Melhoramento de plantas é tema de Simpósio

Agronegócio

Melhoramento de plantas é tema de Simpósio

O evento foi realizado na sede da Embrapa (Brasília, DF) nos dias 17 e 18 de novembro
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O evento foi realizado na sede da Embrapa (Brasília, DF) nos dias 17 e 18 de novembro

"Se hoje existe alimento em quantidade e qualidade suficiente para uma população crescente mundial, é porque contamos com o melhoramento de plantas. Essa talvez seja a atividade mais importante na sociedade". Foi o que afirmou o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Francisco José Lima Aragão, durante o Simpósio Melhoramento de Plantas – variabilidade genética, ferramentas e mercado. O evento foi realizado na sede da Embrapa (Brasília, DF) nos dias 17 e 18 de novembro.

"Por conta do melhoramento vegetal é que a agricultura chegou no estado em que está. Essa área tem papel fundamental na economia do Brasil e é por conta dela que conseguimos um melhor posicionamento dos produtos brasileiros. O que se busca de forma prioritária é aumentar a produtividade e a qualidade nutricional, aliado a resistência a pragas e doenças", afirmou o pesquisador da Embrapa Cerrados e coordenador do evento, Renato Amabile, na abertura do encontro. O Simpósio foi promovido pela Sociedade Brasileira de Melhoramento de Plantas, regional DF, e organizado pela Embrapa e Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

O chefe-geral da Embrapa Cerrados Claudio Karia, um dos sócios fundadores da Sociedade Brasileira de Melhoramento de Plantas, citou na abertura alguns desafios que estão postos aos associados. "Um dos objetivos da Sociedade é incentivar políticas públicas. Temos o dever de nos predispor e fazer esse papel de articuladores", defendeu. Ele propôs que fosse feita uma reflexão a respeito das demandas que se tem para o melhoramento de plantas. "Será que estamos preparados para doenças que estão vindo de países vizinhos? ", questionou. Karia aproveitou ainda a oportunidade para sugerir temas que poderiam desde já serem colocados na pauta da discussão.

A primeira mesa redonda do Simpósio tratou do tema variabilidade genética no melhoramento de plantas. Ao pesquisador Francisco Aragão coube abordar a questão da engenharia genética. Segundo ele, com o advento dessas técnicas de manipulação e recombinação dos genes, as plantas deixaram de ser apenas fontes de fibras, energia e alimentos. "Existem hoje quase uma centena de moléculas de proteínas de interesse farmacológico que são produzidas em plantas. Isso já está acontecendo", afirmou. Ele ainda defendeu que banco de germoplasma não deve ser visto com um museu. "Tem genes lá que podem ser transferidos tanto por genética convencional, quanto por genética molecular. Nós aprendemos muito com a natureza. Na verdade, a engenharia genética tentar mimetizar o que a natureza já faz".

Um dos grandes desafios atuais da agricultura é aumentar a produtividade sem ocupar novas áreas, ou seja, aumentar a eficiência nas áreas já utilizadas. E isso só é possível utilizando tecnologia, incluindo a genética. De acordo com o pesquisador Francisco Aragão, uma das dificuldades que atravancam muitas vezes esse processo é o longo tempo que se demora, não para gerar as tecnologias em si, mas sim para transformá-las em produtos acessíveis para a sociedade. "Os sistemas regulatórios atuais não alcançam o avanço científico", pontuou. Ele citou alguns exemplos de alimentos transgênicos já desenvolvidos e que ainda não foram liberados, como o arroz rico em betacaroteno e o pão com baixo teor de glúten.

A questão dos recursos genéticos aplicados ao melhoramento genético de plantas foi tratada pelo pesquisador Juliano Pádua, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Ele explicou que os recursos genéticos são a base do trabalho de melhoramento de plantas. "Dentro do Brasil, a Embrapa é a instituição mais organizada em termos de estrutura da governança de recursos genéticos. Metade dos materiais conservados estão aqui", afirmou. O pesquisador explicou como a empresa funciona em termos de gestão de projetos e como os estudos são conduzidos. "As grandes contribuições são para resistência a doenças e pragas. Os parentes silvestres das espécies cultivadas, por serem rústicos, apresentam combinações gênicas muito interessantes nesse sentido", afirmou.  

Para o especialista, no final das contas o objetivo final de todo esse esforço é alimentar a população crescente mundial. "Para quem trabalha com alimentação, saber que milhares de pessoas ao redor do mundo morrem de fome é uma vergonha. Também temos uma crise de sobrepeso. Por isso, temos que pensar em melhorar a qualidade nutricional dos nossos alimentos". Para o pesquisador, o desafio é usar efetivamente a grande quantidade de genes que já estão conservados. "Precisamos utilizar as ferramentas disponibilizadas para conseguirmos avançar no melhoramento genético de todas as culturas. Fenotipar material, ou seja, levar para o campo e avaliá-lo, está ficando cada vez mais caro. Ao passo que o custo da genotipagem está caindo", pontuou.

O pesquisador da Embrapa Cerrados, Eduardo Alano, tratou nessa mesa-redonda da questão do melhoramento participativo. "Essa é uma das ferramentas que mais gostamos de utilizar, que é quando os materiais são validados junto aos produtores", contou. O pesquisador explicou o passo a passo que é seguido desde o início das atividades. Segundo ele, os testes com os produtores só são feitos depois do aval da Embrapa. "Mas são os produtores que dão a palavra final e decidem se o material vai virar ou não uma variedade", esclarece.

Segundo ele, o trabalho de melhoramento participativo começa com a identificação das comunidades aptas a participarem do projeto. "Passada essa etapa, vamos conhecer a realidade daquela comunidade. É nesse momento que obtemos dados quantitativos e qualitativos da cadeia produtiva. Não levamos nenhum formulário, é uma conversa informal com a comunidade", conta.  Segundo ele, depois que a comunidade é identificada, é feito um curso de nivelamento técnico para falar um pouco sobre o cultivo da mandioca; após isso, é que é realizado o planejamento das atividades. "É nesse momento que decidimos onde as unidades de pesquisa serão implantadas, quais as variedades serão testadas, qual sistema de produção será utilizado", explicou.

O pesquisador enfatizou que um dos segredos do sucesso do melhoramento participativo é a participação efetiva dos pesquisadores nos principais momentos do trabalho, do plantio à colheita. Do cruzamento dos primeiros materiais até o lançamento das variedades se leva cerca de dez anos. Eduardo Alano contou como foi realizado o trabalho em 2015 no DF e entorno que culminou com o lançamento de seis variedades de mandioca de mesa biofortificadas, amarelas e rosadas. Segundo ele, o DF foi escolhido por ser bastante representativo para o Cerrado. "Aqui temos os maiores produtores de mandioca de mesa e os maiores consumos per capita do país". Hoje o esforço é fazer com que especialmente as mandiocas rosadas sejam conhecidas pelos consumidores. "Eles não sabem muitas vezes que são vermelhas, pois têm licopeno. Acham que são transgênicas, ou que estão estragadas. Algumas biofábricas já estão produzindo e agora é procurar mercado para elas".

A primeira mesa-redonda foi encerrada com o professor da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás, Lázaro José Chaves. Ele tratou do tema conservação, domesticação e melhoramento de espécies nativas do Cerrado. Segundo o especialista, esse assunto é um campo totalmente aberto ainda. "As dúvidas são imensas e as oportunidades também". De acordo com o professor, projetos já desenvolvidos, como o Plantas do Futuro, mostraram que o Cerrado possui 58 espécies frutíferas com potencial de uso, sendo 16 prioritárias para a pesquisa e conservação.

Segundo ele, alguns produtos de determinadas dessas espécies nativas, como pequi, baru, mangaba, já estão há algum tempo no mercado e possuem saída certa. "De fato, existe uma demanda que o extrativismo não consegue suprir e isso de certa forma é até perigoso do ponto de vista de concentração, já que o extrativismo mal feito pode trazer problemas". O professor enfatizou que às vezes os estudiosos se deparam com o seguinte dilema. "Devemos ou não fazer propaganda das espécies nativas? Se chegarmos à conclusão de que essas espécies devem ser difundidas, obrigatoriamente temos que pensar em plantio, senão fica insustentável", alertou.

A questão da domesticação também é um assunto difícil, segundo ele. "Essas plantas levam muito tempo para crescer, além disso ainda temos que lidar com problemas como tipo de propagação, avaliar questões de espaçamento, doenças. Há muito a ser feito nessa área", afirmou. Por fim, ele tratou da questão do melhoramento dessas espécies nativas. Segundo o estudioso, o primeiro passo é definir se vai ser utilizada a propagação sexuada ou assexuada, para depois escolher que tipo de cultivar que se deseja obter. "Já temos algumas coleções de baru e mangaba, por exemplo, que podem servir de base para nossos trabalhos. Mas ainda estamos longe de termos recomendações ou mesmo lançarmos cultivares".

Ferramentas

 a segunda mesa-redonda do Simpósio tratou do tema ferramentas aplicadas no melhoramento genético de plantas nativas do Cerrado. Coube ao pesquisador Jonny Éverson Pereira, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, abordar a questão da cultura de tecidos, ou o desenvolvimento de tecidos e/ou células separados de um organismo. Ele detalhou as diversas vantagens de se utilizar essa ferramenta, as metodologias utilizadas, suas aplicações e problemas. Mas ressalvou, no entanto, que a forma convencional de propagação deve ser sempre priorizada. "A cultura de tecidos é aplicada a determinadas condições de espécies específicas como as palmeiras, por exemplo, que não temos condições de fazer uma propagação vegetativa convencional".

O tema fitossanidade aplicada ao melhoramento genético de plantas foi tratado pelo pesquisador da Embrapa Hortaliças, Carlos Alberto Lopes. Para ele, o melhoramento deve ser baseado no que a sociedade espera, já que quando se trata de empresas públicas, é ela que está custeando todo esse trabalho. Ele citou algumas perguntas básicas que devem servir de norteadores: o problema a ser combatido causa perdas significativas? Há alternativas de controle eficientes? O que a cadeia produtiva pensa a respeito? Há variabilidade a ser explorada? Para ele, isso tudo deve ser levado em consideração na definição do trabalho. Lopes apresentou alguns estudos de caso conduzidos na Embrapa Hortaliças e levantou, ainda, pontos polêmicos para discussão.

A questão dos marcadores moleculares aplicados ao melhoramento genético foi tratada em seguida pelo pesquisador da Embrapa Cerrados, Fábio Faleiro. Ele apresentou os diferentes tipos de marcadores, com suas vantagens e desvantagens. "Qualquer programa de melhoramento pode ser beneficiado por análise de marcadores moleculares. Eles são democráticos com relação do uso", afirmou. O pesquisador abordou também as aplicações práticas dos marcadores nos estudos de recursos genéticos e germoplasma, pré-melhoramento, melhoramento e pós-melhoramento. "A gente vai desde a caracterização de germoplasma, aos estudos de variabilidade, a questão do planejamento dos cruzamentos, auxílio nos processos de seleção e recomendação, chegando então nas plantas melhoradas", explicou.

O estudioso citou as últimas invenções nessa área, como os chips de DNA e o sequenciamento de alto desempenho. "Hoje, ao contrário de antigamente, é possível montar um projeto genoma numa bancada de um laboratório, em uma semana. Isso tem revolucionado as análises genéticas, tanto em animais, quanto em plantas". Ele relatou quais foram as mudanças mais significativas nessa área dos últimos anos e enfatizou que o estudo prático de marcadores depende da interação de profissionais da genética molecular e de demais áreas ligadas ao desenvolvimento tecnológico.

A última palestra da mesa-redonda sobre ferramentas aplicadas ao melhoramento genético foi do estatístico da Embrapa Cerrados, Juaci Malaquias. Ele abordou os principais delineamentos estatísticos utilizados na área de melhoramento genético; as terminologias mais utilizadas nesses estudos; a importância das etapas de um trabalho estatístico; a relevância do tamanho amostral, os tipos de delineamento estatístico e variabilidade ambiental; os principais softwares disponíveis para análise estatística genética; e, ainda, tratou dos estudos da interação genótipo x ambiente na análise de grupos de experimentos.

Mercado

A última mesa-redonda do Simpósio foi realizada no dia 18 e tratou do tema Mercado. O pesquisador da Embrapa Cerrados, Sebastião Pedro, abordou a questão das parcerias público-privada. "O setor público normalmente tem algumas características próprias que o diferenciam do setor privado. Por sua vez, o setor privado precisa de resultados rápidos e o tempo vale muito. Portanto, são dois setores diferentes, mas que normalmente combinam bem numa atividade com melhoramento de plantas onde os resultados vêm a longo prazo", afirmou.

De acordo com o estudioso, as primeiras parcerias da Embrapa com empresas produtoras de sementes de soja, trigo, algodão e milho foram iniciadas na década de 90. "Em 1993, a primeira iniciativa com fundações foi firmada inicialmente com a fundação Mato Grosso. Em 1997, com a lei de proteção de cultivares, essas experiências se multiplicaram, já que ficou mais interessante para o setor privado, pois a partir daí os obtentores puderam obter resultados dos seus produtos genéticos e isso fez com que aparecesse várias parcerias que funcionaram muito bem. Esse tipo de arranjo chegou a ganhar prêmio na época da Finep pela excelência dos resultados obtidos. É um sistema que sempre foi muito bem avaliado", contou.

O pesquisador detalhou como funciona na prática a parceria firmada entre a Embrapa e a Fundação Bahia no programa de melhoramento de soja. Nesse caso, a empresa de pesquisa oferta o corpo técnico de pesquisadores, a infraestrutura de pesquisa e de laboratórios. Já as fundações, que são formadas por produtores de sementes, ofertam recursos de mão de obra, de insumos, veículos, ou seja, o custeio de toda estrutura principal.

"Nós temos que estabelecer metas hoje para atingir o alvo no futuro, e esse alvo é móvel, então precisamos ser muito assertivos. E o nosso parceiro que está no dia a dia do mercado é que nos ajuda a balizar e errar o menos possível nas nossas definições enquanto melhoristas", afirmou. O diretor administrativo e comercial da Fundação Bahia, Nilson Vicente, participou da palestra e abordou a questão sob a ótica do parceiro privado. "Acreditamos muito na marca Embrapa. Essa parceria tem sido bastante positiva no sentido de equilibrar o mercado".

O professor da UnB na área de melhoramento genético ambiental, José Ricardo Peixoto, também abordou o tema Mercado. "Hoje as técnicas são excelentes, mas temos ainda muitos desafios no melhoramento de plantas, como custo elevado e qualidade da mão de obra. Para o futuro é importante pensar em que caminhos devemos seguir", pontuou. Ele falou também da importância econômica, social, cultural e ambiental do mercado de sementes e as especificidades de cada cultura e de cada material genético. Ao final, apresentou a visão de um produtor rural sobre o mercado de sementes.

Também participaram dessa mesa-redonda o gerente de marketing estratégico da Pioneer, Lucas Silvestre, que relatou como a empresa lida com o mercado - determinação de públicos-alvo, o estabelecimento do produto ideal e como é feita a transferência de tecnologia – e o superintendente executivo da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Paulo Campante. Além de apresentar informações sobre a associação, fundada em 1972 e que congrega as associações estaduais de produtores de sementes e entidades representativas de todo o setor de sementes do Brasil (de obtentores a usuários), ele ainda apresentou um panorama do mercado de sementes no Brasil e quais são os novos desafios para o setor nos próximos anos.

O período da tarde do segundo dia do Simpósio foi dedicado aos grupos de trabalho formados com o objetivo de prospectar demandas para ações de pesquisa e desenvolvimento. Os trabalhos selecionados pelo comitê técnico-científico do Simpósio serão publicados nos Anais do evento, sendo que os 10 melhores receberam menção honrosa e foram apresentados em forma de pôster durante o Simpósio.

No encerramento, o engenheiro agrônomo e pesquisador aposentado da Embrapa, Leonardo de Britto Giordano, referência no tema melhoramento vegetal, foi homenageado pelos organizadores do Simpósio. Giordano desenvolveu várias culturas de hortaliças resistentes a doenças que durante os anos 90 garantiram o abastecimento nacional, substituindo por completo as importações. Especialmente ervilha e tomate, cultivares Viradoro e Tospodoro, além de San Vito, primeiro híbrido brasileiro de tomate tipo italiano.

Entre os vários prêmios e honrarias que Giordano recebeu durante a sua carreira, destacam-se os prêmios "Marcilio de Souza Dias - 1999", condecoração máxima da Associação Brasileira de Horticultura, e "Frederico de Menezes Veiga - 1993", condecoração máxima da Embrapa.


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