Paraná perde mercado para uva nordestina
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Agronegócio

Paraná perde mercado para uva nordestina

Clima atípico comprometeu ciclo e azedou parte da safra
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A uva produzida no Nordeste do Brasil está roubando espaço do Paraná na mesa de tradicionais clientes do estado e pressionando para baixo os preços pagos aos produtores locais. Em Marialva (Norte), o quilo do produto passou a ser vendido entre R$ 0,70 a R$ 1 no campo. O município tem maior parte dos parreirais do estado e acabou de colher uma safrinha azeda.

A geada de julho do ano passado e as chuvas excessivas na primeira quinzena de maio deste ano diminuíram o teor de açúcar de boa parte da produção. Dessa forma, o mercado foi inundado pela uva cultivada em regiões quentes, com qualidade superior. “O produto nordestino é do tipo exportação, sem sementes e mais adocicado, e passou a brigar também pelo mercado interno”, afirma Paulo Andrade, agrônomo da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado (Seab). Segundo ele, este é o terceiro ano consecutivo que o Paraná perde espaço no consumo em estados do Sul e Sudeste, antes dominados pela uva de Marialva.

Com preços três vezes mais baixos que o normal, os produtores do município jogaram boa parte da colheita no lixo. Até o momento, 80% das 20 mil toneladas esperadas já foram retiradas do campo. A Seab ainda não sabe quanto da produção foi aproveitada e nem o impacto que as seguidas quebras podem causar à economia do município, que é sustentado pela uva. O órgão espera ter um diagnóstico mais preciso dentro de um mês.

O secretário da Agricultura e Meio Ambiente de Marialva, Valdinei Cazelato, acredita que, não fosse a qualidade, a uva do município ganharia mais mercado, como já vinha ocorrendo nos anos anteriores. “Nossa uva tem qualidade. Este foi um ano atípico.”

Desânimo

A sequência de problemas com a produção tem tirado o ânimo dos fruticultores do município. Com a esperança de que comercializaria o quilo da fruta por R$ 3, o viticultor José Singer se viu obrigado a doar parte da produção para creches, hospitais e entidades assistenciais por não ter para quem vender. O que sobrou virou comida para galinhas e porcos. Diante da situação, ele já começou a arrancar parte do parreiral.

“Planto há 20 anos. Tenho 2 mil pés e vou reduzir em 30%. Vou retirar a uva fina de mesa e plantar a rústica para fazer vinho. É a única maneira de não abandonar o ramo. Mas, se continuar desse jeito, tem que arrancar tudo e mudar de cultura, só não sei qual”, lamenta.

“Estou devendo mais de R$ 8 mil de defensivos agrícolas e não vejo solução. Já penso em arrancar tudo e começar a investir em outras frutas”, diz o produtor Joel da Rocha, que cultiva mais de 10 mil pés há 12 anos.

Após prejuízos, Marialva estuda alternativas

Marialva, o município que mais colhe uvas no Paraná, começa a estudar soluções para as próximas safras, após três anos de consecutivas quebras de produção ou de qualidade da fruta. A safrinha que está sendo colhida era tida como salvação da atividade. No último verão, a produtividade dos parreirais foi reduzida à metade por causa do frio intenso no meio do ano passado. Os rendimentos caíram para 9 mil quilos por hectare. Na safrinha, a produtividade deve fechar entre 18 mil e 20 mil quilos por hectare.

A Emater e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) devem ajudar na pesquisa de culturas viáveis na região e também alternativas para agregar valor à produção do município. “Temos de estudar novas formas para aumentar a qualidade na nossa produção e assim reconquistar o mercado”, acrescenta Valdinei Cazelato, secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município.

Além de soluções para o campo, os produtores afetados e que estão desistindo da atividade esperam ajuda financeira. Endividados, eles não têm condições de tomar novos empréstimos para financiar e apostar em um novo ciclo de produção ou outra cultura.

Clima atípico comprometeu ciclo e azedou parte da safra no principal polo de produção do estado; Produtores jogam colheita no lixo

Eles se queixam também do preço elevado encontrado nos supermercados, que inibem o consumo. “Se oferecer a R$ 0,50 ninguém quer tirar da roça, aí você vai ao supermercado e vê que o quilo [da uva] está R$ 7,99. Assim ninguém compra mesmo”, diz o produtor José Singer.

“A uva que estava sendo jogada fora é a mesma comercializada nos supermercados. O problema é que o frio espanta o consumo. Sem sair das prateleiras, também não sai do parreiral”, observa Cazelato.

20 mil toneladas É o tamanho da safrinha de uva de Marialva, conforme estimativa oficial do município. Produção de inverno era vista como a salvação da atividade, já que no verão a colheita foi reduzida à metade. Agora, o problema é com a qualidade da fruta, que perdeu açúcar por causa do frio excessivo e das chuvas.

R$ 7,27 Foi o preço médio do quilo da uva fina de mesa praticado no varejo em maio no Paraná, conforme levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria de Agricultura. Valor está 20% maior do que nesta época do ano passado, o que dificulta o aumento do consumo.

Foto: Ivan Amorin

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