Preço baixo pode inibir plantio de laranja

Agronegócio

Preço baixo pode inibir plantio de laranja

Associtrus reclama que "a indústria é altamente concentrada e não paga ao agricultor nem os custos de produção"
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A Associação Brasileira dos Citricultores (Associtrus) realizou ontem, em Bebedouro, no interior paulista, um evento que reuniu produtores de laranja e políticos para discutir os novos rumos da atividade. "A indústria é altamente concentrada e não paga ao agricultor nem os custos de produção", reclama Flávio Viegas, presidente da Associtrus e produtor de laranja. "Já transformei metade dos meus pomares em área para cana. Se a situação não mudar, serei obrigado a desistir da atividade", afirma Viegas, cuja família é tradicional produtora de cítricos no interior de São Paulo.

Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), órgão vinculado à Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, a cotação da laranja na região de Barretos é de R$ 8,00 a caixa de 40,8 quilos. "Num pomar ideal, ou seja, altamente produtivo, o custo se aproxima de R$ 10,00 por caixa", diz o engenheiro agrônomo Márcio Luís Borella, que acaba de desenvolver uma planilha com os custos do setor para a Associtrus. Ressalve-se que o estudo de Borella considerou a produção de 1 mil caixas por hectare, quase o dobro da média de produtividade registrada em São Paulo, de 535 caixas por hectare.

Novos rumos:

Viegas enviou ao ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, um documento intitulado "Citricultura - Novos Rumos", que traça uma avaliação do setor, e pede uma "análise crítica do documento".

Segundo o texto, "a opção da indústria tem sido reduzir a oferta para ampliar suas margens de lucro. Para isso, vem remunerando a laranja com preços inferiores ao seu custo de produção, com a intenção de tirar do setor os pequenos citricultores, no que vem obtendo sucesso, pois o número de produtores já foi reduzido, nos últimos dez anos, de 27 mil para menos de 10 mil".

Segundo o documento, "a indústria pratica preços diferenciados, o que representa, na verdade, um subsídio entre produtores: os que recebem menos subsidiam não só os que recebem mais, como também a fruta produzida pela indústria. Há casos em que a diferença de preços chega a 200%".

"O preço da laranja não está relacionado com o preço do suco, mas com a disponibilidade da fruta. Assim como o preço do suco está relacionado com a disponibilidade do suco", rebate Ademerval Garcia, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus).

Garcia concorda que o número de produtores foi reduzido. "A área dos pomares caiu de 800 mil hectares para 628 mil hectares nos últimos dez anos. Mas a produção saltou 30% no período", afirma Garcia, que também participou do even-to em Bebedouro, como ouvinte.Segundo o presidente da Abecitrus, o mercado sempre teve oscilações. "O consumo de sucos cítricos nos Estados Unidos caiu 10% nos últimos sete anos e enfrentamos a concorrência da indústria de bebidas. É crescente o mercado de sucos de outras frutas, de água mineral, chás, refrigerante e outras bebidas", diz.

Segundo Viegas, o suco de laranja tem sido exportado pela indústria a preços inferiores ao custo de produção. Um produtor que preferiu não se identificar diz que "o comprador desse suco, provavelmente, são as próprias esmagadoras, que também estão instaladas nos Estados Unidos. A indústria registra um preço baixo de venda do suco aqui para deprimir o preço pago ao produtor agrícola", acusa.

"A acusação é uma bobagem monumental, pois pagamos ao produtor um preço previamente negociado", ataca Ademerval Garcia. O executivo também não faz questão de esconder que "a preocupação principal da industria é com o mercado, com a clientela, e não com os fornecedores".

Num texto no site da Abecitrus, Garcia também critica a Câmera Setorial da Citricultura e seu presidente, Flávio Viegas. "O fato é que, além de administrada com visível sectarismo e ideologia e sem objetividade, a Câmara Setorial de Citricultura transformou-se num palanque que poderia causar sérios danos ao setor, merecesse ela - e as diatribes do seu presidente - mais crédito. Pelo sim pelo não, a Câmara, que foi formada para somar, transformou-se num fator divisório tão evidente que a maioria dos seus membros prefere não mais comparecer", escreveu Garcia.

Paralisação:

Segundo o executivo da Abecitrus, "após um ano de instalação, a Câmara continua sem agenda de trabalho, reunindo-se em locais variados - desde que haja um auditório -, com baixíssimo comparecimento dos seus membros titulares e tratando de assuntos irrelevantes para um setor que tem um PIB anual estimado em US$ 5 bilhões, exporta quase US$ 1,5 bilhão, emprega mais de 400 mil pessoas e é responsável no todo ou em parte pela economia de 322 municípios paulistas e 11 mineiros. A maior citricultura do mundo, em resumo".

O deputado federal Mendes Thame (PSDB-SP), presente no evento em Bebedouro, diz que "a diversificação da agricultura é importante para a segurança macroeconômica do Estado. A citricultura dá empregos e pode ser uma forte fonte de renda para o País." Thame acrescenta que quatro indústrias respondem hoje por 85% da produção nacional de sucos cítricos. "Elas fazem uma política para baixar o preço do suco, mas isso, na verdade, não chegou ao consumidor final. O preço caiu só para os produtores rurais".


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