Embrapa ministra treinamento para elaboração de inventários de ciclo de vida de produtos da agropecuária

Agronegócio

Embrapa ministra treinamento para elaboração de inventários de ciclo de vida de produtos da agropecuária

A Embrapa Meio Ambiente realizou um treinamento sobre "Elaboração de Conjunto de Dados de Inventário conforme Ecoinvent".
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A Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP), em parceria com a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e o Ecoinvent Centre, realizou de 31 de agosto a 2 de setembro treinamento sobre "Elaboração de Conjunto de Dados de Inventário conforme Ecoinvent", base de dados que hoje se encontra na versão 3 e é a principal e mais completa base de dados internacional utilizada para apoiar a elaboração de Inventários de Ciclo de Vida - ICV. O treinamento no Guia Metodológico e no editor deste banco de dados, o ecoEditor, foi destinado aos membros do projeto ICVAgroBR (Life Cycle Inventories of Brazilian Agricultural Products: a contribuition to the Ecoinvent database).

A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, coordenadora do curso e líder da Rede Embrapa de ACV (Avaliação de Ciclo de Vida), Marília Folegatti Matsuura, após dar informações acerca do ICVAgroBR aos membros do projeto, falou sobre a elaboração de inventários de processo para o Ecoinvent, que baseia-se no método de Avaliação de Ciclo de Vida padronizado pelas normas ISO 14040:2006 e 14044:2006.

Letícia Barrantes e Cássia Ugaya da UTFPR forneceram informações acerca das diferenças entre a versão 3 e 2 do Ecoinvent, bem como especificidades para o setor agrícola, incluindo a contabilidade de água e de carbono, além da mudança de uso da terra e suas emissões. Também ministraram aula sobre uso do ecoEditor, usando como exemplo específico a soja, parte importante do curso, pois possibilita acesso à base de dados do Ecoinvent.

Juliana Picoli da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp e estagiária da Embrapa Meio Ambiente deu sequência ao programa, falando sobre como criar um dataset no ecoEditor com sua devida documentação, como parametrizar fluxos e como avaliar a incerteza dos dados (Matriz Pedigree).

No dia 2 de setembro, via Skype, Emília Moreno Ruiz do Ecoinvent Centre explanou sobre os erros mais comuns de validação e como resolvê-los na submissão de datasets (conjunto de dados de inventário e metadados, que pode ser armazenado em um banco de dados) ao Ecoinvent, via ecoEditor.

Ecoinvent

Assim como o Brasil, outros países têm se deparado com o mesmo desafio de criar bases de dados de ICV adequadas às suas condições. Na França, o AgriBalise, desenvolvido pelo Institut National de la Recherche Agronomique (INRA), é um programa que visa gerar uma base de dados de ICV para as 40 matérias-primas agrícolas mais consumidas no país.

Na Suíça, o SALCA (Swiss Agricultural Life Cycle Assessment), conduzido pelo Agroscope Reckenholz-Tänikon (ART), compreende uma base de dados com ICV de produtos agrícolas suíços, desenvolvida em cooperação com o Swiss Centre for Life Cycle Inventories.

A Ecoinvent, a principal e mais completa base de dados internacional de Inventários de Ciclo de Vida, reúne milhares de conjuntos de dados e atende a mais de 6 mil usuários. É gerida pelas instituições Agroscope Reckenholz-Tänikon (ART), Empa, ETH Lausanne, ETH Zurich e The Paul Scherrer Institute.

Abrange inventários para produtos agrícolas, madeira, papel e celulose, outras fibras renováveis, metais, químicos, plásticos, eletrônicos, materiais de construção; e processos de geração de energia, transporte, engenharia mecânica e tratamento de resíduos.

Segundo Marília, os principais diferenciais desta base de dados são a credibilidade e transparência dos seus dados, bem como a independência das suas instituições de acolhimento. "Os usuários da Ecoinvent também podem atuar como fornecedores. Além disso, a integração dos conjuntos de dados gerados em diferentes países contribui para a internacionalização desta base de dados", explica ela. Deste modo, o treinamento oferecido aos membros do projeto é de extrema importância para gerar ICVs confiáveis, que permitirão a realização de estudos de ACV para produtos da agropecuária nacional.

Inventário de Ciclo de Vida (ICV)

O Inventário de Ciclo de Vida (ICV) de um produto consiste em um extenso e detalhado levantamento de dados, cuja execução demanda muito tempo e recursos, e que pode ser muito facilitada pela utilização de bancos de dados. Entretanto, Marília salienta que "os principais bancos de dados de ICV hoje disponíveis são europeus e norte-americanos e neles constam pouquíssimos inventários de produtos brasileiros".

Os ICV contabilizam o material e energia envolvidos em um processo produtivo e reúnem informações que descrevem quantitativamente a tecnologia empregada neste processo, bem como refletem seu escopo geográfico e temporal. Isto significa dizer que um ICV confere identidade a um processo. Assim, os ICV devem ser construídos respeitando fielmente o escopo dos processos, para que de fatos os representem. Para tanto é imprescindível a consideração das particularidades da região onde é praticado.

Algumas especificidades do Brasil, como a de ter uma matriz energética mais limpa e, para alguns produtos agrícolas (como é o caso da soja e da cana-de-açúcar, por exemplo), a de estar em um nível tecnológico bastante avançado, devem ser consideradas na elaboração de ICV e podem ser muito favoráveis em estudos de ACV comparativos. "Isto pode atender à defesa dos produtos brasileiros no mercado internacional e orientar políticas públicas", salienta Marília.

Até 2015 uma das maiores dificuldades para o uso da metodologia de ACV no Brasil era a inexistência de bancos de dados de inventários nacionais. A primeira base de dados de ACV foi lançada em março deste ano, conhecida como Banco Nacional de Inventários do Ciclo de Vida do Brasil – SICV Brasil.

Pesquisas em Avaliação de Ciclo de Vida

A Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) é uma ferramenta de gestão que permite avaliar o desempenho ambiental de produtos ao longo de todo o seu ciclo de vida. De acordo com Marília, "estudos de ACV tratam sistemática e adequadamente dos aspectos ambientais de sistemas de produto, desde a aquisição de matérias-primas à disposição final (cradle to grave)".

A ACV também se aplica à identificação dos estágios do ciclo de vida que mais contribuem para a geração de impactos; à avaliação da implementação de melhorias; à integração de aspectos ambientais ao projeto e desenvolvimento de produtos; e ao subsídio a declarações ambientais. "É uma metodologia com forte base científica e reconhecida internacionalmente, sendo padronizada pelas normas ISO 14040:2006 e 14044:2006", salienta.

Em vários países a ACV é considerada para a formulação de políticas públicas. Na Alemanha, por exemplo, é adotada como base para o estabelecimento de critérios para rotulagem ambiental de produtos e para a definição de quotas mandatórias de reuso e reciclagem. Na França, a regulação Grenelle exige certificações baseadas em estudos de ACV para todos os produtos industrializados comercializados no país. Na América Latina, México, Chile e Peru trazem em sua legislação a obrigatoriedade da realização de estudos de ACV para biocombustíveis. Segundo Marília, "exigências desta natureza podem vir a se constituir em uma barreira não-tarifária no comércio internacional, inclusive restringindo exportações de brasileiras", enfatiza.

Deste modo, "além de subsidiar a implementação de novas políticas públicas ambientais, a ACV habilita o setor privado a ofertar produtos menos impactantes ao meio ambiente, e permite aos consumidores adotar um comportamento ambientalmente amigável.

Lideradas por Marília, a Embrapa Meio Ambiente vem desenvolvendo desde 2009 trabalhos sobre ACV de biocombustíveis, além de outros produtos, sendo um novo desafio a ACV de produtos da pecuária.

Projeto ICVAgroBR

O projeto ICV AgroBR foi proposto dentro da chamada de propostas para "Life Cycle Inventory (LCI) data collection, LCI dataset creation and submission to ecoinvent', emitida pelo programa Sustainable Recycling Industries – SRI  em 04.02.2016. O ICV AgroBR  foi construído em conjunto com instituições externas (nacionais e internacionais). A assinatura está prevista para outubro de 2016.

Liderado também pela Embrapa Meio Ambiente, reúne mais seis Unidades de Pesquisa da Embrapa, (Agroindústria Tropical, Gado de Corte, Informática Agropecuária, Milho e Sorgo, Pantanal, Soja) e os parceiros Agroscope; Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol; Fundação Espaço Eco (FEE), Quantis e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), além de outros colaboradores..

O objetivo é elaborar ICVs de cana, soja, milho, manga, eucalipto e pecuária. Os inventários de pecuária serão os primeiros a constar em bancos de dados representando a realidade brasileira.

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