Potencial de produção de soja da América do Sul está ameaçado?
CI
Agronegócio

Potencial de produção de soja da América do Sul está ameaçado?

Métodos de cultivo e controle de pragas preocupam
Por: -Leonardo Gottems

Comparados à América do Norte, países como Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai tem o diferencial de plantar múltiplas safras. Algumas regiões plantam duas safras de soja no mesmo ano, por conta do clima mais quente. Mas talvez esse seja exatamente o aspecto que deve ameaçar o potencial da produção da oleaginosa da América do Sul no futuro, apontam agrônomos.


Em 2003, o Brasil produziu 52 milhões de toneladas de soja. Em 2014, a produção da oleaginosa pulou para 87,5 milhões de toneladas, enquanto a América do Sul colheu 159,6 milhões de toneladas. O crescimento em 18 anos na região foi de 329% e se espera colher 217,8 milhões de toneladas em 2023. No entanto, eventos recentes relativos à saúde dos cultivos colocam essa capacidade de produção em cheque.

Um alerta foi feito pelo agrônomo argentino Alberto Bianchi, ex-pesquisador da DuPont. Ele disse que a "soja não será mais um cultivo fácil". Bianchi culpa parcialmente a indústria química pelo problema, por conta da falta de novos produtos, que devem combater ervas daninhas tolerantes ao glifosato. O fenômeno também ocorre nos Estados Unidos.

"Atualmente, cultivar soja já é mais difícil que no passado - e vai piorar. As pragas estão vindo mais e mais por conta de um uso repetitivo dos mesmos produtos. A indústria química ainda não criou um produto com um modo diferente de ação", disse o agora consultor independente ao jornalista Luis Vieira, do Portal
Agriculture.com.

Outros agrônomos concordam que o problema é real, mas não atribuem a culpa à indústria química. O pesquisador da Embrapa Marcelos Lopes da Silva admite que o sistema de produção do Cerrado aumentará as vulnerabilidades com as práticas agrícolas atuais.

"Existe um uso intensivo dos mesmos cultivos no mesmo espaço e tempo, o que alimenta as pragas. As condições climáticas ajudam o crescimento populacional das pestes. E um terceiro motivo é que não existe um uso muito racional de produtos químicos e pulverização sem avaliação do nível de pragas", explicou Silva em entrevista à revista Successful Farming. Silva revela que a Embrapa faz um esforço para orientar melhor os produtores no uso de inseticidas de modo mais racional.

As pestes e doenças mais comuns para o cultivo de soja no Brasil são a lagarta Helicoverpa armigera e a ferrugem asiática. Ambas já geraram mais de US$ 2 bilhões em perdas em distintos anos. Mas a lagarta assustou mais porque a primeira aparição foi em 2012 e a sua proliferação é extremamente rápida.


Segundo Cecília Czepak, pesquisadora da Universidade Federal de Goiás e reconhecida especialista em lagartas, diz que produtores do Brasil e da América do Sul em geral deveriam mudar seus hábitos logo, ou dias piores virão.

"A Helicoverpa ainda vai causar muitos problemas. Eu viajei por muitos estados brasileiros e a situação é sempre a mesma. Cultivos intensivos, muita tiguera e soqueira abandonadas, e aplicações de inseticidas sem alvos", disse ela.

Cecília explica que existem problemas de identificação de lagartas, e critica o alarde dos pesquisadores sobre o uso de controle biológico como melhor recurso de combate à Helicoverpa. "A lagarta se adapta facilmente a condições adversas. Está copulando diversas espécies nativas na América do Sul. [...] Se ainda tivermos uma visão erradas sobre as tecnologias atuais, a situação vai piorar", resumiu.

Ferrugem

Em um seminário que reuniu agricultores de plantio direto no Rio Grande do Sul em maio, o agrônomo Fabiano Siqueri, da Fundação MT, disse que é muito provável que a ferrugem asiática volte já na safra 2014/2015. Isso causaria danos na segunda safra de soja deste ano.

"Os produtores devem abandonar os produtos mais antigos. A probabilidade é maior porque o El Niño deve chegar mais cedo esse ano. Acredito que deva atingir entre 500 e 725 mil hectares no Mato Grosso", prevê Siqueri.

No mesmo evento, o professor emérito da Universidade de Passo Fundo Elmar Luiz Floss disse que os produtores são muito conservadores para usar novas tecnologias para soja e não aprendem facilmente as técnicas de manejo de solo. Segundo Floss, isso não é exclusividade do Cerrado brasileiro, mas acontece até com mais frequência no sul do Brasil.


"Os produtores que ficaram no Rio Grande do Sul são os mais relutantes de todos para usar novas tecnologias. Quando o fazem, não usam muito bem e culpam os vendedores de defensivos pelos problemas. É preciso fazer uma germinação uniforme, uma aplicação preventiva de bioreguladores, e irrigação também ajuda. Eles devem pegar as melhores cultivares e não poupar dinheiro com isso", disse Floss.
 

Atenção: Para comentar nesta página é necessário realizar o seu cadastro gratuíto ou entrar.
  • Clicar no botão Entrar caso já possua cadastro no Agrolink
  • Se não tiver cadastro ainda em nosso site Cadastre-se gratuitamente e terá acesso a conteúdos exclusivos
  • Clique aqui todas as vantagens de fazer seu cadastro no Agrolink