Guedes faz autocrítica e pede nova atitude

Agronegócio

Guedes faz autocrítica e pede nova atitude

Ministro admite que o governo demorou para socorrer os agricultores
Por: -Valderez Caetano
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Ainda não confirmado no segundo mandato do presidente Lula, o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Luís Carlos Guedes Pinto, esbanja otimismo sobre o setor. Em entrevista exclusiva ao jornal Gazeta Mercantil, também faz autocríticas. Admite que o governo demorou para socorrer os agricultores. "A gente poderia ter sido um pouco mais ágil", reconhece.

Guedes nega que o governo Lula tenha abandonado o agronegócio em benefício da agricultura familiar. Mas, caso o seguro rural estivesse em plena operação, diz, o auxílio ao campo poderia ter sido melhor direcionado. Mesmo dizendo que alguns líderes rurais ainda são "atrasados porque esperam que o governo resolva os seus problemas", o ministro aposta na mudança de mentalidade.

Guedes critica a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) pela demora em analisar projetos. "O País perde campo para multinacionais sem essa limitação".

A seguir, trechos da entrevista concedida pelo ministro:

Gazeta Mercantil - Por que há reincidência de crises no setor agrícola?

Luís Carlos Guedes - Estamos convencidos de que o atual modelo de política agrícola está superado. Estamos reagindo. Acho que administrar é agir. Temos de tomar iniciativas e colocar em prática programas que permitam reduzir as oscilações de renda naturais no setor.

Gazeta Mercantil - Quais iniciativas estão em estudo? Estamos construindo um novo modelo que teria como fundamento ações em torno do seguro, resseguro e fundo de catástrofe. Temos que trabalhar muito mais a questão de mercados futuros e conscientizar os agricultores do que significa isso, aprender a trabalhar e se proteger em mercado futuro. Temos de diversificar e ampliar as fontes de financiamentos.

Gazeta Mercantil - Haverá avanços no seguro rural?

Este ano, liberamos em subsídio ao seguro rural cerca de R$ 61 milhões e talvez não consigamos aplicar tudo. Já está liberado, está em caixa. Ampliamos o número de produtos e os limites de financiamento, mas há um interesse pequeno do produtor rural, e as seguradoras também estão ofertando preço pequeno. Temos de mudar a consciência do produtor.

Gazeta Mercantil - O problema é de mentalidade?

Temos um levantamento preliminar segundo o qual nos últimos sete anos o governo transferiu R$ 29 bilhões em equalização e apoio à comercialização, incluindo o Pronaf. Isso dá mais de R$ 4 bilhões por ano. Não seria muito mais razoável aplicar o dinheiro em medidas anticíclicas? Você poderia gastar menos e melhor. O produtor está acostumado: deu crise, cabe ao governo resolver. Alguns líderes ainda são muito atrasados.

Gazeta Mercantil - Procedem as reclamações sobre a atuação da CTNBio?

Há uma lentidão. A CTNBio criou uma mecânica operacional que é demorada e está causando prejuízos para o país. No caso da Embrapa, toda pesquisa tem que ser liberada previamente pela CTNBio.

Gazeta Mercantil - Há preocupação específica com o caso dos transgênicos?

Temos no Brasil uma legislação que autoriza o uso de transgênicos desde que previamente aprovado pela CTNBio. Mas o processo é lento. Já temos a soja e o algodão geneticamente modificados. Isso hoje é controlado por grandes multinacionais. Então, quando você cria mais barreiras para a pesquisa de grupos nacionais está prejudicando o interesse nacional.

Gazeta Mercantil - Como desatar o nó?

Há um projeto de lei no Congresso que muda a composição da CTNBIO e seu quórum para funcionamento.

Gazeta Mercantil - O governo é acusado de ter abandonado a agricultura comercial em benefício da agricultura familiar. O senhor concorda?

Não. O que houve foi um grande apoio deste governo à agricultura familiar. Mas não em detrimento da agricultura comercial. Tanto é que neste ano é o maior apoio à comercialização na história da agricultura brasileira.

Gazeta Mercantil - Por que os produtores reclamaram tanto?

Porque a crise foi muito grande. Como costumava dizer o ministro Roberto Rodrigues, o buraco foi tão grande que, por mais apoio que você dê, é impossível superar a crise.

Gazeta Mercantil - O produtores culpam o governo pela crise no campo. Procede?

O presidente fez uma autocrítica com relação ao dólar. A crítica que eu faria é que a gente poderia ter sido mais ágil. Se tivéssemos renegociado as dívidas e liberado o dinheiro três meses antes a crise não teria sido tão intensa.

Gazeta Mercantil - Especialistas dizem que a soja avançará cada vez mais sobre a Amazônia. É verdade?

Não. Os estrangeiros confundem floresta amazônica com Amazônia Legal. O bioma amazônico tem 4,2 milhões de quilômetros quadrados. A Amazônia Legal tem 5,2 milhões. O Brasil pode até triplicar sua produção agropecuária sem derrubar um hectare de mata. Não posso aceitar que esse pessoal que destruiu o planeta venha dizer isso.

Gazeta Mercantil - A crise da agricultura passou?

O clima está se desanuviando, conforme esperávamos. Talvez esteja acontecendo um pouco antes do que a gente pensava ? os preços já estão reagindo. Há uma conjugação de fatores positivos.

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