Entrevista diretor executivo da ANDEF, Mário Von Zuben

ESPECIAL

Entrevista diretor executivo da ANDEF, Mário Von Zuben

Setor questiona os números divulgados por pesquisas e apresenta o contraponto
Por: -Eliza Maliszewski
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A polêmica já nasce no nome. Há quem prefira chamar de agrotóxico e há quem conteste e prefira defensivo agrícola. As discussões e discordâncias a respeito do uso na agricultura são antigas. Enquanto o campo defende a necessidade e diz aplicar somente o necessário, o urbano tende a questionar o uso indiscriminado, dando crédito às notícias que tratam os alimentos brasileiros como “envenenados”. Nesta reportagem vamos fornecer dados que abrangem os dois lados.

Pesquisas questionam o uso

Recentemente um quadro em um programa de humor de uma TV aberta causou revolta no setor. O episódio insinua que todos alimentos estão contaminados, causando inclusive a morte. Por outro lado diversos estudos e entidades defendem que o Brasil é um dos países que mais usa defensivos agrícolas no mundo. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) afirma que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o glifosato, produto mais usado na agricultura brasileira, é potencialmente cancerígeno em mamíferos e humanos e está relacionado com a mortandade de abelhas. 

Outra pesquisa questionada foi a divulgada pelo Instituto Butantã. O estudo encomendado pelo Ministério da Saúde analisou dez dos defensivos mais utilizados no Brasil. A imunologista Mônica Lopes-Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, revela que os pesticidas são extremamente tóxicos ao meio ambiente e à vida em qualquer concentração, mesmo quando utilizados em dosagens equivalentes a até um trigésimo do recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Não existem quantidades seguras”, afirma.

O outro lado da história

O diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF), Mário Von Zuben, questiona os dados. Um levantamento feito pela Unesp, Campus de Botucatu (SP), com dados da FAO levando em conta os 20 países que têm área produtiva considerável, diverge das outras pesquisas. Entenda melhor nos gráficos:

O primeiro mostra o investimento em defensivos no mundo. Nesta comparação o Brasil fica em 1º lugar. Mas isso não significa o 1º lugar em uso.

O segundo quadro avalia a utilização total de defensivos em 2017 por área cultivada (em hectares). O Japão lidera enquanto o Brasil aparece em 7º.

Na terceira comparação dos países que mais empregam defensivos por tonelada de alimento produzido o Japão mantem a liderança disparada, com US$ 95,40 por tonelada de alimento produzido, ficando o Brasil na 13ª posição, com um gasto de US$ 8,10 por tonelada, atrás de países como Estados Unidos e Argentina.

“Em linhas gerais a tecnologia tem sido bem usada no nosso país e por isso nosso destaque na agricultura mundial”, avalia Von Zuben. Ele também desmistifica as informações publicadas no “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia”, tese de doutorado de Larissa Bombardi, publicado pela USP. Nesse atlas consta a seguinte informação: “um dado fundamental a este respeito é que no Brasil tem-se 504 ingredientes ativos com registro autorizado, ou seja, de uso permitido. Entretanto, destes, mais de uma centena deles são proibidos na União Europeia, precisamente 149. Portanto, 30% de todos ingredientes ativos (agrotóxicos) utilizados no Brasil são proibidos na União Europeia”. 

Segundo o Diário Oficial da União  desses 150: 58 registrados no Brasil não são autorizados na UE; 43 não tem registro no Brasil; 40 tem uso exclusivo como domissanitários, biológicos, preservativos de madeira, feromônio, fumigante; 9 nunca foram submetidos na UE como Sulfentrazona (abacaxi, café, cana-de-açúcar, soja e citrus) e Clorimuron (soja, café e citrus). Para Von Zuben a palavra “banidos” é mentirosa. “Os motivos para essas diferenças entre Brasil e União Europeia são vários. A descontinuação de autorização pode ter sido feita porque não houve interesse do mercado, não foram submetidos para aprovação e as culturas e políticas daqui são diferentes das de lá”, rebate.

Ainda citando a diferença entre do uso de defensivos na agricultura brasileira com o de outros países há outro exemplo: o cultivo de oliveiras está em desenvolvimento no Brasil e tem 3 ingredientes ativos registrados. Em Portugal onde a atividade é consolidada há 26 registros. Quando a comparação é com o trigo a Alemanha tem 21 herbicidas, um inseticida e 10 fungicidas. Nenhum desses produtos tem registro no Brasil. A presença da cultura e de pragas são fatores determinantes para a necessidade ou não de defensivos agrícolas no país, visto que só haverá disponibilidade destas ferramentas conforme a demanda. “ Isso não significa nada. Lá isso tem importância. Aqui não. Vamos parar com esse discurso de que estamos envenenando a população. Cada região deve tomar decisões de acordo com suas culturas, clima e mercado e, assim, estabelecer seus marcos regulatórios”, contesta Von Zuben.

Desenvolvimento de novos defensivos

Do início das pesquisas até o início da comercialização um novo defensivo leva, em média, 18 anos no processo com custo aproximado de U$ 286 milhões. A parte de pesquisa onde cerca de 160 mil moléculas são sintetizadas dura 2 anos. Inclui inúmeros estudos e testes, garantindo a eficácia biológica e a segurança. O passo seguinte dura 8 anos. É onde de 200 a 300 moléculas são sintetizadas para selecionar 5 para os testes de eficiência biológica. São feitos estudos de segurança ambiental, de resíduos e toxicológicos. A partir disso uma molécula é selecionada. Nos 8 anos seguintes a indústria encaminha a documentação ao Mapa, Anvisa e Ibama para registro e espera a análise que define se o produto entra ou não no mercado. 

Atualmente há 30 moléculas em aguardo para registro sendo 14 delas consideradas prioridade para o Mapa. Mais da metade deles já tem registro em outros países concorrentes da agricultura brasileira como Estados Unidos, União Europeia, Argentina e Canadá. “A dose média usada hoje em relação aos anos 60, por exemplo, é de 12%. Com a aprovação desses 14 novos cairia para 9%. Os concorrentes do Brasil já estão a frente e nossa competividade pode estar ameaçada pela falta de tecnologia”, alerta. 

Legislação

A legislação que trata de toda a cadeia de defensivos agrícolas no Brasil é de 1989. Está na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 6299, que atualiza as técnicas e padrões científicos utilizados e inclui a introdução da Avaliação do Risco como técnica regulatória para o registro de defensivos agrícolas. A expectativa do setor é que as discussões a respeito sejam retomadas no até o final deste ano.

Recentemente a Anvisa aprovou o marco regulatório de classificação dos defensivos. A medida segue padrões internacionais tornando mais claros os critérios de avaliação e de classificação toxicológica dos produtos no Brasil. Também estabelece mudanças importantes na rotulagem, com a adoção do uso de informações, palavras de alerta e imagens que facilitam a identificação de perigos à vida e à saúde humana. Com isso, o Brasil passou a ter regras alinhadas com as de países da União Europeia e Ásia, entre outros, fortalecendo a comercialização de produtos nacionais no exterior.

A Andef avalia como um avanço para o setor. Confira na entrevista em vídeo:

Como forma de esclarecer e combater a desinformação no setor a plataforma Agro Saber traz diversas informações e opiniões de especialistas para combater as chamadas “fake news”. 

Crédito artes: Marcel Oliveira - Portal Agrolink

Vídeo: Eliza Maliszewski / edição: Marcel Oliveira


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