Opinião: Aclimatação e quarentena - manejos muitas vezes esquecidos
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Agronegócio

Opinião: Aclimatação e quarentena - manejos muitas vezes esquecidos

Manejos muitas vezes esquecidos - quando não realizados, podem representar grandes perdas
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Aclimatação e quarentena: manejos muitas vezes esquecidos - quando não realizados, podem representar grandes perdas

*Por Rodrigo Yudi Fujimoto

Quem nunca comprou um peixe e ao chegar em casa colocouo direto no aquário e, em um período compreendido entre quatro e sete dias, ele morreu ou todos os peixes do aquário começam a adoecer? Bom, esse é um cenário bem mais comum do que se imagina. Isso ocorre principalmente devido à falta de cuidados e de manejos adequados para a manutenção desse animal em cativeiro.


Muitas pessoas já ouviram o termo aclimatação ou adaptação. Aquaristas avançados já o conhecem bem e praticam com frequência, porém, os aquaristas iniciantes podem sofrer grandes perdas econômicas se isso não for realizado.

Esse manejo de aclimatação consiste na equalização dos parâmetros da água do recipiente em que o peixe chega e o nosso aquário em casa. É necessário equalizar o pH, a temperatura, diminuir a concentração de amônia, entre outros fatores. Uma diferença de dois pontos no pH e três graus na temperatura já são estressantes para os peixes.

Isso ocorre porque, fisiologicamente, os peixes respondem a isso no que denominamos de estresse. O estresse é muito comentado nos fóruns, livros de aquarismo, porém, na prática, pouco é aplicado para reduzir esse estresse. O estresse é uma resposta do organismo a um agente agressor na tentativa de restabelecer seu equilíbrio, ora perdido em decorrência desse agente estressor. Importante ressaltar que esse agente não é somente um agente biológico como uma bactéria, vírus ou parasita, mas manejo ou condições da água inadequadas também podem ser fatores altamente estressantes.

Dessa maneira, se começarmos logo de início dando um choque devido, por exemplo, à qualidade da água, já estaremos provocando um estresse que, dependendo do grau desse choque, pode ser fatal a ponto de o animal não conseguir se adaptar. Portanto, uma boa aclimatação é importante. Dentre vários métodos, citaremos alguns.


Troca parcial de água do recipiente

Primeiramente coloque o saco ou recipiente onde chegou o novo peixe dentro do aquário receptor para que se equilibre a temperatura da água. Equilibrada a temperatura, adiciona-se ¼ do volume do saco a cada 5 minutos, com a água do aquário. A observação do comportamento nesse procedimento é sempre extremamente importante, pois, dependendo da reação do peixe, pode-se diminuir ou aumentar a quantidade de água a ser adicionada e o tempo de aclimatação. Em média, esse processo durará de 30 a 40 minutos. Após esse período, o peixe deve ser retirado do recipiente e então colocado com cuidado no novo aquário, sem a água de transporte. Pode ser adicionado sal, de preferência não iodado (60 - 100 mg/l).

A adição do sal é importante, pois esse elemento constitui um papel fundamental nesse processo. O transporte do animal até a soltura é estressante e desencadeia uma série de respostas, como a liberação de adrenalina, cortisol, aumento do bati mento cardíaco e opercular e, juntamente, ocorre uma perda de sais para o meio, que denominamos de desequilíbrio osmótico. Assim, quando colocamos o sal estamos diminuindo esse gradiente osmóti co, fazendo com que o peixe pare de perder sais para a água, oferecendo oportunidade para que ele se restabeleça (Moraes e Martins, 2004). Por isso mesmo, muitos aquaristas, sem saber, adicionam o sal e têm resultado. A explicação é essa.

Gotejamento

Neste método, colocamos o peixe e a água de transporte em um recipiente maior, como um balde, e por sifonamento deixamos que a água do aquário, que receberá os peixes, chegue até o balde. Isso pode ser feito com uma mangueira, como aquelas de distribuição de ar, colocando em sua extremidade um divisor de ar que servirá para regular a vazão. A vazão geralmente será de uma a cinco gotas por segundo, dependendo do comportamento dos peixes. Esse procedimento é mais demorado, dura em torno de 1 a 2 horas, mas possibilita melhores resultados com peixes muito sensíveis ao estresse.


É importante ressaltar que esse manejo necessita da visualização do comportamento e também do recipiente para não ocorrer o transbordamento e pode-se, neste caso, realizar a troca parcial dessa água.

Resolveríamos o problema facilmente se fosse somente isso, porém, deve-se observar que o peixe recém-chegado não pode ser colocado diretamente no aquário comunitário de casa porque esse animal precisa fi car em observação, ou seja, de quarentena.

É usual também as pessoas realizarem a aclimatação, porém, despejando a água de transporte dentro do novo aquário. Isso é um erro comum, pois se pode introduzir, dessa forma, diversos patógenos que, aliados a um fator estressante, podem causar surtos epidêmicos, mortalidades e disseminação de doenças por todo o aquário. A adoção de uma quarentena é imprescindível para que organismos patogênicos não entrem em contato com os peixes já instalados no seu aquário ou loja.

Quarentena

É constituída por um outro aquário específi co para essa finalidade, com uma boa qualidade de água, dentro dos parâmetros para a espécie e/ou próximas do valor do seu aquário. Assim, uma boa filtragem e um bom controle da qualidade de água são importantes.

O peixe ficará em observação por um período, como o nome já se refere, de 40 dias. Porém, devido ao tempo demorado, outros autores recomendam tempos menores, de 14 a 21 dias (Stoskopf, 1992, Fish Medicine).

Um fator importante para o êxito da quarentena é o conhecimento do ciclo biológico dos principais agentes patogênicos. Isso fará com que se possa adequar o período de quarentena aos ciclos biológicos das espécies patogênicas mais frequentes.

Alguns cuidados que devem ser observados para a realização dessa quarentena são: comprar peixes de lojas idôneas e com experiência no ramo, obter ajuda técnica especializada de um médico veterinário ou um especialista em doenças de peixes e sempre realizar a observação.


Assim, para evitar essas perdas, e compreendendo o estresse dos animais, devemos sempre buscar o “wellfare” animal, ou seja, o conforto animal sempre na tentativa de evitar o estresse. Uma aclimatação bem feita, com monitoramento dos parâmetros da água, durante sete dias no mínimo, bem como o conhecimento dos locais onde foram adquiridos os animais e a realização de uma quarentena, são imprescindíveis para diminuir as mortalidades, aumentar o bemestar e, consequentemente, as perdas econômicas.

*Rodrigo Yudi Fujimoto é zootecnista e doutor em aquicultura pelo CAUNESP. É pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros e realiza pesquisas em sanidade e bem-estar de peixes ornamentais. (ryfujim@cpatc.embrapa.br)

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