Eventual oferta da Vale eleva ações da Mosaic e da Fosfertil

Agronegócio

Eventual oferta da Vale eleva ações da Mosaic e da Fosfertil

Insumos: Para especialistas, interesse faz sentido, mas transação é cara
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A notícia de que a Vale poderá fazer uma oferta para adquirir as operações da americana Mosaic, uma das três maiores multinacionais de fertilizantes do mundo, motivou valorização de 8,62% das ações da brasileira Fosfertil (PN) na quinta-feira na BM&FBovespa. A Mosaic, cujos papéis subiram 12,19% na bolsa de Nova York, tem participação de 33,43% na Fertifos, holding que detém 81,53% da Fosfertil, maior fabricante de matérias-primas para adubos do país. Os papéis da Vale (PNA) caíram 0,23% no Brasil; em Nova York, seu ADR ON teve queda de 0,17% e o ADR PNA registrou alta de 0,64%.

Ainda que o lado operacional do suposto lance - que até o fechamento desta edição permanecia no campo das conjecturas - faça sentido, uma vez que a Vale ampliou investimentos na área nos últimos anos e não esconde que quer ser um grande player internacional também em fertilizantes, o elevado valor estimado para o eventual negócio surpreendeu analistas e executivos do segmento nos EUA e no Brasil.

De acordo com o jornal "O Estado de S. Paulo", a oferta em análise chega a cerca de US$ 25 bilhões, sendo que o valor de mercado da Mosaic, que tem capital aberto nos EUA e fechado no Brasil, subiu nessa quinta-feira (16)  para US$ 22,2 bilhões. Nos três primeiros meses de seu atual exercício, a Mosaic registrou receita líquida global de US$ 8,7 bilhões, quase 40% superior a de igual intervalo do exercício anterior. O lucro líquido subiu 80% na comparação, para US$ 2,2 bilhões.
 
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Afora o valor em si, a equação financeira que teria de ser montada para concretizar uma transação desse porte - sem prejudicar o equilíbrio da Vale - também é considerada um desafio em tempos de crédito mais curto e caro, ainda que o grupo brasileiro tenha fôlego para tal. Como há bancos com mandato para prospectar negócios para a Vale, executivos do segmento acreditam que de fato houve contatos entre ambas (Vale e Mosaic), mas eles afirmam que isso não significa, necessariamente, que a brasileira aceitará desses bancos um eventual modelo de proposta de compra a ser feita pela americana.

A Mosaic nasceu em outubro de 2004 a partir da união dos negócios globais de fertilizantes da Cargill e da também americana IMC, que apresentava graves problema financeiros. A Cargill ficou, então, com 66,5% da Mosaic, que nasceu com faturamento anual de cerca de US$ 4,5 bilhões - e a Mosaic herdou a participação de 33,43% que a Cargill já tinha na holding controladora da Fosfertil.

A Fosfertil registrou receita líquida consolidada de R$ 3,7 bilhões e lucro líquido de R$ 773 milhões no ano passado, aumentos de 41% e 74% em relação a 2007, respectivamente. A receita líquida da Mosaic Fertilizantes do Brasil foi de R$ 5,9 bilhões em 2008, aumento de 35%, e o prejuízo líquido da subsidiária recuou para R$ 10,5 milhões, ante R$ 289,6 milhões no ano anterior.

Nitrogênio, fósforo e potássio são as matérias-primas básicas para a produção de fertilizantes. A Mosaic tem uma pequena participação na área de nitrogenados, mas é forte nos potássicos e nos fosfatados. A empresa americana tem quatro minas de potássio no Canadá (uma delas é a maior do mundo) e duas nos EUA, e tem a segunda maior capacidade de produção da matéria-prima do mundo (10,4 milhões de toneladas por ano), conforme dados disponíveis em sua página na internet.

Na área de fosfatados, ponto forte da Fosfertil, a Mosaic é líder global em produtos acabados, com capacidade anual para produzir 10,3 milhões de toneladas de nutrientes. Apenas a Fosfertil produziu 1,2 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados de alta concentração e 560 mil toneladas de fosfatados de baixa concentração no ano passado.

Fontes consultadas pelo Valor afirmaram que o que mais deve atrair a Vale na Mosaic é o potássio. O grupo brasileiro sempre negou, mas foi nesta frente que ampliou consideravelmente os investimentos quando começou a ser pressionada pelo governo Lula para participar do segmento de fertilizantes, em razão da dependência do país de produtos importados e do domínio de companhias estrangeiras no ramo.

A norueguesa Yara (maior grupo de fertlizantes do mundo) e a americana Bunge também são fortes no país. A Bunge é majoritária na holding Fertifos (52,34%), na qual a Yara também possui participação (12,77%), e ambas têm participações diretas na Fosfertil - 13,25% e 8,65%, respectivamente. Além disso, estão entre as maiores empresas em vendas de fertilizantes acabados ao produtor agrícola, mercado onde a Mosaic também atua.

"Há alguns meses a Vale fez uma aquisição no Canadá, e grandes empresas como ela são movidas por alinhamentos estratégicos. Nesse sentido, a Mosaic se encaixa perfeitamente no perfil da Vale", afirmou uma fonte. O potássio é basicamente usado na produção de fertilizantes e, das três matérias-primas para adubos, é a que o Brasil mais importa - o percentual chega a cerca de 90% da demanda interna total. Estaria amenizada, desta forma, as preocupações do governo.

Procurada, a Vale informou que não comentaria boatos . As demais empresas citadas também foram procuradas pela reportagem, mas não quiseram se pronunciar. O Valor apurou, de qualquer forma, que as principais concorrentes da Mosaic não se preocupam muito com uma eventual troca de player de peso no segmento. No caso da Fosfertil pode até ser uma boa notícia, já que as três multinacionais que hoje a controlam mantém uma disputa na Justiça há algum tempo, deflagrada pela intenção da majoritária Bunge de incorporar sua divisão de adubos à Fosfertil

No segmento, ninguém acredita que a Vale venderá fertilizantes diretamente aos produtores rurais. Assim, no caso de uma possível aquisição das operações da Mosaic, esta frente, que existe basicamente apenas no Brasil (nos EUA, por exemplo, há vendas diretas de fabricantes de matérias-primas às revendas), teria de ser vendida. Ou seja, abriria até a oportunidade para o fortalecimento de suas concorrente ou de outras empresas relevantes no segmento, como a Heringer.

Mas, independentemente do desenlace de uma eventual aquisição da Mosaic pela Vale - além de todas as ressalvas já apontadas há também o fato de outros grandes grupos internacionais estarem de olho na companhia americana, as fontes do ramo ouvidas não têm dúvidas de que a Vale não ampliou investimentos em adubos para ser coadjuvante. "A Vale é uma tremenda empresa e não brinca. Pode não ser com a Mosaic, mas vai avançar", afirmou um possível futuro concorrente.

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