Os impactos do conflito no Leste Europeu para a cadeia produtiva da carne bovina brasileira
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PECUÁRIA

Os impactos do conflito no Leste Europeu para a cadeia produtiva da carne bovina brasileira

O conflito teve um impacto desproporcional em várias indústrias
Por:

Análise da equipe de especialistas

1. O CONTEXTO DOS PAÍSES EM CONFLITO

Não obstante aos efeitos deletérios causados pela pandemia da Covid-19, especialmente com a chegada da variante Ômicron no final de 2021, o ano de 2022 começou com uma ameaça que tem ganhado força de forma cada vez mais acelerada em razão do conflito no Leste Europeu. A invasão da Ucrânia pela Rússia causou grandes rupturas em escala global em vários setores, tanto por meios diretos quanto indiretos. O conflito teve um impacto desproporcional em várias indústrias em razão da alta concentração de commodities produzidas nos dois países e pelas pressões inflacionárias resultantes, pelo tamanho da base de consumidores russos e pela localização do conflito ao longo das principais rotas marítimas. As indústrias de alto impacto em escala global incluem: petróleo e gás, mineração e metais, agronegócio, automóveis, logística e transporte, consumo de alimentos e bebidas.

O setor de commodities agrícolas foi um dos mais fortemente afetados, pois o conflito está envolvendo diretamente dois importantes ofertantes de commodities (milho, trigo, fertilizantes, petróleo e gás natural) no mercado internacional. A Rússia e a Ucrânia representam coletivamente cerca de 30% das exportações globais de trigo. A Ucrânia também responde por 15% das exportações globais de milho. Acredita-se que os efeitos perdurarão ao longo de 2022, independentemente do resultado do conflito, em razão da escala dos danos físicos e do deslocamento de pessoas.

2. OS IMPACTOS PARA O MERCADO GLOBAL DE COMMODITIES

Os riscos no fornecimento das principais commodities produzidas na Rússia e na Ucrânia resultaram em preços elevados globalmente. Isso, por sua vez, está colocando mais pressão inflacionária ascendente de dimensões mundiais. A economia global já estava lutando com preços altos em razão da retomada da atividade econômica após o relaxamento das restrições da Covid-19, bem como problemas de logística e cadeia de suprimentos relacionados aos bloqueios isolados e à escassez de trabalhadores. Em particular, a interrupção da produção e exportação de energia e commodities alimentares estão pressionando diretamente os setores de energia e alimentos, mas indiretamente em todas as indústrias por meio do aumento do custo dos insumos. Rússia e Ucrânia são grandes exportadores de grãos, óleos vegetais e fertilizantes. Tudo contribuirá para a inflação mais alta dos preços dos alimentos e possível escassez de alimentos nas regiões de mercados emergentes.

Talvez o impacto mais notável do conflito na Ucrânia seja a volatilidade do mercado. A incerteza é igual à volatilidade dos preços (combustíveis, fertilizantes, carne, etc). A guerra apresenta aos mercados um grau significativo de incerteza. À medida que novas informações chegam, os mercados as incorporam aos preços. O que sabemos hoje é diferente do que saberemos amanhã, na próxima semana, no próximo mês, etc. Os mercados estão tentando trabalhar com essas informações.

Os desafios logísticos em razão das interrupções nas rotas de transporte marítimos, bem como restrições nas viagens de aeronaves, estão aumentando os custos do transporte de mercadorias em todo o mundo. Muitas empresas suspenderam as operações nessas rotas em razão dos altos prêmios de seguro e das preocupações de segurança. Os importadores estão procurando suprimentos alternativos para suas demandas por commodities e isso geralmente leva a compras a preços maiores e a rotas de transporte mais longas que também elevam o custo das importações, especialmente para os consumidores europeus, bem como às taxas de frete globais. A longo prazo, esperamos que isso potencialize as tendências já percebidas durante a pandemia da Covid-19 de valorização da produção local e/ou geograficamente próxima e na diversificação das cadeias de suprimentos.

O agravamento do conflito entre Rússia e Ucrânia impactará na inflação mundial e, provavelmente, demandará um ajuste na política monetária de diversos países, mantendo e fortalecendo o crescimento das taxas de juros. A oferta restrita de trigo, milho, óleo de girassol e fertilizantes e os altos preços desses produtos terão efeitos colaterais no setor de alimentos e bebidas, na indústria de consumo e na segurança alimentar de muitas nações importadoras. Quaisquer limites de exportação de fertilizantes e petróleo da Rússia colocarão pressões de oferta nos mercados globais, contribuindo para custos mais altos de produção em várias categorias de alimentos. Os produtores serão forçados a repassar parcialmente isso aos consumidores na forma de preços mais altos, enquanto a falta de acesso aos fertilizantes pode colocar em risco os rendimentos das colheitas. As regiões de mercados emergentes estão mais expostas, pois o poder de compra não é forte o suficiente para suportar a substituição por alternativas mais caras. A Europa Ocidental enfrentará escassez de produtos, mas as famílias têm maior renda disponível para mudar para produtos substitutos.

3. OS IMPACTOS PARA O SETOR DE CARNES NO BRASIL

A guerra no Leste Europeu não deve ter forte impacto na demanda por proteínas brasileiras, já que a Rússia e a Ucrânia são compradores com pouca relevância comparados a outros países. Juntos, suas importações representam no mercado global 1,9% de carne bovina, 2,6% da proteína de frango e 1,1% de suínos. Atualmente, a Rússia não está entre os grandes destinos dos produtos do agronegócio brasileiro. Segundo a FGV Agro, o Brasil exportou quase US$ 1,3 bilhão para a Rússia em 2021 frente à cifra de US$ 3,7 bilhões, em 2014.

Entre os principais produtos exportados pelas atividades de agroindústria, os destaques ficam com as carnes de frango e suína (US$ 191,0 milhões) e a carne bovina (139,0 milhões). Em 2021, foram 106 mil toneladas de frango, enquanto os embarques de suínos somaram 9,29 mil toneladas, e as vendas de carne bovina atingiram 35,35 mil toneladas. A Rússia tem diminuído sua dependência na importação de proteínas e investido na produção interna.

Já a Ucrânia nunca foi um mercado relevante para as exportações brasileiras de proteína animal. A forte demanda chinesa e norte-americana deve manter o bom desempenho das exportações de carne bovina brasileira enquanto durar o conflito. Uma evidência disso foram os embarques do mês de março, que atingiram
um volume recorde para o mês, de 169,41 mil toneladas, o que representou um avanço de 26,6% sobre o resultado obtido em igual mês de 2021, de 133,82 mil toneladas, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Foi o terceiro mês consecutivo de volume recorde das exportações brasileiras de carne bovina – no acumulado do primeiro trimestre, as vendas externas foram recordes tanto em volume quanto em receita.

Entretanto, os russos são parceiros estratégicos como fornecedores de fertilizantes para a nossa produção. O principal insumo utilizado na agricultura é o fertilizante. Estima-se que cerca de 20% dos fertilizantes do complexo NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) importados, anualmente, pelo Brasil vêm da Rússia. A produção de bovinos de corte no Brasil é, substancialmente, feita em pastagens e que demandam práticas de adubação. O impacto do conflito no Leste Europeu será significativo nos fertilizantes, caso haja desabastecimento ou aumento de preço dos principais produtos. Em 2021, o preço dos fertilizantes aumentou cerca de 100% no Brasil, impactando nos custos de produção, mostrando a importância para o Brasil no desenvolvimento e aperfeiçoamento de fontes de fertilizantes alternativas como forma de contingenciar os efeitos pós-guerra no aumento dos preços. O investimento em pesquisa e criação de políticas públicas já está ocorrendo.

O aumento dos preços das commodities certamente vai afetar o custo da produção de proteína animal, com maior impacto para aves e suínos, mas também para a bovinocultura de corte intensiva, que se utiliza da ração como fonte de nutrição dos animais.

Cerca de 65-75% dos custos de produção de frangos são associados ao milho, enquanto nos suínos esta relação está entre 60-70%, e na pecuária intensiva entre 20-30%. O reflexo no custo da proteína animal brasileira dependerá diretamente do tempo que durará o conflito. Para mitigar ao máximo o aumento desses produtos, o setor precisará urgentemente de “calibragens” nos sistemas produtivos. A expectativa é de enfraquecimento do Produto Interno Bruto (PIB) da pecuária de corte em 2022, tendo como principal fator de pressão o forte aumento dos custos com insumos ao longo de todas as etapas da cadeia produtiva.

Há efeitos também decorrentes do aumento dos combustíveis, em virtude do aumento do petróleo no mercado internacional. O setor é muito afetado pelo aumento do custo de frete ao longo de toda a cadeia de produção. Estima-se que da composição do custo operacional do transporte rodoviário, 35% é com o diesel; enquanto na navegação gira entre 40% e 50% do frete marítimo. O aumento do petróleo também reflete nos preços dos defensivos químicos e das embalagens.

Há também os problemas de ordem logística. Que empresa estará disposta em colocar seus navios para buscar fertilizantes, milho ou trigo em região de conflito? E se colocar, qual o tamanho do custo de transação envolvido? Essa dificuldade de recebimento e entrega é um desafio. Adicionalmente, o comércio internacional é feito por trade[1]. O bloqueio financeiro realizado por meio da suspensão a bancos da Rússia do sistema de pagamento Swift, que padroniza as operações comerciais entre países nos negócios internacionais, vai impactar no aumento dos custos de transação.

Por fim, a elevação dos custos de produção na cadeia produtiva da carne bovina brasileira deve fazer com que haja um aumento no processo inflacionário e uma pressão de repasse ao longo da cadeia de produção atingindo o consumidor final, que já se defronta com uma situação inflacionária no mercado doméstico. Mesmo antes da guerra, o cenário mais otimista para trajetória de queda no preço da carne era 2023. Adicionalmente, com a menor oferta global — causada pela guerra —, a exportação brasileira de carne bovina se fortaleceu, mantendo firmes os preços pagos pelos animais terminados e fazendo pressão no preço da carne bovina no mercado doméstico.

Em um cenário de retomada econômica lenta, no qual a recuperação de empregos tem ocorrido, mas com redução de renda da população empregada, pode-se esperar novas reduções no consumo per capita de carne, já bastante baixos. Todavia, é possível que essa queda seja amenizada pelo fato de ser um ano de eleição, que, historicamente, aquece o mercado.


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