Queda nos preços do leite reduz captação
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Agronegócio

Queda nos preços do leite reduz captação

O volume de leite recebido pela indústria em setembro foi apenas 1,25% maior que o de agosto
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A crise que assola a produção leiteira no país - provocada pela combinação entre a queda nos preços pagos ao produtor e alta nos custos dos insumos - já mostra seus efeitos nos volumes captados em Minas, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Bahia. Segundo pesquisa divulgada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP, as sucessivas retrações nos preços do leite - juntamente com a elevação dos custos - têm feito com que o aumento da oferta, típico do segundo semestre, ocorra em um ritmo menor do que em anos anteriores. De acordo com o Índice de Captação de Leite do Cepea (Icap-L), o volume de leite recebido pela indústria em setembro foi apenas 1,25% maior que o de agosto. Em setembro de 2007, a captação havia subido de 6,74% no mês.

Em setembro 2006 (5,76%) e 2005 (2,32%) a variação também foi superior à apurada neste ano. A crise enfrentada pelo setor produtivo será alvo de uma audiência pública, hoje, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Dentro de cerca de duas semanas, em data a ser definida, o tema também será debatido, em audiência pública, pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais.

Na avaliação do pesquisador coordenador do Icap-L, Gustavo Beduschi, o baixo crescimento registrado em setembro é conseqüência da falta de estímulos ao produtor. ½Com custos elevados e preços em queda, o produtor reduz os gastos com a alimentação e o gado produz menos”, analisa. Para o presidente da Comissão de Leite da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Eduardo Dessimoni, a redução do ritmo de oferta em setembro, no comparativo com outros anos, revela uma reação do produtor aos baixos preços.

‘Ele está administrando uma redução na captação, em busca de um reequilíbrio‘, avalia. Mesmo com o início da estação das águas, quando o pasto fica mais farto e, tradicionalmente, a produção aumenta, Dessimoni aposta na manutenção de um ritmo menor de crescimento da produção entre os produtores especializados para os próximos meses. ½O especializado deve reduzir o ritmo. O maior aumento deve vir do produtor safrista. Mas a partir de janeiro, a situação deve se regularizar. Acreditamos em um novo reequilíbrio de preços, a partir de fevereiro do ano que vem. A estabilidade deve ocorrer em patamares mais altos do que hoje, mas não tão altos como os que tivemos no ano passado”, opina o presidente da Comissão de Leite da Faemg, que defende a adoção de uma política nacional de regulação de preços.

Minas responde por cerca de 33% da produção nacional de leite, que atingiu 26,7 bilhões de litros em 2007. O pecuarista Eduardo Sérgio de Andrade Reis, 48 anos, que cria 150 vacas em Varginha, tem buscado canais alternativos de distribuição para dar vazão à produção diária de três mil litros de leite. ½Não faltam laticínios, mas eles estão todos abarrotados de leite. Há excesso de oferta e falta de política de incentivo do governo para a ampliação ou implantação de mais laticínios. Quem tem leite para vender fica à mercê dos preços que os laticínios se dispõem a pagar”, reclama o pecuarista, que vende o produto pasteurizado direto para pequenos varejistas como forma de driblar a crise de preço enfrentada pelos produtores.

½A crise no setor leiteiro acontece sistematicamente e o produtor sempre paga todas as penas. Precisamos de uma política para os períodos de super oferta”, enfatiza Dessimoni. Segundo levantamento do Cepea, o volume de leite recebido pela indústria até setembro deste ano já é 16,55% maior do que no mesmo período do ano passado.

O consultor do programa Educampo, do Sebrae, em Viçosa, Christiano Nascif, pondera, no entanto, que o produtor pode acabar prejudicado com a estratégia de redução do concentrado oferecido aos animais. ½Como o fluxo de caixa não fecha no final do mês, o produtor corta o concentrado como forma de economizar e as vacas produzem menos leite. O problema é que há o risco de se criar um problema reprodutivo e, quando o preço voltar a subir, o pecuarista pode não ter animais para produzir leite. É um ciclo que pode levar o produtor à descapitalização”, alerta Nascif.

O coordenador do Programa Minas Leite, da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG), Rodrigo Venturim, também vê com preocupação a capacidade de investimento do pecuarista para garantir a produção em 2009. ½Com o preço do litro em queda, o produtor fica descapitalizado para fazer o plantio das lavouras de milho, sorgo e cana, que servirão de alimento para os animais na próxima seca”, pondera.

Desde julho, quando os preços começaram a cair, a média ponderada nacional (RS, SC, PR, SP, MG, GO e BA) já perdeu 15 centavos por litro. De acordo com levantamento do Cepea, em outubro, o preço médio bruto foi de R$ 0,60 por litro - em junho, último mês antes de se começarem as quedas, a média era R$ 0,76 por litro. Só em outubro, o preço médio do leite pago ao produtor caiu 7,3%, ou R$ 0,04, em relação ao pagamento de setembro. Na contramão da queda dos preços, os custos de produção já subiram 11,63% em 2008. Nos últimos 12 meses, a alta é de 24,18%, segundo o Índice de Custo de Produção de Leite, apurado pela Embrapa. O concentrado, por exemplo, subiu 35,18% no período. Já o sal mineral subiu 62,18%.

Para o próximo mês, no entanto, a perspectiva é de mudança da tendência. Cerca de metade dos representantes de laticínios e cooperativas ouvidos pelo Cepea acredita em manutenção dos atuais valores para o pagamento de novembro. A outra metade, no entanto, continua sinalizando mais um mês de queda nos preços. ½Em Minas, São Paulo e Goiás, no entanto, prevalece a percepção de manutenção de queda nos preços para novembro, compartilhada por cerca de 70% dos ouvidos”, adianta o pesquisador.


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