Piauí desponta como nova fronteira agrícola do Brasil

Agronegócio

Piauí desponta como nova fronteira agrícola do Brasil

Cultivo da soja vem dando nova face ao sertão piauiense
Por:
8437 acessos
Cultivo da soja vem dando nova face ao sertão piauiense, que tem atraído produtores de outras regiões

Bom Jesus (PI) - No Sul do Piauí, já nos limites do semiárido, vem surgindo um novo polo econômico naquela que vem sendo chamada de "a última fronteira agrícola do País". Por lá, o conhecido sertão nordestino tem uma outra cara. A caatinga, vegetação que acompanha quase todo o clima da região, entrelaça-se com o cerrado que vai tomando espaço, numa mistura que caracteriza o relevo de Bom Jesus, município que vem registrando, há pouco mais de uma década, intenso crescimento puxado pelo surgimento e avanço do cultivo da soja.

Localizado na região do Vale do Gurgueia, a cidade virou a "febre" de empresários gaúchos do agronegócio, que foram migrando para a região atraídos pelos platôs encontrados por lá, ideais para o plantio do grão. Hoje, dos 90 produtores, 80% são provenientes do Rio Grande do Sul, formando uma verdadeira colônia gaúcha em pleno semiárido nordestino.

Um dos pioneiros desse movimento foi Idemar Cover, diretor administrativo da empresa MCR. Depois de passar uma temporada produzindo em Mato Grosso, soube das terras boas e planas do sul do Piauí e, em 1994, instalou-se em Bom Jesus. Começou sua produção nas superfícies altas, a cerca de 600 metros do nível do mar, na chamada Serra do Quilombo, para onde foram seguindo todos os novos empresários do emergente negócio.

Soja avança

Resultado disso é que, ano passado, o Piauí, puxado principalmente por Bom Jesus, chegou a plantar cerca de 400 hectares de soja, o que representando aproximadamente 1,5 milhão de toneladas de grãos, em um processo de avanço contínuo por aquelas terras. Atualmente, algo entre 12% e 15% do cerrado piauiense já é explorado com o cultivo da soja. Em Bom Jesus, esse porcentual já chega a 25%.

"O ´boom´ foi entre 1994 e 1995. Os primeiros plantios eram de três a quatro mil hectares. Bom Jesus, até então, só tinha agricultura de subsistência. Mas a gente sabia que ia dar certo, porque no Maranhão e na Bahia já estava dando certo", informa Cover.

Segundo ele, no início, copiava-se a produção que vinha destes outros estados, já hoje, Bom Jesus possui suas variedades próprias de soja, que melhor se adaptam àquele solo.

Mas, até chegar nesse ponto, foi preciso um alto investimento. "O solo de cerrado é pobre. Então, entramos com adubação, correção, enriquecimento do solo, e, cada ano que passa, a produtividade cresce. São R$ 1.500 por hectare para deixar o solo a nível médio de produção. Cada ano que passa, o solo está melhor", explica.

Seguindo essa migração que vinha do Sul, o também gaúcho João Carlos Fiúza resolveu investir na localidade. Chegou em 2000 e subiu para a serra. "Antes, eu não tinha certeza que ia dar certo, mas vim me aventurar". E deu. Na Fazenda São Carlos, como assim denominou, possui 2,75 mil hectares, dos quais cultiva 1,5 mil. Quer, todavia, até 2013, expandir suas terras e cultivar uma área de 3 mil hectares. Com esta área, ele pode ser considerado um pequeno produtor, para os padrões da cultura da soja. Por lá, há produtores com 25 mil hectares.

Financiamento ajudou

"Antes, eu plantava no Rio Grande do Sul. Lá, eram 600 hectares, mas só 20% deles eram área própria", lembra. Para investir no local, adquiriu financiamento do Banco do Nordeste (BNB), que utilizou para a preparação do terreno e compra do maquinário. O conjunto de trator, plantadeira, colheitadeira e pulverizador chegou a custar-lhe R$ 1,65 milhão. "Existem mais baratos, mas estes são os bons", justifica. Montante bastante alto, mas que tem dado retorno, garante.

NO CULTIVO

Emprego é pouco, mas impacto é forte

Bom Jesus (PI) Na Fazenda São Carlos, que possui 1,5 mil hectares cultivados, apenas cinco pessoas cuidam de toda a produção. São três da família e outros dois funcionários efetivos. No período de plantio, quando há uma demanda maior de força de trabalho, são chamados dois diaristas. Essa pouca utilização de mão-de-obra não é uma característica exclusiva da fazenda em questão, é a realidade de toda a produção de soja.

Altamente mecanizada, o agronegócio da oleaginosa gera pouco impacto direto na geração de empregos. Por outro lado, movimenta vultosos recursos que estão modificando a rotina do antes pacato município.

Encadeamento

A secretária de Agricultura do município, Telma Manganeli, reconhece que a atividade gera pouco emprego nas fazendas, mas defende a expansão da atividade olhando por um outro prisma. "Cerca de 50% das empresas hoje instaladas em Bom Jesus estão ligadas ao agronegócio. Aqui, o mercado alimentício cresceu muito, surgiram mercearias.

A construção civil está crescendo a 20% ao ano na cidade", avalia. "Soja gira muito dinheiro e o dinheiro fica na cidade. O que os produtores ganham é investido na região", reforça.

O crescimento do Município, além de ser visto no número de negócios que vão se instalando por lá, é confirmado por estatísticas oficiais. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio do Censo 2010, a agricultura, que puxou todo o crescimento da região, responde, na verdade, por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do local.

O grosso mesmo está mesmo no setor de serviços, que se expandiu com o incremento do agronegócio e hoje detém 75% da economia municipal. Só no último ano, oito empresas ligadas ao agronegócio iniciaram suas operações na localidade.

"A repercussão é maior embaixo da serra, aqui, no setor terciário. Empresas de implementos agrícolas, serviços mecânicos, retíficas... Um setor puxa o outro", reforça o prefeito da cidade, Alcindo Piauilino.

População aumentou

O Censo também identificou que a ampliação da população do município, que passou de 18.126 habitantes em 1991 para 22.632 em 2010. De acordo com o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Piauí (Crea-PI), Bom Jesus tem hoje seis mil casas, sendo que, no momento, outras 1.200 estão em construção.

"Quando uma família sulista ancora, é uma família a mais que investe na cidade, mais uma loja, constrói uma casa. Gera ações em cadeia. Bom Jesus tem um crescimento irreversível. Era uma cidade de perfil migratório, as pessoas saíam daqui para outros estados em busca de oportunidades. Hoje, ela é claramente imigratória".

Mais impostos

Piauilino ressalta também o fato de a atividade econômica de Bom Jesus já gerar um ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) superior às transferências recebidas pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM), realidade pouco comum em cidades interioranas brasileiras.

"Nós saímos da 26º para a 8º posição em arrecadação de ICMS no Estado, em um período de 10 anos", conta.

Outro dado relevante se refere ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que atualmente se coloca como o quinto mais elevado entre os 223 municípios do Piauí.

Atenção: Para comentar esse conteúdo é necessário ser cadastrado, faça seu cadastro gratuíto.
  • Clicar no botão Entrar caso já possua cadastro no Agrolink
  • Se não tiver cadastro ainda em nosso site Cadastre-se gratuitamente e terá acesso a conteúdos exclusivos
  • Clique aqui todas as vantagens de fazer seu cadastro no Agrolink