Mamona volta ao mapa da agricultura


Agronegócio

Mamona volta ao mapa da agricultura

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Disparada dos preços do óleo no mercado externo estimulou produtores a aumentar o plantio. O cultivo da mamona, marginalizado durante quase uma década, transformou-se numa espécie de coqueluche no mercado internacional. Os preços do óleo de mamona dispararam. A tonelada do óleo está cotada a US$ 1.100 a tonelada, 57,1% superior ao registrado em 2001. A tonelada do óleo de mamona vale mais do que a tonelada do óleo de soja, cotado a US$ 500 na bolsa de Chicago, e mais do que uma tonelada de petróleo WTI, negociado a US$ 215 na bolsa de Nova York. O negócio atrativo está atraindo investimentos das empresas, entre elas uma multinacional, a americana Bayfront, que está se instalando no Planalto da Borborema (PB), a 135 quilômetros de João Pessoa.

"Estamos investindo US$ 200 milhões na construção de uma processadora de mamona. Se tudo der certo, vamos ampliar ainda mais nossa presença", disse Michael Spraioge, diretor da Bayfront. A trading deve inaugurar em julho uma fábrica com capacidade de processar 100 toneladas por dia. Ele diz que, antes de se decidir pelo Brasil, visitou terras na Índia e na China.

"Optamos pelo Brasil porque aqui o custo de produção é baixíssimo. Afinal, a mamona cresce naturalmente, não precisa de muitos cuidados, como nos outros países", afirma. A trading está investindo porque já fechou contratos de longo prazo com dois grandes compradores, cujos nomes prefere não revelar, mas que são uma indústria da Holanda e outra na China.

Guerra no Iraque

Os preços da mamona, que já vinham em alta desde o início do ano, dispararam com o início da guerra no Iraque. "A cotação do petróleo subiu e os fabricantes de espumas, entre eles as indústrias de colchões e estofamentos de carros, substituíram os derivados do petróleo por derivados do óleo de mamona", diz Luiz Requião, da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), órgão ligado à secretaria de Agricultura do estado, o maior produtor brasileiro. A demanda interna cresceu 20% desde o início do conflito e o Brasil, que historicamente exporta 85% de sua produção de óleo, passou a embarcar 75%.

O produtor de mamona não saiu perdendo. A saca de 60 quilos da semente é negociada a R$ 57, valor 90% maior do que o praticado em 2002 e quase o dobro do preço mínimo, de R$ 29. "Hoje a semente de mamona tem tanto valor que é usada como moeda no interior da Bahia", diz Napoleão Beltrão, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "Eu trabalho no Centro Nacional de Pesquisa de Algodão, mas ultimamente só tenho recebido pedidos de informações para a mamona", afirma.

No final dos anos 80, o Brasil era o maior produtor mundial de mamona. Os baixos preços, o difícil manejo das plantas (que chegavam a ter três metros de altura) e o baixo rendimento de óleo (24%) desestimularam o plantio. À época, o mercado também era limitado: o óleo era usado na fabricação de cerca de 100 itens. Com isso, a produção brasileira caiu de 500 mil toneladas para 100 mil toneladas.

Hoje, o quadro é totalmente diferente. A Embrapa desenvolveu cultivares mais baixos (de até 1,7 metro de altura) e de maior rendimento de óleo (48%). Além disso, o mercado para o óleo se multiplicou por sete. "O óleo é utilizado em cerca de 700 itens, como querosene de aviação, vidros à prova de bala, cabos de fibra óptica, lentes de contato, próteses de osso e até em batons de longa duração", diz Requião.

Europa e EUA

Entre os maiores compradores estão Europa e EUA, países com baixas temperaturas. "Uma das características do óleo é que ele impede que certos tipos de lubrificantes para a indústria automobilística e de aviação congelem a temperaturas baixíssimas, de 40 graus abaixo de zero." O óleo é largamente usado pela indústria de química fina, e não na alimentação humana ou animal.

Com tanto estímulo, os produtores devem aumentar a área plantada no próximo ano. Requião prevê que a área cultivada poderá crescer entre 30% e 40%, chegando a 200 mil hectares na Bahia. Em todo o mundo, a área é de 1,5 milhão de hectares. "Enquanto o Brasil tem área potencial de 5 milhões de hectares para a mamona, outros países, como a China e a Índia, têm prioridade em plantar produtos para alimentação, e não matéria-prima para a indústria", afirma Beltrão, da Embrapa.

Tanto potencial não passou despercebido. Há vários projetos de estímulo ao plantio da mamona em andamento. Recentemente, a francesa Atofina, braço químico do grupo petrolífero TotalFinaElf, fechou com a Embrapa um programa de melhoramento genético da mamona. A meta é aumentar o rendimento de óleo da semente, hoje em 48%, para 60%. Na Bahia, a EBDA, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e as indústrias processadoras Braswey e Bom Brasil firmaram protocolo no qual o BNB se compromete a financiar o plantio, o governo dá assessoria técnica e as indústrias pagam um preço mínimo. Projeto semelhante está sendo desenvolvido pelo Grupo Santana no Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Sergipe.

No Rio Grande do Norte e no Ceará o grupo fornece a semente e compra a safra por um preço mínimo. Na Paraíba e em Sergipe, o grupo está negociando com o governo do estado um modelo de negócio.

Mas a grande esperança dos produtores e da indústria está nas mãos da Petrobras. A estatal estuda adicionar 5% de biodiesel de mamona ao diesel comum. Com isso, reduziria as importações de diesel e criaria empregos nos municípios mais carentes do Nordeste, onde a mamona cresce naturalmente.

"As indústrias estão descobrindo cada vez mais utilizações para a mamona. Não tenho dúvidas de que esse mercado vai crescer e queremos estar preparados para isso", diz Rodrigo Diniz de Mello, diretor do Grupo Santana.

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