ENTREVISTA

Governança e estratégia setorial para o Agronegócio

Um salto de qualidade na governança e na estratégia setorial pode assegurar desenvolvimento sustentável para o agronegócio brasileiro até 2045
Por: -Leonardo Gottems
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O economista Gustavo Grisa, sócio da Consultoria Agência Futuro, é um dos principais profissionais em atividade nas áreas de inovação pública, responsabilidade corporativa setorial e parcerias público-privadas para desenvolvimento local e regional, trabalhando como consultor de políticas públicas e estratégia para o setor público e empresas. Grisa é MBA pela Thunderbird School of Global Management (EUA) e membro da Cambridge Sustainability Network. O economista concedeu entrevista exclusiva para o Agrolink, confira:

Agrolink - Como o setor privado pode promover ações para minimizar o impacto social e ambiental no agronegócio e ao mesmo tempo  promover maior produtividade e lucro para os produtores?

Gustavo Grisa - Um dos principais diferenciais do agronegócio brasileiro em relação a seus principais competidores globais é uma cadeia de fornecedores melhor ordenada e uma organização setorial ainda mais forte de forma a promover projetos ambientais e sociais que possam prevenir e minimizar o impacto, manter e aumentar o valor da terra e das propriedades.

Assuntos como reciclagem, gestão de recursos hídricos e resíduos, no campo ambiental, e a fixação e o desenvolvimento de jovens empreendedores e agricultores na atividade rural, no campo social, são críticos. O acesso à tecnologia e a melhor qualidade de eletricidade e conectividade no campo também são fundamentais. A interação público-privada é o caminho lógico para construir essa realidade, uma vez que projetos e infraestrutura com recursos governamentais cada vez serão mais insuficientes. No entanto, a era dos projetos público-privados de grande impacto no agronegócio está apenas começando, uma vez que as agências governamentais serão cada vez mais flexíveis e dispostas a chancelar projetos desenvolvidos em parceria com as associações setoriais. Então, precisamos desenvolver modelos de impacto inovadores para tornar essas parcerias possíveis. 

Agrolink - Qual a importância de práticas de sustentabilidade? Como práticas como reciclagem de embalagens e logística reserva podem ser mais incentivadas, de forma a gerar mais renda aos produtores?

Gustavo Grisa - A situação economicamente mais complicada é quando não há prática, política, ou regulação de sustentabilidade ou responsabilidade social em uma atividade. Por exemplo, o registro e o controle de agroquímicos é a melhor prevenção para a sua má utilização e o contrabando; projetos de desenvolvimento econômico local são a melhor garantia de um ambiente continuamente positivo de operação, com a população e sociedade local engajadas e conscientes da importância econômica e social do agronegócio.

Os setores do agronegócio brasileiro precisam estar mais atentos na prevenção de ainda mais barreiras não-tarifárias por conta de questões de sustentabilidade e fitossanitárias; precisam aumentar o seu envolvimento em cadeias produtivas que tenham certificação internacional, em cadeias produtivas globais. Esse envolvimento é fundamental para garantir o acesso a mercados e influenciar a capacidade de aumento de produtividade da terra. Essas iniciativas serão cada vez mais lideradas pelos setores organizados, e cada vez menos por agências governamentais. 

Agrolink - Como o agronegócio brasileiro pode melhorar a sua articulação, imagem e reputação como um grande gerador de desenvolvimento para o País?

Gustavo Grisa - O agronegócio brasileiro é composto por 30% de agropecuária, 27% de indústria, 12% de insumos, e 31% de serviços. De uma forma geral, o agronegócio contribui com cerca de 23% da economia brasileira. No entanto, um acerto estratégico e de governança pode levar o desenvolvimento de regiões dinamizadas pelo agronegócio a se impulsionar, com um crescimento consistente acima da média nacional durante os próximos 20 ou 30 anos.

Politicamente, a população brasileira em geral não tem plena consciência disso. Apesar de muita evolução nos últimos anos, a contribuição do agronegócio para o desenvolvimento do País não tem encontrado uma resposta proporcional em termos de articulação governamental em busca de um sistema de apoio integrado e eficiente; na mídia em geral, um melhor entendimento do papel encadeado do agronegócio não apenas em emprego e contribuição econômica, mas também na coesão social e cultural. Ainda hoje, a defesa do agronegócio ainda está centrada na defesa de direitos como propriedade e defesa, e não em uma plataforma regulatória e de governança público-privada que possa levar o País a outro patamar, mais próximo do seu potencial. 

Acredito que o melhor caminho para melhorar essa articulação é através de associações setoriais e de representação fortes, com agências público-privadas trabalhando de forma coordenada em ações como relações públicas de caráter estratégico, monitoramento de partes interessadas, e um trabalho mais profissional e duradouro de marketing e marca nacional e internacional. A comunicação da marca “Brasil Agro”, ou algo semelhante, deve ser mais profunda, articulada por setor e considerando a parceria e o selo de agências oficiais como EMBRAPA, APEX e outras.

Agrolink - Como o desenvolvimento das cidades e regiões do agronegócio podem ajudar ainda mais a desenvolver as atividades?

Gustavo Grisa - Um aspecto geográficco importante além da logística é a  necessidade de serviços regionais de alto padrão nas regiões de agronegócio. É preciso desenvolver canais de distribuição, rede de fornecedores, estrutura para pesquisa e disseminação de tecnologia. Idealmente, seria importante termos pelo menos a cada 500 km de alcance no centro-norte e a cada 200 ou 300 km de alcance no centro-sul um centro urbano competitivo com serviços, tecnologia, acesso a logística e a serviços de saúde e educação de qualidade. É preciso infraestrutura adequada para turismo de negócios e segurança para executivos e profissionais internacionais.

Nesse sentido, é preciso uma coordenação estratégica público-privada maior para desenvolver polos regionais de desenvolvimento, cidades fortes, de referência , onde os recursos e renda do agronegócio circulam por mais tempo e podem ficar retidos em grande parte. Esse é um papel importante para as lideranças empresariais do setor e para o governo, especialmente o Ministério das Cidades que hoje é mais um ministério de infraestrutura urbana e não cumpre o seu propósito estratégico principal, os estados e municípios. Os governos precisam ser mais reguladores, formuladores, facilitadores; mais cérebro, e menos execução, operação. 

Agrolink - Falando em política pública, no papel do governo, como o Governo pode priorizar as suas ações para fortalecer as vocações econômicas regionais, em muitos casos, baseadas no agronegócio?

Gustavo Grisa - As vocações econômicas de uma região sempre serão fortalecidas se houver melhores condições operacionais e sistêmicas, como crédito, financiamento, logística, qualidade de educação em geral e educação profissional; e opção de carreira para as novas gerações. É preciso pensar nos sistemas locais e regionais de produção e na eficiência de seus corredores logísticos, aumentando a possibilidade de preços competitivos no médio e longo prazos. As novas formas de integração logística, como entre ferrovias e hidrovias devem ser melhor pensadas em um contexto de exportação global. Mas é um equívoco acharmos que setores fortemente baseados em commodities não podem estar combinados com uma economia de industrialização e serviços modernos. Até mesmo por que estes se utilizam da mesma eficiência logística, canais de distribuição e infraestrutura regional.

O governo deve fazer a sua parte em proporcionar um ambiente legal e macroeconômico de relativa estabilidade que permite a prática de taxas de juros mais competitivas e melhores garantias para um agronegócio competitivo. Eu pessoalmente defendo a fusão em um Ministério ou em uma agência especial para o agronegócio, mais de coordenação que executiva, de modo a ter sinergia entre assuntos ambientais, sociais e econômicos, aspectos de certificação e fitossanitários. O apoio à atividade deve atender a uma estratégia lógica, ainda que executada em parte por diferentes agências e principalmente por parcerias público-privadas com forte governança e comprometimento em melhorar a marca, a credibilidade, o prestígio e o impacto do agronegócio brasileiro, especialmente em sustentabilidade. Esses fatores asseguram o resultado econômico de longo prazo.

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