Equipamentos insuficientes e precários prejudicam a armazenagem
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Agronegócio

Equipamentos insuficientes e precários prejudicam a armazenagem

João Tadeu Vino, superintendente da fabricante de silos Kepler Weber, calcula que más condições de depósitos resultem na perda de 7% a 8% das colheitas
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João Tadeu Vino, superintendente da fabricante de silos Kepler Weber, calcula que más condições de depósitos resultem na perda de 7% a 8% das colheitas


Resultado da estiagem, a queda na safra de grãos deste ano permitirá, aparentemente, que a capacidade de armazenagem no Rio Grande do Sul seja compatível com a produção agrícola de 2012. Mas, apesar das 4.798 unidades armazenadoras, que juntas representam 26,6 milhões de toneladas de capacidade estática, comportarem o resultado da atual colheita de 21 milhões de toneladas de produtos como milho, trigo, feijão, soja e arroz, isso não impedirá que uma parte desta produção estrague em um dos muitos armazéns com estrutura defasada espalhados pelo Estado.


Investir em silos e armazéns modernos para substituir equipamentos que não se adequam mais ao padrão de qualidade e para suprir a demanda de conservação de grãos em anos que a plantação não sofre prejuízos com o clima é assunto que se mantém na pauta do setor agrícola. Em 2011, quando a produção bateu recorde de 28,8 milhões de toneladas, o déficit de armazenagem foi de mais de 2 milhões de toneladas. A carência vinha sendo registrada, em menor patamar, em anos anteriores, quando os investimentos em infraestrutura de armazenagem não acompanharam o crescimento da produção agrícola.

Apesar de o Rio Grande do Sul estar relativamente bem em termos de capacidade estática, se comparado aos demais estados brasileiros, a grande dificuldade neste sentido se apresenta na lavoura, onde a prática de conservar os grãos na propriedade ainda é iniciativa de poucos. Com exceção daqueles que cultivam arroz, a maior parte dos agricultores envia a produção para a indústria assim que termina a colheita. O resultado se vê nas estradas, com alto fluxo de cargas, na falta de caminhões em época de colheita e na formação de filas nas cooperativas e nos terminais portuários. Também há perda de poder de barganha daqueles agricultores que até gostariam, mas não conseguem armazenar, precisando acelerar a venda da produção.

Outro fator prejudicial para o bolso dos produtores se encontra mais afastado do campo, situado em beiras de estradas e outros pontos onde equipamentos com mais de 40 anos se deterioram, deixando a desejar nas condições de preservação dos produtos, e provocando perdas pós-colheitas. Apesar disso, as toneladas de grãos que estragam nestas unidades armazenadoras não são contabilizadas quando se calcula a relação capacidade de armazenagem e produção de grãos no Estado.

Segundo o superintendente da fabricante de silos Kepler Weber, João Tadeu Vino, este cenário não é uma particularidade do setor primário gaúcho. “No Brasil, hoje o déficit oficial de armazenagem está acima de 20 milhões de toneladas, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Só que este número é 50% maior e o déficit real são 30 milhões de toneladas”, alerta Vino, vislumbrando que, a cada ano, cerca de 10 milhões de toneladas de grãos produzidos no País se perdem por serem mal armazenadas em equipamentos antigos, e sem condições ideais. “No Rio Grande do Sul, onde esta situação é um pouco melhor do que nos outros estados, ainda tem o problema de que muito armazém está situado em região com pouca produtividade agrícola, deslocado dos centros de produção.”

O executivo destaca ainda que boa parte da colheita gaúcha ainda fica armazenada em caminhões, ou é guardada em silo-bolsa, “um equipamento de baixa qualidade. O resultado da soma destes fatores é que, no pós-colheita, se perde em torno de 7% a 8% da safra”, afirma Vino. “Parte da produção se perde já nas estradas, e outra parte fica sujeita a ser devorada por ratos, fungos e insetos, quando mal armazenada.”

Para evitar situações como esta, foi implementada a Certificação de Unidades Armazenadoras (Lei 9.973/2000), para estabelecer um padrão de qualidade na prestação destes serviços, fator que ainda deve contribuir para a redução drástica na capacidade estática do Estado - a não ser que sejam construídos equipamentos suficientes para substituir os antigos.

Rio Grande do Sul ocupa a terceira posição na capacidade estática do País

Dados da superintendência de armazenagem da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam que o Rio Grande do Sul é o estado brasileiro que possui o maior número de unidades armazenadoras de grãos. No entanto, o Estado ocupa a terceira posição do País em número de capacidade estática. No total, os equipamentos disponíveis em solo gaúcho são capazes de receber 26.675.432 toneladas. A maior parte desta capacidade está concentrada na região Noroeste, que responde por 40% do total. Cerca de 17% está na região Sudoeste e 15% no Sudeste, enquanto as regiões Metropolitana, Central e Nordeste respondem pelo restante.

“O fato é que ainda existem algumas regiões mais carentes de equipamentos do que outras”, diz o superintendente regional da Conab no Estado, Glauto Lisboa Melo Júnior. “E tem o agravante de que muitos equipamentos estão afastados da região produtora. Isso obviamente tem impacto no preço dos produtos, pois a distância encarece bastante o valor do frete.” De acordo com a Conab, 38% das unidades de armazenagem do Estado estão na zona rural, 14% funcionam em fazendas (dentro das propriedades), 6% ficam localizadas em área portuária e 42% estão em área urbana. Melo Júnior ressalta que somente 13% da capacidade de armazenagem estão nas mãos de pessoas físicas, 55% são administradas por pessoas jurídicas, 29% são de responsabilidade das cooperativas e 2,78% estão nos armazéns públicos. Os silos guardam 44% do total de grãos armazenados no Rio Grande do Sul. O restante fica a cargo de graneleiros (37%), silos isolados (8%) e armazéns convencionais (9,72%).

O assistente da superintendência da Conab/RS, Ernesto Irgang, admite que, apesar da capacidade estática “equilibrada” com a produção, existe necessidade constante de investimento em equipamentos para o serviço de armazenagem. “A maior urgência neste sentido deve ser do agricultor, a fim de que possa guardar sua produção e com isso obter melhor rentabilidade, para não ter que colher os produtos e já colocar à venda, ou ter que armazenar em silos de terceiros”, opina. Esta necessidade, no entanto, esbarra nas limitações de crédito e na burocracia de financiamentos, que têm impedido iniciativas, principalmente de médios produtores. Não à toa, o governo gaúcho tem estudado formas de facilitar o financiamento de silos para médios produtores e pretende apresentar soluções ao setor ainda em julho deste ano.

Fabricantes confirmam baixa demanda de silos no Estado por falta de ‘motivação’

O engenheiro Cairú Lampert, diretor da fábrica de silos Eplak Engenharia, diz que o Brasil, o País com a maior área agricultável do mundo, ainda “está engatinhando” em termos de armazenagem. E alerta: “Temos uma deficiência terrível de armazenagem no Rio Grande do Sul. Para piorar, a seca deste ano deverá influenciar na decisão dos produtores de construir, ou não, um equipamento de armazenagem para o ano que vem.” Lampert destaca que, apesar de existirem linhas de financiamento “suficientes”, falta motivação, por parte da iniciativa privada, de investir em equipamentos. “Isso pode ser um reflexo cultural, de preferir deixar a armazenagem por conta de terceiros”, opina.

A consciência de que é importante armazenar tem que ser do produtor, concorda o superintendente da Kepler Weber, João Tadeu Vino. “Muitos agricultores acham que não é importante, e colocam outras prioridades na frente. Como consequência, perdem dinheiro, porque têm que entregar a produção para quem quiser comprar na hora, e isso acaba barateando a venda.” Alguns produtores já se deram conta disso, mas o obstáculo são as barreiras ao empréstimo. “Aí têm que preencher uma série de requisitos, que incluem condições de crédito, licenças e autorizações para a obra (mesmo que seja na fazenda). Isso arrasta o processo. Então, a burocracia dos financiamentos leva a pessoa a desistir do investimento”, diz Vino.

Na Kepler Weber, somente 65% da capacidade produtiva foi utilizada em 2011, devido à falta de demanda de equipamentos. Vino observa que apesar da venda já ter sido pior, hoje as empresas brasileiras têm capacidade de fornecer mais do que a demanda. “Mas se fôssemos olhar pelo foco da (grande) necessidade destes equipamentos, este comparativo seria diferente.”


A cada ano, aumenta a produtividade da agricultura, o que requer mais espaço para armazenar, completa Lampert. Ele acredita que preço não inviabiliza investimento, se houver crédito. “O silo de concreto se destaca, por garantir estabilidade térmica, além de maior durabilidade e menor custo de manutenção, podendo ser dimensionado para atingir a capacidade ideal de armazenamento para cada necessidade, pois seu diâmetro e altura são de livre escolha.”

A capacidade mínima de um silo de concreto é de mil toneladas, mas em geral a construção inicia a partir de 3 mil toneladas, custando em torno de R$ 300 mil. “Enquanto o metálico vai a 22 metros de altura, o silo de concreto pode ter o dobro do tamanho”, compara Lampert. Na Kepler Weber, o menor silo construído tem capacidade para oito toneladas, e o maior chega a 18 mil toneladas. “Um silo com capacidade para 100 mil sacos (ou seis mil toneladas) custa em torno de R$ 1,5 milhão, incluindo os valores de investimentos como a obra civil, e instalações mecânicas e elétricas”, calcula Vino.
Cooperativas e terminais de portos ampliam investimentos

Se por uma lado é difícil encontrar silos e armazéns nas fazendas gaúchas, as cooperativas agrícolas e terminais portuários têm investido neste sentido. Atendendo 11 mil pequenos produtores de soja, milho e trigo da região Norte do Estado, a Cooperativa Tritícola Sarandi (Cotrisal) investe cerca de R$ 4 milhões por ano para ampliar em torno de 18 mil toneladas a capacidade estática, diz o gerente da unidade de Sarandi, Tarcísio Foster.

Boa parte do investimento da Cotrisal é em silos e armazéns. “Mas em torno de 50% são financiados”, diz Foster. Para ele, não é o preço que impede que os agricultores invistam. “Silo na propriedade é uma incógnita, hoje em dia há muitos casos de assaltos em fazendas”, justifica. O gerente-agrícola da Cooperativa Agrícola Mista Aceguá (Camal), Hartmut Hubert, discorda: “O preço é alto, e o processo de compra através de financiamentos disponíveis é burocrático.

Além disso, muitos agricultores nem propriedade têm.” A Camal, de Bagé, tem capacidade para até 40 mil toneladas de grãos em cinco silos metálicos, um armazém graneleiro de concreto, e um armazém convencional de alvenaria que servem a mil produtores de leite e cereais. Situado no porto do Rio Grande, o Complexo Portuário Termasa–Tergrasa tem 502 mil toneladas de capacidade estática, com movimentação potencial de 18 milhões de toneladas por ano.

Mesmo assim, a Termasa investe R$ 15 milhões em dois conjuntos de armazéns, com quatro silos de concreto, para cinco mil toneladas cada, e um armazém para 38 mil toneladas. “Também estamos trabalhando no projeto técnico de um novo armazém para o Tergrasa, com capacidade para mais 100 mil toneladas. Este investimento deverá ficar na ordem de R$ 25 milhões”, afirma o diretor-superintendente do Grupo CCGL, Guillermo Dawson, responsável pelos terminais.

Governo estadual vai revisar linhas de crédito para médios produtores

Para ampliar a adesão de produtores médios às linhas de financiamento disponíveis no mercado para a compra de silos e outros equipamentos de armazenagem agrícola, o governo do Estado estuda aumentar o limite do Pronaf + Alimentos. De acordo com o coordenador da Câmara Temática de Infraestrutura Rural da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Agronegócio (Seapa-RS), Ricardo Núncio, a discussão está voltada para melhorar o acesso ao crédito de produtores familiares que se utilizam de sistema de armazenagem de 500 a 15 mil sacos.

“Cerca de 30% dos agricultores não conseguem financiar pelo Pronaf, porque o limite de crédito é R$ 130 mil – o que inviabiliza a compra de uma bateria de silos que comporte 10 mil sacas, por exemplo.” Este cálculo é feito sobre o custo da armazenagem, que é de R$ 0,14 por saco – o que leva o depósito de 10 mil sacos a custar R$ 146 mil.

Já o Finame PSI encarece o juro para os produtores médios, salienta Núncio. “Estamos buscando zerar os juros e aumentar o limite do Pronaf dentro do Plano Safra Estadual, para atender à parcela de produtores que não têm conseguido acesso ao financiamento. Também queremos contemplar aqueles que precisarem utilizar o Pronamp – neste caso, a ideia é reduzir os juros.”

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