soluções têm como princípio ativo esporos de fungos, inimigos naturais dos carrapatos. Quando distribuídos no gado e no ambiente, entram em contato com o parasita, germinam e se desenvolvem, levando-o à morte em poucos dias. 

“Comecei a usar a solução no verão de 2019, com banho por aspersão a cada 21 dias. O resultado foi muito bom, tive uma redução drástica na incidência da Tristeza Parasitária Bovina”, conta. Segundo a produtora, considerando o primeiro semestre de 2019, quando não utilizava o produto, com o mesmo período de 2020, seus gastos com medicamentos, como terapia antimicrobiana, vitaminas e hepatoprotetores, usados principalmente no tratamento da TPB, foram reduzidos em 80%. “Os animais também pararam de perder peso”, conclui. 

Luiz Germano Schroder, produtor de 1800 cabeças também da raça Angus, enfrentava o mesmo problema em sua criação, localizada em São Sepé. “Como tem muitas lavouras de soja aqui na região, tivemos uma redução de área para criação de gado, e isso fez com que houvesse mais animal por hectare, e essa lotação foi um dos fatores que desencadeou as grandes infestações de carrapato”, explica. “Além disso, com o uso recorrente de produtos nas lavouras com os mesmos princípios ativos dos carrapaticidas, nossas terras recebem resíduos dos produtos, fazendo com que os carrapatos se tornem resistentes”, pontua.

O criador chegou a perder diversos animais como consequência de uma infestação violenta do parasita em sua criação. “Usei todos os produto químicos que poderia imaginar, pour on, e ainda assim aconteceu uma infestação muito forte. Nosso problema maior era a perda de peso e, em decorrência disso, os animais morriam”, conta. 

Há um ano, Germano decidiu testar as soluções da Decoy nos animais e no pasto. “Quando apareceram as primeiras larvas, já começamos a fazer os banhos. Em quatro dias, os animais estavam limpos”, relata. “Passamos o verão todo sem qualquer produto químico, e nenhum animal teve perda de peso. Não perdemos nenhuma cabeça”, finaliza. 

Como funciona a solução de controle biológico

Os fungos no produto encontram-se em seu estado latente, os esporos, que estão conservados em um óleo vegetal emulsionável. A forma de aplicação do produto é por meio de pulverização, portanto, o produtor precisa realizar o preparo de uma calda. Quando os esporos entram em contato com a água, iniciam um processo de ativação (germinação do fungo). E, ao ser colocado em contato com o carrapato, por meio da pulverização - seja no pasto ou nos animais -, o fungo completa seu processo de ativação, alojando-se no interior do parasita e desenvolvendo-se ali, até levá-lo à morte. 

Por meio de um tratamento estratégico e natural, o produto não deixa resíduos na carne no leite e pode ser utilizado em todo o rebanho, inclusive em vacas prenhes e bezerros. “Além disso, a solução não é tóxica para humanos, e nem para os animais, e, como se trata de um inimigo natural dos ectoparasitas, não há problemas com resistência ao seu método de controle”, explica Lucas von Zuben, CEO da Decoy. O custo médio do tratamento gira em torno de R$ 4,50 por gado e R$ 25 por hectare ao mês.

Enquanto aguarda a aprovação de documentos junto ao MAPA para iniciar a comercialização, a startup resolveu atuar diretamente no setor e estabeleceu um programa de parcerias com pecuaristas, como fez com Iria e Germano. “Disponibilizamos as soluções aos produtores por 12 meses e eles fornecem informações sobre o tratamento, além de uma ajuda de custo para o desenvolvimento das pesquisas. Pretendemos chegar a mil associações até o fim de 2020”, conta o executivo. 

Para von Zuben, o objetivo é oferecer alternativas mais sustentáveis e tecnológicas para manter a sanidade de uma criação, proporcionando bem-estar animal, qualidade de vida ao produtor e ao consumidor, e a preservação do meio ambiente. “É fundamental que utilizemos este conhecimento para realizar o melhor manejo do parasita. O sucesso no controle reduzirá os danos e garantirá melhor eficiência e maior produtividade dos animais”, finaliza.


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