Presidente da Associtrus aponta alternativa para o setor

Agronegócio

Presidente da Associtrus aponta alternativa para o setor

Mercado interno é solução de curto prazo para citricultura, afirma Viegas
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Em entrevista ao Campo News, presidente da Associtrus aponta alternativas para a recuperação do setor, defende a intervenção do governo e a mobilização dos produtores na tentativa de redefinir o mercado.

Com a crise da citricultura no Brasil, as entidades do setor seguem pressionando o governo e trabalhando em busca de alternativas para manter a atividade no País. Em entrevista ao Campo News, o presidente da Associtrus (Associação Brasileira dos Produtores de Citrus), Flávio Viegas, falou sobre possíveis soluções no combate ao cartel das indústrias de suco, que determinam as regras do mercado estabelecendo preços impraticáveis para o produtor. Para ele, a recuperação depende do investimento no mercado interno, da intervenção do governo e da mobilização dos citricultores, a exemplo de sistemas-modelo, como o departamento de citros da Flórida (EUA).


Campo News: A Associtrus está recomendando que o produtor de laranja não entregue sua produção à indústria pelos preços praticados atualmente. Então, que alternativas ele tem para não perder a safra?


Viegas: Estamos estudando várias alternativas, mas elas dependem da sensibilização geral dos citricultores. Atualmente, a melhor alternativa em curto prazo é investir no mercado interno com algumas ações. Existe um programa do governo, por exemplo, chamado Estação Economia, que abre as estações de metrô e trem metropolitano para venda direta de laranja ao consumidor. Isso não resolve o problema, mas é uma medida de impacto, que coloca o produto na mídia e chama atenção para o problema. Na verdade, dependemos muito mais da regulamentação do mercado, com soluções de médio e longo prazo. Para isso, o governo precisaria realmente intervir e acabar com o cartel das indústrias de suco e consolidar a questão do preço mínimo, que foi aprovado na Comissão da Crise da Agricultura e vai tramitar agora nos ministérios da Agricultura e da Fazenda. Não vai ser uma tramitação fácil, mas se houver uma mobilização dos citricultores, temos chances de conseguir alguma coisa. No dia 25 de agosto haverá uma audiência pública no Senado para discutir o assunto e o produtor precisa aproveitar a oportunidade para se manifestar.


Que outras ações sinalizam o potencial do mercado interno?


Acabo de saber de uma lei que proíbe a venda de refrigerantes nas cantinas escolares. É uma medida que pode estimular o consumo de suco de laranja. No entanto, é preciso ficar atento à composição desses produtos também, para preservar o mercado. Tenho visitado escolas, hotéis, supermercados, e cada vez mais as bebidas oferecidas nesses lugares têm um teor muito baixo de suco propriamente dito, e o consumidor acredita que está bebendo suco natural. Em outros casos, a bebida é falsificada mesmo, totalmente artificial. Com relação à laranja in natura, o padrão da fruta brasileira é muito boa, a melhor do mundo. Por isso, falta investir em marketing, pois ainda há muita desinformação sobre os benefícios da laranja e das frutas em geral. Outro dia, vi uma moça na televisão dizendo que não tomava suco porque engorda. Ela não considerou que qualquer alimento engorda, e por isso o melhor a fazer é identificar vantagens e desvantagens de cada um, chegando à melhor escolha. Considerando essas características, um estudo americano classificou a laranja como um dos 15 melhores alimentos do mundo, mas às vezes nem médicos e nutricionistas sabem disso.


E de onde viria a verba para esse marketing?


Nós temos a proposta de criar um sistema como o da Flórida (EUA), segundo maior exportador de laranja depois do Brasil. Lá, existe um departamento de citros estruturado pelo governo, gerenciado por um executivo e um conselho de representantes da cadeia produtiva. Todos os citricultores associados contribuem com um fundo, que arrecada cerca US$ 60 milhões por ano. Toda a verba é destinada prioritariamente ao marketing. Agora, com a expansão do greening, o departamento reservou US$ 20 milhões para o combate à doença, mas a maior parte do dinheiro continua sendo aplicada em divulgação. No Brasil, com os produtores endividados e o mercado concentrado na indústria, o ideal seria estabelecer um imposto sobre o suco importado e criar um programa de incentivo, deduzindo desse imposto a verba investida pela própria indústria no marketing interno do produto.


O que mais o Brasil pode aprender com o modelo da Flórida?


Na Flórida, os citricultores são bem organizados e o lobby deles é tão forte que, na última eleição, chegaram a eleger 12 congressistas. Por isso, o governo se envolve e interfere no mercado, quando preciso. Lá, o produtor tem acesso a informações detalhadíssimas do setor, com dados de estoque, volume processado, preço, mercados destinados, entre outros. As informações são disponibilizadas semanalmente no site da associação e permitem que os produtores se organizem conforme o movimento do mercado. No Brasil, não temos nem mesmo dados consolidados sobre a safra porque a indústria dificulta a pesquisa. As secretarias da Agricultura têm poder de polícia para fazer esse trabalho, mas os políticos não querem se confrontar. Na verdade, essas empresas financiam muitas campanhas eleitorais. As multinacionais que atuam no Brasil são sediadas aqui e têm subsidiárias na Flórida, mas agem de maneira diferente lá porque é uma terra com lei.


A laranja in natura também está sendo vendida abaixo do custo no mercado interno. Para que o produtor consiga se recuperar a partir dessa opção, também seria preciso aumentar o valor da caixa? Existe o risco desse aumento ser repassado ao consumidor final e gerar um movimento contrário, retraindo o consumo?


A laranja está sendo vendida abaixo do custo porque a indústria, como grande compradora, baliza o mercado com uma política que dificulta a organização dos produtores. Quando eles começam a se estruturar, as empresas de suco jogam um grande volume de produção própria no mercado por um preço muito abaixo da realidade e desestruturam qualquer tentativa de organização. Mas o Brasil tem condições de abastecer adequadamente o mercado, com um preço justo para todas as partes. O custo de produção de uma caixa está na faixa de R$ 15,00, menos de R$ 0,50 por quilo. Não é um valor absurdo. Hoje, o varejista compra o quilo da laranja em média por R$ 0,04, e veja o preço que estamos pagando no supermercado. Por isso, é preciso garantir uma correta distribuição da margem de lucro, porque alguns elos da cadeia se apropriam de toda a renda. Havendo uma remuneração adequada para cada um, o preço não vai explodir. O risco existe do jeito que está. Com a citricultura concentrada nas mãos de poucos, o consumidor vai ser prejudicado mais cedo ou mais tarde.


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