Mercado da soja em reforma na UE

Agronegócio

Mercado da soja em reforma na UE

Mudanças prometem alterar demanda por alimentos convencionais e transgênicos
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Mudanças prometem alterar demanda por alimentos convencionais e transgênicos e afetar em cheio o Brasil

O principal mercado do farelo de soja do Brasil está em reforma. A União Europeia (UE) revê a relação tarifária com o Mercosul, as regras de apresentação dos alimentos convencionais e transgênicos nos supermercados e sua própria política agrícola. Em viagem de 2,8 mil quilômetros pelo velho continente, a Expedição Safra apurou que o quadro vai reformatar a demanda e a promete mudar a relação do agronegócio brasileiro com o velho continente.

O caso seria apenas de reajuste se não fosse o evidente desconhecimento do Brasil em relação a esse processo de mudança e também da Europa a respeito do que ocorre com a produção brasileira. Os representantes da UE não vêm acompanhando a expansão do uso de sementes transgênicas nas lavouras do Brasil. Mostram preocupação ao saber que apenas 15% das plantações foram cultivadas com sementes convencionais na última safra.

Para que esses grãos cheguem ao mercado europeu sem ser misturados aos transgênicos, dependem de segregação, o que acarreta custos adicionais. E, apesar de o Brasil ser o principal fornecedor de farelo para a UE, atendendo à indústria europeia da carne, o bloco vem pagando apenas entre R$ 3 e R$ 5 a mais por tonelada que os demais mercados, mostram as estatística do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior brasileiro.

A demanda europeia por grãos e farelo de soja do Brasil continuará existindo e pode inclusive crescer, disse Birgit Risch, chefe do Departamento Internacional do Ministério da Agricultura, Nutri­ção e Proteção do Consumidor da Alemanha. “Mas o pagamento está condicionado ao cumprimento de todos os padrões e exigências estabelecidos pela UE”, afirmou.

A União Europeia não possui estatística sobre a proporção dos transgênicos nas importações dos 27 países do bloco. O volume importado de 37 milhões de toneladas de soja e derivados (23 milhões de farelo, 13 milhões de grãos e 750 mil de óleo) mostra-se estável, mas a participação dos produtos convencionais teria caído de 35% para 25% nos últimos anos, estimam os executivos do setor.

“Esse porcentual pode voltar a 35% a partir do momento que o consumidor receber informação sobre o que é produzido com soja convencional e o que deriva de soja transgênica”, avaliou Vincent Magdelaine, da Coop de France, organização das cooperativas que representa 450 mil dos 600 mil produtores da França. A impressão de informações nas embalagens está em discussão. Sem uma avaliação do impacto da medida, os governos dos países europeus preferem não falar em prazos por enquanto.

O mercado dos produtos convencionais pode ser ainda menor do que a UE estima. “O consumidor europeu responde emocionalmente às pesquisas sobre alimentos transgênicos mas, no supermercado, é racional, opta pela carne mais barata”, relatou Sylvain Maestracci, chefe do setor de Grandes Culturas do Ministério da Agricultura da França.

A produção de soja na Europa fica entre 1 milhão e 2 milhões de toneladas, ou seja, mal abastece um único país do bloco como a França. Mesmo assim, as regras sobre as importações se mantém rígidas, em nome do respeito ao consumidor e como forma de proteger os produtores do continente, que recebem subsídios para cultivar a terra, independente do volume produzido.

“Nosso agricultor defende os transgênicos. Mas, sendo governo, não podemos ir além da opinião pública. Os acordos com o Mercosul não podem prejudicar em nenhum momento o mercado europeu”, disse Maestracci.

Os produtores e os subsídios estão incluídos nesse mercado. A Política Agrícola Comum (PAC), criada em 1962, é o primeiro pilar da UE. Trata-se do único campo com regras comuns e orçamento dividido entre os países que integram o bloco. Considerada estratégica logo após a Segunda Guerra para garantir alimentação ao continente, mostra-se ainda sólida, apesar das constantes alterações de regras.

Perto de 45% do orçamento do bloco – cerca de R$ 130 bilhões do total de R$ 290 bilhões previstos para 2011 – referem-se à PAC. Para o setor produtivo, o valor não é tão alto. “As demais áreas não têm uma distribuição de recursos comum e, por isso, não aparecem no orçamento. Nossa participação já chegou a 60%. Está caindo”, defendeu Paulo Gouveia, diretor da Copa Cogega, organização que representa os produtores e as cooperativas da UE.

Dados distorcidos e lentidão prejudicam posição brasileira

As discussões sobre alimentos na União Europeia (UE) seguem informações que, em certos casos, tornam o Brasil uma ameaça para o bloco, relata Odilson Luiz Ribeiro, adido agrícola que representa os interesses do agronegócio brasileiro em Bruxelas. No caso da carne bovina, os dados da produção nacional vêm sendo elevados, desconsiderando o consumo interno do país, para que, diante de um quadro de superoferta, o protecionismo ao sistema produtivo europeu seja reforçado, detalhou. Em relação à soja, como a União Europeia vem aprovando lentamente a entrada de novas variedades transgênicas, há risco de cargas produzidas com sementes em processo de avaliação serem barradas, adverte.

O trabalho de defesa do agronegócio brasileiro tem se tornado árduo e consumido boa parte do tempo da Missão do Brasil na UE, disse o Eduardo Ferreira, primeiro-secretário do programa. O temor é que, ao ter alguma carga barrada, os importadores interrompam negócios com o Brasil.

Os representantes brasileiros relataram os conflitos de informações aos representantes da UE durante as entrevistas que a Expedição Safra realizou em Bruxelas e obtiveram reações de surpresa. Em relação à soja, eles tentam estabelecer contatos entre a Europa e o Brasil para que importadores e exportadores evitem atritos nas relações comerciais do país com o bloco. A Expedição constatou que a preocupação chegou aos portos europeus, que não determinam a origem e o tipo de carga, mas podem enfrentar problemas logísticos em caso de bloqueios.

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