Reações da gripe

Agronegócio

Reações da gripe

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“Eta mundo velho de guerra sem porteira!”
(Dito popular, lá das bandas do Triângulo)

Incongruências, preconceitos, idiossincrasias volta e meia detectados no comportamento humano têm aflorado, impetuosamente, em variadas circunstâncias, na trajetória percorrida pela “gripe suína”.

A misteriosa enfermidade irrompida na América do Norte foi notificada ao público, de forma estridente, como uma epidemia em marcha. Pelo que se pôde deduzir dos alertas emitidos, a epidemia caminhava para desembocar numa verdadeira pandemia. Algo comparável à tragicamente célebre “gripe espanhola”, da segunda década do século passado, que dizimou milhões de criaturas. Mas, a esta altura do campeonato, parece que o surto perdeu embalo. As indicações são no sentido de que, afortunadamente, não se confirmarão as expectativas alarmistas levantadas. Mais: a vacina capaz de controlar a doença vem vindo aí.

Enquanto isso, toma impulso uma inesperada hipótese. A “gripe suína” não representou, hora alguma, inquietante ameaça. O dimensionamento super exagerado que se lhe foi atribuído decorreu de solerte jogada marqueteira. Os autores tentaram, com a marota empreitada, deslocar pra outro tema incandescente as atenções concentradas na colossal encrenca financeira em que empresários norte-americanos inescrupulosos meteram o mundo inteiro. Dá pra perceber que um mundão de gente não encontra dificuldades maiores em absorver como fidedigna tal especulação. Motivos de sobra haverá, por certo, para explicar tamanho grau de desconfiança popular quanto às manifestações da Saúde Pública. Mas isso, como era do costume dizer-se em tempos antigos, são outros 500.
Do que nos animamos mesmo a tratar neste papo, como evocado no introito, são de reações comportamentais específicas, provocadas pela malvada gripe.
Radicalismo e preconceito religioso. Foi o que moveu, por exemplo, as autoridades egípcias. A carne de porco é considerada profana em redutos maometanos. No país que abrigou a fascinante civilização dos faraós, a criação e o abate de suínos, desaprovadas pela maioria da população, constituem atividade próspera, explorada pela minoria cristã. O que fez, então, o governo? Assim que soaram as trombetas do alerta apocalíptico, traçou uma política de prevenção sanitária ajustada aos clamores e conveniências dos grupos religiosos dominantes. Confiscou e mandou eliminar rebanhos suínos, sem se lixar para pareceres técnicos que afastavam categoricamente a ingestão da carne como fator de risco.

Noutras partes, onde a força lobística dos produtores de suínos é realidade, ocorreram reações totalmente inversas. Com o inocultável objetivo de proteger os interesses comerciais em jogo, porta-vozes dos institutos sanitários se apressaram em tornar públicas sintomáticas revelações: 1) o consumo de carne suína não representa perigo algum; 2) a denominação “gripe suína” não exprime os fatos. O jeito, então, foi rebatizá-la. Nasceu assim a “gripe H1N1”, que “não pegou”... Ora, epa! Alguém, entre os distintos leitores, acreditou mesmo que uma respeitável ponderação mercadológica, como essa, não iria fazer jus a destaque especial em meio às preocupações globais geradas pela doença?
Discriminação e racismo se juntaram, também, no efervescente processo dessa enfermidade que não chegou a ser o que era pra ter sido. Na China, num cenário em que o exagero assumiu tintura surrealista, inocentes cidadãos de nacionalidade mexicana sentiram seus passos, de repente, monitorados por zelosos agentes da saúde pública. Isso sem que nenhum deles se revelasse portador de um banal resfriado sequer. Uma aeronave da Força Aérea Mexicana teve que ser deslocada até Pequim, antes que se lhes fosse imposta alucinante quarentena.

Por causa da gripe, disputas futebolísticas foram suspensas. Não se sabe se alguém animou-se a indagar dos paredros do Conmebol se estariam dispostos a estender, também, por analogia, a proibição de jogos a regiões latinoamericanas onde, comprovadamente, grassam surtos epidêmicos de dengue, com significativo número de óbitos.
Outro lance que não escapou aos olhares argutos dos observadores das estranhas reações comportamentais suscitadas pela “gripe suína”: o problemaço deixou, subitamente, de frequentar com assiduidade o noticiário, assim que constatado o deslocamento do epicentro do surto irrompido no México para os Estados Unidos. Os prudentes e insistentes aconselhamentos para que os turistas evitassem as regiões infectadas praticamente cessaram, a partir dessa constatação. Isso é que é coincidência!

Como diria o saudoso Wilmondes Cruvinel Borges, fundador e cantador da famosa “catira dos Borges”, lá das bandas do Triângulo Mineiro: “Eta mundo velho de guerra sem porteira...”.

Cesar Vanucci é jornalista

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