Para Biagi, produção nacional de etanol é modelo para o mundo

Agronegócio

Para Biagi, produção nacional de etanol é modelo para o mundo

Empresário defende ações coordenadas e planejadas entre todos os setores produtores de etanol do mundo para que se organize um mercado global
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Quando o assunto é biocombustíveis, Maurílio Biagi Filho é referência. Presidente da holding Maubisa, que administra negócios nos setores de açúcar, álcool, imobiliário, mercados futuro e de valores, e fazendas, participa do conselho de diversas empresas do setor. “Hoje, atuo menos na parte executiva”, explica.

E é com know-how de quem foi um dos mentores do processo que resultou no Pró-álcool e de quem construiu uma carreira de sucesso como um dos mais importantes empresários do setor sucroalcooleiro, que Maurílio Biagi concedeu uma entrevista exclusiva ao Campo News, na qual analisa a posição do Brasil como grande produtor de etanol e biodiesel e se arrisca a prever o futuro da matriz energética brasileira. “É preciso ter ações coordenadas e planejadas entre todos os setores produtores de etanol do mundo. Independentemente de quais sejam as fontes, a agroenergia tem condições de assumir um papel de destaque nas negociações da OMC (Organização Mundial de Comércio) e em outros foros internacionais”, afirma.

Campo News: Sobre o etanol, o sr. acredita na possibilidade desse combustível ser transformado em commoditie? Quais seriam os principais entraves?

Biagi: Eu não tenho nenhuma dúvida a respeito disso. Hoje o etanol é quase uma commoditie, mas, para isso, precisa estar negociado em pelo menos uma bolsa internacional, o que ainda não ocorreu. Já existe comércio de etanol com diversos países do mundo, mas um dos maiores entraves para que ele se torne uma commoditie é que não existe um comércio muito intenso, porque são poucos países que produzem em quantidade suficiente para exportar e a maioria é importadora. Então, você tem quase o mercado de um único exportador, que é o Brasil.

A produção nacional pode ser considerada modelo para o mundo?

Sim, indiscutivelmente. Nós fizemos o maior e mais bem-sucedido programa de produção de combustíveis a partir da biomassa e o maior programa mundial de substituição de energia fóssil que, sem dúvida, é um exemplo para o mundo. Apesar dos pequenos deslizes, o setor em si é um exemplo paro o mundo. O Brasil é o único que tem condições de ter substituição de gasolina na proporção que nós temos. No resto do mundo, o programa de substituição de gasolina sempre será muito parcial. Alguns países podem misturar mais de 10% de etanol na gasolina daqui a algum tempo, mas a média mundial não vai exceder isso nos próximos 50 anos. Então, o Brasil é o único país que tem condições de escolher entre o combustível mais caro, fóssil e poluente e outro mais barato, renovável e com outro apelo ambiental. É que nós brasileiros não sabemos valorizar isso e dar a importância que isso tem.

Falando agora de biodiesel, o sr. acredita na produção a partir da agricultura familiar?

Eu acredito no biodiesel e acredito que ele possa inclusive ser produzido via agricultura familiar, como vem acontecendo. Mas para ter a substituição de óleo diesel na dimensão que o Brasil precisa ter, ele tem que não só utilizar a agricultura familiar como também a extensiva. Não tem como não ser assim. Aliás, no Brasil o biodiesel é produzido parte pela agricultura familiar e parte por agricultura extensiva. Mas ainda existem algumas peculiaridades que precisam ser resolvidas. No caso do etanol, temos um combustível totalmente econômico e que concorre sem nenhum subsídio com a produção de gasolina, que é um combustível fóssil, derivado do petróleo e, portanto, muito mais barato. A agricultura não tem como concorrer com o petróleo, porque está sujeita a todas as intempéries, às questões climáticas. Quando a Petrobras compra biodiesel, precisa colocar dinheiro para vender. Fazer isso com quantidades de até 2 bilhões de litros não é um grande problema, mas para ter 50 bilhões de litros de produção, o Brasil precisa ter uma rota mais competitiva. O álcool, por exemplo, no começo era mais caro, mas depois a economia de escala trouxe vantagem. A diferença é que o biodiesel você produz de grãos, que são todos commodities e tem o seu preço determinado pelo mercado mundial. Essa é a diferença fundamental e que precisa ser analisada e resolvida. Nós estamos no caminho certo e agora temos que ir passo a passo.

O sr. acha que os esforços do governo no sentido de incentivar a produção nacional são suficientes? Como avalia esse trabalho?

Acho que o governo faz sua parte, tanto no apoio ao etanol quanto ao biodiesel. Diferentemente do etanol, o biodiesel é muito mais governamental, como foi o etanol, que hoje é muito mais da iniciativa privada. Tanto que o etanol é hoje combustível de mercado, que toda semana sofre mudanças de preços - que incomodam o consumidor, mas que significam que é produto de mercado, respondendo à lei da oferta e da procura. Já o biodiesel nasceu sob intervenção governamental. E a Petrobras, que tem feito esse papel, muito bem feito por enquanto, tem que verificar se nós, como modelo, vamos querer ficar com o biodiesel mais ligado ao governo e o etanol mais à iniciativa privada, ou se vamos querer todos na iniciativa privada. Nós temos que ter nossa matriz energética. Há 30 anos que a gente fala nisso, que temos que ter matriz energética, saber exatamente quais são nossas fontes de energia. Daqui 20 anos, como o Brasil quer ter suas fontes de energia? De que origem? É preciso saber isso para fazer o programa de investimentos.

Quais as suas perspectivas para o futuro, quanto à produção de etanol e biodiesel nacional? Como o sr. vê a matriz energética brasileira no futuro?

Atualmente, 75% das emissões brasileiras de CO2 são provocadas pela derrubada e queima da floresta amazônica. Na hora em que a gente resolver esse problema, o Brasil terá a matriz energética mais limpa do mundo. Hoje, basicamente 50% da nossa matriz energética é verde, o que é extraordinário. A cana representa mais de 16% da energia do País, 33% da nossa matriz energética vem de produtos agrícolas e 50% da energia é renovável. Então, temos uma matriz extremamente positiva. Para que se organize um mercado global para o etanol regulamentado, falta definir quem vai fazer o quê e como. É preciso ter ações coordenadas e planejadas entre todos os setores produtores de etanol do mundo. Independentemente de quais sejam as fontes, a agroenergia tem condições de assumir um papel de destaque nas negociações da OMC (Organização Mundial de Comércio) e em outros foros internacionais. Nesse contexto, não faz sentido criticar os produtores de etanol de milho nos EUA. Mesmo que o milho seja inferior à cana como matéria-prima energética, já é hora de encarar os usineiros norte-americanos como parceiros de alianças estratégicas que muito nos fortalecerão. Da mesma forma, não devemos ver o petróleo como um concorrente a ser vencido ou um inimigo a ser liquidado. O petróleo éo maisimportante veículo de desenvolvimento para a indústria do etanol. Quanto ao biodiesel, o mercado é aparentemente promissor. O consumo de diesel hoje no Brasil chega a 40 bilhões de litros. Considerando a exigência atual do governo federal, que estabelece a mistura de 4% de biodiesel no diesel, isso significa que a demanda pelo biocombustível será 1,6 bilhão de litros.
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