Monsanto cede à pressão dos agricultores

Agronegócio

Monsanto cede à pressão dos agricultores

Estima-se que, na próxima safra 2005/06 a Monsanto poderá coletar perto de R$ 160 milhões com royalties
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A Monsanto e os agricultores devem fechar nas próximas semanas o acordo sobre a cobrança da taxa pelo uso indevido da tecnologia da soja transgênica Roundup Ready (RR). A expectativa é que a taxa tecnológica seja igual ou inferior a R$ 0,60 por saca - a mesma cobrada na safra passada. Ou seja, a taxa deve ficar mais próxima do que os produtores querem do que dos R$ 1,20 que a multinacional americana vinha pedindo. A seca no Sul do Brasil foi a pedra fundamental na estratégia de negociação dos agricultores.

Estima-se que, na próxima safra 2005/06 - para a qual a oferta de sementes transgênicas atenderá cerca de 30% da área cultivada -, a Monsanto poderá coletar perto de R$ 160 milhões com royalties sobre sua tecnologia. No longo prazo, porém, os transgênicos poderão atingir quase 70% da área de soja em todo o Brasil, elevando ainda mais a remuneração da gigante americana.

O Brasil é, ao lado da Argentina, uma das últimas grandes fronteiras onde a soja RR ainda não tinha acesso oficial garantido. A variedade já é largamente cultivada nos Estados Unidos, onde responde por quase a totalidade da área plantada.O potencial do Brasil é tamanho que na sexta-feira as ações da Monsanto voltaram a subir na Bolsa de Nova York, embaladas pelo Projeto da Lei de Biossegurança. O analista Kevin McCarthy, da Banc of America Securities, ouvido pela Bloomberg News, estima que o lucro por ação da empresa triplique entre 2006 e 2007. "Consideramos o Brasil uma importante oportunidade no longo prazo para o crescimento dos lucros da Monsanto nos próximos três a cinco anos", disse McCarthy, que reiterou sua recomendação de compra para os papéis.

O fator Paraguai

De acordo com fontes envolvidas na negociação, a Monsanto já teria afirmado que não aceita uma taxa inferior a R$ 0,60 por saca por um período de até dois anos. Porém a multinacional ficou numa saia justa porque recentemente fechou acordo mais vantajoso para os paraguaios.

No Paraguai, a taxa tecnológica ficou acertada em US$ 1,30 por tonelada, ou R$ 0,20 por saca. Além disso, no Paraguai a multinacional abriu a possibilidade de futuramente cobrar a taxa no preço da saca de semente certificada, e não sobre a soja colhida - atitude que vem resistindo a tomar no Brasil.

"A Monsanto aceitaria que o royalty fosse embutido no preço da saca de semente caso pelo menos 70% das sementes transgênicas vendidas no mercado fossem certificadas", informa Luis Enrique Arrellaga, vice-presidente da Associação dos Produtores de Sementes do Paraguai. Caso o acordo seja fechado, a taxa no Paraguai seria equivalente a US$ 2,82 por saca de 50 quilos de semente.

"Queremos o mesmo tratamento dispensado ao Paraguai", diz um representante dos produtores. "Não vamos aceitar tratamento diferenciado", afirma.

Inicialmente, a Monsanto no Brasil queria uma participação de 25% nos ganhos obtidos pelos produtores com a semente transgênica. Como o ganho era de R$ 200 por hectare, a parcela da Monsanto seria de R$ 50 por hectare cultivado. O plano, no entanto, foi abandonado porque enfrentou forte resistência dos agricultores.

Os produtores têm, a seu favor, o tempo. Isso porque sete patentes cobrem a tecnologia RR. A primeira delas expira em 2007, porém todo o conjunto tem validade até 2014. Depois disso, a tecnologia poderia ser usada indiscriminadamente por outras empresas.

Estratégia de cobrança

A Monsanto já firmou parceria com diversas empresas de sementes que poderão usar a tecnologia RR gratuitamente. Esse é o canal que a empresa encontrou para popularizar sua tecnologia o mais rápido possível, com ganho de escala. Hoje, existem 20 variedades no sistema do Registro Nacional de Cultivares.

Cada produtor de semente que vai multiplicar a soja RR precisa ser cadastrado no sistema da Monsanto. Dessa forma a empresa tem o controle sobre a produção e posteriormente sobre as vendas de cultivares, facilitando a cobrança de royalties.


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