ENTREVISTA

Greenpeace explica pesquisa sobre alimentos com agrotóxicos

ONG aponta 36% das amostras com algum tipo de irregularidade
Por: -Leonardo Gottems
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O Portal Agrolink entrevistou com exclusividade a Marina Lacôrte, especialista em Agricultura e Alimentação do Greenpeace. Na pauta está a pesquisa que apontou a presença de resíduos de agrotóxicos na comida do brasileiro. Esse é a primeira de uma série de matérias com a visão da ONG (Oraganização Não-Governamental) sobre defesa vegetal, agronegócio e sustentabilidade.

De acordo com o Greenpeace, os testes foram realizados entre os dias 11,12 e 13 de setembro de 2017 pelo Laboratório de Resíduos de Pesticidas (LRP) do Instituto Biológico de São Paulo. Foram comprados alimentos em Brasília e São Paulo, principalmente no Ceasa do Distrito Federal, no Ceagesp e na zona cerealista da capital paulista.

Segundo o teste, um total de 30 amostras das 50 testadas (60%) continham resíduos de agrotóxicos, sendo que 18 (36%) continham algum tipo de irregularidade, como agrotóxicos banidos do país, proibidos para a cultura específica ou acima do Limite Máximo de Resíduos permitido (LMR). Confira a entrevista:

Agrolink – Quais foram as metodologias utilizadas nos testes?

Marina Lacôrte – O Greenpeace testou ao todo 113 kg de alimentos adquiridos em duas capitais. Esta quantidade de alimentos gerou 50 amostras, de 1 a 3 kg cada (a depender do item alimentar e baseado em metodologia existente da agência reguladora - ANVISA). Os alimentos in natura foram adquiridos nas grandes centrais de abastecimento (CEASA-DF e CEAGESP), e os outros produtos em estabelecimentos comerciais diferentes, incluindo a zona cerealista no caso de SP. Os testes foram realizados por laboratório acreditado pelo INMETRO - Laboratório de Resíduos de Pesticidas (LRP) do Instituto Biológico de São Paulo, ligado ao governo do Estado. 

Agrolink – Em quantos fornecedores diferentes foram coletados esses alimentos testados?

Marina Lacôrte – Para a coleta, o Greenpeace visitou grandes centros de abastecimento, que fornecem para outros canais de comercialização, incluindo fornecimento direto ao consumidor. No total foram adquiridos alimentos de mais de 15 fornecedores diferentes.

Agrolink – Os alimentos analisados, em sua grande maioria, são os cultivados pelas pequenas propriedades e agricultura familiar. Esse é um modelo mais propenso ao uso irregular de agrotóxicos? Por que reponde assim?

Marina Lacôrte – Esta afirmação é falsa. Verificar a origem dos alimentos não era o objetivo da pesquisa, porém, de acordo com os fornecedores, todos eles foram cultivados de maneira convencional, isto é, não agroecológica, e vieram de diferentes produtores, de diferentes tamanhos e escalas.
 
Atualmente nem todo pequeno agricultor (familiar ou não) é agroecológico, embora a grande maioria ainda seja adepto a sistemas de base ecológica1. Atualmente, parte dos pequenos produtores e/ou familiares já aderiram ao modelo industrial e se isso vem acontecendo é porque, conforme o modelo convencional se expande, esses produtores são cada vez mais influenciados e estimulados a adotar um modelo baseado no uso intenso de agrotóxicos (é o “cardápio” que lhes resta – sugerimos leitura de nosso relatório técnico para mais informações).

Existe uma clara prioridade dada a agricultura convencional que se baseia na exportação de commodities. Mesmo com avanços notáveis que tivemos em termos de políticas voltadas para a produção familiar e agroecologia nos últimos anos, sistemas agroecológicos permanecem sem capacidade de se sobrepor ou de se equilibrar considerando a correlação de forças que sustenta a economia do agronegócio. 

Se por um lado isso significa um retorno econômico importante para balança comercial, por outro significa um modelo econômico que produz desigualdade social, e muita degradação ambiental e que, portanto, deve ser questionado e revisto enquanto ainda há tempo, pensando em uma transição responsável capaz de atender esses desafios. A Política Nacional de Redução dos Agrotóxicos é o primeiro passo que precisamos dar para rumar para uma agricultura mais sustentável e regenerativa, capaz de fornecer alimentos saudáveis para todos no longo prazo.

Veja também: Greenpeace aponta perigos no "Efeito Coquetel" 

Amanhã: Greenpeace explica como acha que a produção agroecológica poderia alimentar o planeta

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