Perspectivas da oferta de etanol e demanda do Ciclo Otto: uma visão até 2030

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Perspectivas da oferta de etanol e demanda do Ciclo Otto: uma visão até 2030

Apromulgação do RenovaBio por intermédio da Lei nº 13.576 descortina grandes oportunidades para o Brasil
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Apromulgação do RenovaBio (Política Nacional de Biocombustíveis), por intermédio da Lei nº 13.576, de 26 de dezembro de 2017, descortina grandes oportunidades para o Brasil. Nosso país possui vasta disponibilidade de recursos energéticos. Por um lado, possui condições edafoclimáticas bastante favoráveis e extensa disponibilidade de terra, o que favorece o aproveitamento das fontes renováveis, por outro, dispõe da gigantesca província petrolífera do Pré-Sal, além de deter uma das maiores reservas de urânio do mundo e dominar o ciclo do combustível nuclear.

A matriz energética brasileira destaca-se mundialmente pela expressiva participação das fontes renováveis, com elevado grau de aproveitamento de biomassa, recursos hidráulicos e, mais recentemente, energia eólica. 

Tratando-se da matriz veicular, a participação de fontes renováveis de energia é, particularmente, bastante elevada, para o que contribuíram diversos mecanismos governamentais de incentivo aos biocombustíveis. Por obrigatoriedade legal, toda a gasolina automotiva atualmente comercializada contém 27% de etanol anidro, assim como a todo diesel consumido, adiciona-se 10% de biodiesel. Além disso, considerável parcela da demanda de Ciclo Otto é suprida por etanol hidratado (20% em 2016).

É nesse contexto que vem se estruturando o RenovaBio, trazendo entre seus objetivos o de promover a adequada expansão da produção e do uso de biocombustíveis na matriz energética nacional, com ênfase na regularidade do abastecimento de combustíveis, e também o de contribuir com previsibilidade para a participação competitiva dos diversos biocombustíveis no mercado nacional de combustíveis. A Política Nacional de Biocombustíveis visa ainda contribuir para o atendimento aos compromissos brasileiros no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

É importante ressaltar que, desde 2009, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) vem tendo uma participação direta na elaboração do compromisso brasileiro para as Conferências das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, contribuindo com informações associadas à produção e uso da energia para o Acordo de Copenhague, neste ano. Nesse sentido, o Decreto 7.390/2010, que regulamenta a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei 12.187/2009), estabeleceu o Plano Decenal de Expansão de Energia, publicado anualmente pela EPE, como um dos planos setoriais a serem considerados no âmbito de adaptação às mudanças climáticas, sendo a referência para as informações relacionadas ao setor de energia, incluindo as relacionadas aos biocombustíveis.

Sempre buscando subsidiar o MME (Ministério de Minas e Energia) na elaboração do RenovaBio, a EPE vem desenvolvendo uma série de trabalhos, desde a fase inicial do Programa até a formulação de modelos matemáticos de suporte à decisão sobre as metas de descarbonização, seja no âmbito do Comitê RenovaBio, como no Conselho Nacional de Política Energética, possibilitando a análise dos impactos econômicos, sociais e ambientais associados.

Ainda com o propósito de subsidiar o MME, a EPE, desde 2016, publica estudos que apresentam três cenários Revista Canavieiros Abril de 2018 19 de oferta de etanol e demanda do Ciclo Otto, contemplando o horizonte até 2030. Com maior previsibilidade da demanda de biocombustíveis a ser proporcionada pelo RenovaBio, o estudo considerou, em seu cenário dereferência da edição de 2018, que o setor sucroenergético buscará implementação de boas práticas e tecnologias, refletindo em aumento de produtividade e de investimentos. Neste sentido, projeta-se que a capacidade nominal instalada irá aumentar cerca de 20% até 2030. 

A área de colheita de cana-de-açúcar crescerá a uma taxa de 1,1% a.a., saindo de 8,7 milhões de hectares (ha), em 2017, alcançando 10,1 milhões de ha em 2030, enquanto que a produtividade atingirá 87,2 tc/ha. Com isso, estima-se que a cana processada será de 880 milhões de toneladas em 2030. Em relação ao rendimento, ao final do período de estudo, projeta-se o valor de cerca de 139 kg ATR/tc. Importante ressaltar que as projeções consideram a inserção da cana-energia, que ocorrerá de forma gradativa ao longo do período e representará cerca de 260 mil ha plantados em 2030.

A produção nacional de açúcar, destinada a suprir tanto o mercado doméstico como o internacional, alcançará 46 milhões de toneladas em 2030. A evolução do consumo per capita brasileiro foi projetada com base na renda, envelhecimento da população e a mudança de hábitos alimentares. Já a participação do Brasil no fluxo de comércio mundial foi estimada na faixa de 43% em todo o período.

Em relação ao etanol estima-se que em 2030 cerca de 95% do volume ofertado será de primeira geração. Já para o etanol de segunda geração (E2G), projeta-se que sua produção atingirá 2,0 bilhões de litros. Atualmente, as unidades comerciais de E2G ainda operam abaixo da capacidade nominal devido a alguns problemas técnicos como, por exemplo, na etapa de pré-tratamento e de filtragem da lignina. Por outro lado, a produção de etanol de milho alcança 2,3 bilhões de litros no final do período do estudo. Considerou-se que as unidades produtivas serão majoritariamente do tipo flex. Diante desse contexto e, considerando que poderão ocorrer importações pontuais do biocombustível, a oferta total de etanol projetada para 2030 é de cerca de 49 bilhões de litros.

No que tange à frota de veículos leves (automóveis e comerciais leves), a trajetória de licenciamento considerada resulta em um incremento a uma taxa média anual de 3,1%, atingindo o valor de 54,4 milhões de unidades ao fim do horizonte do estudo. Com isso, a demanda do Ciclo Otto (sem GNV) em 2030 será de aproximadamente 69 bilhões de litros (em gasolina equivalente). Neste cenário, o etanol carburante (anidro e hidratado) alcançará cerca de 45 bilhões de litros, enquanto que a gasolina A corresponderá a 34 bilhões de litros. 

Já o volume de etanol destinado para outros usos será de 1,4 bilhão de litros no final do período e o mercado internacional manterá suas características atuais, com baixos volumes comercializados.

Por fim, nesta edição de 2018, a EPE incluiu em seu estudo "Cenários de Oferta de Etanol e Demanda do Ciclo Otto" também a oferta da bioeletricidade proveniente da cana-de-açúcar exportada ao Sistema Interligado Nacional. Estima-se que em 2030 as usinas sucroenergéticas contribuirão com a injeção de aproximadamente 5 GWm na rede.

Desta forma, as expectativas da EPE são bastante promissoras com o RenovaBio, indicando no horizonte do estudo um aumento da oferta de etanol, bem como da demanda de etanol carburante, trazendo inúmeros benefícios para o país, tanto em relação à segurança do abastecimento como na redução das emissões de gases de efeito estufa.


*Artigo originalmente publicado na Revista Canavieiros, edição de Abril de 2018.

*O artigo tem colaboração da analista de Pesquisa Energética, Marina Damião Besteti Ribeiro; da consultora
Técnica I, Ângela Oliveira da Costa e do consultor Técnico II,Rafael Barros Araujo.

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