Ensino agrícola do Rio Grande do Sul está de luto

Agronegócio

Ensino agrícola do Rio Grande do Sul está de luto

Confira homenagem ao professor Calvete, o primeiro presidente da AGPTEA
Por: -Janice
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Confira homenagem ao professor Calvete, o primeiro presidente da AGPTEA

O ensino agrícola do Rio Grande do Sul está de luto, pois perdeu na última segunda-feira (18-04), um de seus grandes representantes e defensores: o professor Luiz Calvete Corrêa, um dos pioneiros na idealização da AGPTEA, em 1969. Na edição 18 de Letras da Terra, em junho de 2009, foi publicada uma entrevista com ele. Hoje, em homenagem a este grande homem, que mobilizou toda uma categoria em prol de uma educação rural de mais qualidade e um magistério mais digno, a entidade relembra aquele bate-papo com o Calvete. Ele contou um pouco dessa história que vem sendo construída pelo e para o Magistério do setor técnico agrícola gaúcho. Professor Calvete, a nossa admiração, o nosso respeito e a nossa homenagem.

Relembre a entrevista concedida pelo professor Calvete em junho de 2009:

Calvete nasceu em Santa Vitória do Palmar e se formou, em 1953, no curso normal rural na Escola Murialdo, em Ana Reck, Caxias do Sul. Por ter gostado muito, optou por seguir o caminho e, em 1956, se formou como técnico em Agricultura pelo Colégio Agrícola Visconde da Graça (CAVG), de Pelotas. Chegou a cursar o pré-vestibular para Agronomia, mas na véspera desistiu, porque o salário de agrônomo na época era muito menor que o de professor técnico. Mesmo imbuído do desejo de lecionar, por necessidade de sobrevivência decidiu trabalhar no serviço florestal. Até que conseguiu uma vaga na Sociedade Educacional Três de Maio (Setrem), para ensinar Zootecnia. Lá estabelecido, iniciou o cursou de Pedagogia em Ijuí, concluindo-o em Caxias do Sul. Fez concurso para professor na faculdade de Agronomia da Ufrgs, onde havia um curso para formação de docentes para o ensino agrícola. Ele não só foi aprovado como acabou sendo coordenador da atividade. O primeiro presidente da AGPTEA concedeu esta entrevista na sala do seu apartamento, em Porto Alegre. O vigor das suas palavras, que relataram os anos iniciais da trajetória da instituição, não escondeu a grande emoção, o carinho e o orgulho por ter iniciado essa história.

A fundação da AGPTEA

Como o senhor se sente sendo um dos fundadores da AGPTEA, uma instituição que está completando 40 anos, cumprindo um importante papel no Ensino Agrícola?

Eu me sinto realmente um vitorioso, porque a Associação começou do nada, eram só meia dúvida de gatos pingados, como se diz, que se juntaram e a fundaram. Na ocasião, fui eleito presidente, e assim fiquei durante dez anos, porque fui sendo reeleito. E não tínhamos nada, o nosso informativo era mimeografado, eu mesmo o passava no mimeógrafo a álcool. Inclusive, eu andava com o recibo da Associação no bolso, quando encontrava um, o cobrava, porque era a única maneira de termos um dinheirinho para selar, mandar correspondência. Nós nos prontificávamos a ajudar o pessoal do interior que tinha problemas na secretaria de Educação ou no Tesouro do Estado. Eles mandavam uma carta e eu ia lá pessoalmente para tentar resolver. Foi uma luta! Durante muito tempo foi isso. Hoje nós temos uma Associação que é uma potência, com um patrimônio muito grande, graças aos meus sucessores, que dinamizaram todo processo associativo.

Como foi a aceitação dos professores na época, eles começaram logo a se associar?

O primeiro empreendimento que nós fizemos foi uma viagem pelo interior do Estado, visitando todas as escolas agrícolas. E eu li na Letras da Terra que o Fritz (Fritz Roloff, atual presidente da AGPTEA) vai fazer isso neste ano. Depois de 40 anos, vai repetir o que foi feito naquela época. Mas, essa viagem foi graças a um professor da faculdade de Agronomia da Ufrgs, Paulo Shültz, que, para mim, foi o braço direito na fundação e na dinamização da AGPTEA. Ele tinha um trabalho de interiorização da agricultura, e me convidou para ir às escolas, pois ele não as conhecia. Eu aproveitei para angariar sócios, levei formulários para os professores preencherem. A iniciativa foi formidável, pois as escolas nos receberam com muito boa vontade, e em todas elas os diretores reuniram os professores técnicos para eu explicar a finalidade da Associação, a necessidade de termos associados para mantê-la. Nós tínhamos uma anuidade, que era insignificante. Eles se associavam e depois mandavam, por DOC bancário, o pagamento. Esse processo foi ficando difícil, porém, todos os anos nós realizávamos um Encontro do Ensino Agrícola, que até hoje acontece, e era quando eu já aproveitava para cobrar a anuidade daqueles que não tinham efetuado o pagamento, bem como daqueles que queriam se associar, e assim por diante. Foi uma luta de muitos anos. Bom, o nosso primeiro patrimônio foi uma máquina de escrever, que precisávamos para datilografar o informativo nas matrizes, para depois passá-las no mimeógrafo.

A motivação inicial

Comenta-se que na ocasião da fundação da AGPTEA havia uma angústia por parte dos professores em função das dificuldades do setor. Isso é verdade?

Sim, a maior angústia dos professores era quanto aos pagamentos dos salários, que atrasavam muito, até cinco ou seis meses. Sobre isso, tratávamos os problemas de cada um, particularmente, junto ao Tesouro. Nós conseguimos ir resolvendo caso a caso, e também que em pouco tempo se normalizasse a situação. O governo do Estado passou a se preocupar mais com o Ensino Agrícola, que até então era desconhecido. Só havia as escolas, que recebiam os alunos-bolsistas. O Ensino Agrícola sempre foi deixado em segundo plano dentro do esquema geral de Educação, até que nós começamos a nos movimentar. Nos encontros, debatíamos os problemas e mandávamos as resoluções para a secretaria de Educação. Isso tudo foi movimentando e hoje a Associação tem voz ativa na sociedade estadual. A AGPTEA atualmente é uma potência, graças aos presidentes que me sucederam e deram continuidade a esse trabalho.

Prioridades iniciais

Sabe-se que a sua prioridade era incentivar a formação do professor. Que ações elaborou para isso?
Um dilema muito grande era a formação universitária de professores para o Ensino Agrícola. Isso nós debatemos muito, em cada Encontro era reafirmado esse propósito, e, em uma ocasião, conseguimos − nessa época eu lecionava na Faculdade de Educação − um acordo com o Centro Nacional de Formação Profissional, de São Paulo, que viabilizou verba para a realização de um curso de graduação de professores para o Ensino Agrícola. Nós formamos duas turmas em Porto Alegre, mas, depois disso, não conseguimos mais recursos. E até hoje esse é um dos principais debates da Associação, que continua lutando pela formação de professores.

O senhor gostaria de citar mais alguma ação feita na época?

Além da formação de professores, que era a principal, fizemos também a que envolvia equipamentos para as escolas. Havia muita necessidade nesse sentido. As escolas agrícolas formavam os seus alunos com deficiência de equipamentos. E a AGPTEA ia em busca disso, fazia reuniões com autoridades educacionais da área e apresentava as dificuldades. Em alguns casos se conseguia.

Situação das escolas agrícolas

Então, o sucateamento que se vê hoje nas escolas já era uma realidade?

Sim, é um sucateamento de longa data. Comparando com as escolas industriais, que são técnicas também, o governo sempre deixou as agrícolas em segundo plano.

Ao que o senhor atribui esse descaso?
 

Não sei. Talvez seja por se tratar do meio rural, o agricultor ainda é chamado de colono. Esse descaso com o agricultor é que levou a isso, não comparando com a agricultura, que é uma necessidade e uma fonte de riqueza muito grande para o Estado.

Seria como se o colono já soubesse o que fazer e não precisasse aprender mais?

Exatamente. O governo só se lembra da agricultura na época da colheita, quando acontece uma boa safra, aí é bombardeada na imprensa. Fora isso, na hora de ajudar...
Atualmente, há escolas que recebem R$ 0,47 por aluno/dia, mesmo com internato.

Isso é um absurdo. Por isso eu defendo o projeto da Escola-fazenda, que atenderia a sua condição de auto-suficiência. As escolas agrícolas têm condições de ser auto-suficientes, mas, para isso, precisam de um empurrão do governo também.

O senhor acha que cooperativas nas escolas são um caminho para isso?

Sim. Há a necessidade de a escola vender os produtos. Na época, eles vendiam e os recursos auferidos iam todos para o Tesouro do Estado. Depois a escola tinha que pedir à secretaria dinheiro para as suas necessidades. Com uma cooperativa, seria auto-suficiente na administração.

Associação x sindicato

Na época da fundação da AGPTEA, por que a opção foi por uma associação e não por um sindicato?

Os sindicatos eram, na ocasião, mais próprios dos empregados do Comércio e da Indústria, da Agricultura tinha um ou outro. A associação era mais ligada à sociedade do que o sindicato, que era mais patronal ou dos funcionários, de empregadores e empregados. Além de ser mais ligado à política. Nós achamos que a associação era o passo inicial, quem sabe hoje já seja o momento para transformá-la em um sindicato. Na época não cabia. Jamais um sindicato teria o vigor que a Associação tem hoje, tendo sido iniciada por meia-dúzia de professores.
Então, desde o princípio a AGPTEA não teve ligação político-partidária?

Não, nunca se apoiou qualquer partido, e sempre foi autônoma na política. Cada um de seus elementos tomava a posição que queria.

Futuras ações

Pensando nesse marco dos 40 anos, o que pode ser feito daqui para frente?
Eu acho que ainda se pode lutar pelo projeto da Escola-fazenda na rede estadual. É necessário para gerar auto-suficiência.

Escola-fazenda

Como é a Escola-fazenda que o senhor preconiza?

É aquela na qual o aluno faz as suas aulas práticas trabalhando, produzindo, e que o resultado disso é revertido a favor do próprio estudante e da escola. O aluno recebe um salário de acordo com o número de horas trabalhadas.

Foi o senhor que idealizou este projeto?

Eu não digo que idealizei. A idéia da escola-fazenda veio do Ministério da Educação, mas, assim como surgiu, desapareceu. E eu, como me aprofundei na filosofia do projeto, publiquei artigos no Suplemento Rural do Correio do Povo, em fevereiro de 1972.

As informações são da assessoria de imprensa da AGPTEA.

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