Agronegócio

Seminário leva informações, experiências e novidades para produtores de uva orgânica

Alternativas para a produção de uva orgânica foram apresentadas no 8º Seminário Regional da Uva Orgânica.
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Alternativas para a produção de uva orgânica foram apresentadas nesta quinta-feira (21/07), em São Marcos, no 8º Seminário Regional da Uva Orgânica, promovido pela Emater/RS-Ascar, Centro Ecológico de Ipê e Prefeitura de São Marcos. O evento, que contou com a participação de cerca de 450 pessoas, teve palestras, pela manhã, no salão paroquial, e um Dia de Campo, à tarde, na propriedade da família Guzzon, que desde 2011 cultiva uva orgânica para a indústria, com apoio da Emater/RS-Ascar.

Na abertura do evento, junto com o prefeito de São Marcos, Demétrio Lazzaretti, e o coordenador do Centro Ecológico de Ipê, Leandro Venturin, o diretor técnico da Emater/RS, Lino Moura, destacou a importância da Extensão Rural e Social e entidades parceiras produzirem e levarem conhecimento para os agricultores e da socialização de experiências entre eles, além da necessidade de se avançar em relação à legislação e pesquisa na área de produção orgânica. "O que faz a diferença para se produzir mais e melhor, com mais qualidade e menor penosidade, é justamente o conhecimento, a inovação, a tecnologia", salientou.

O primeiro assunto abordado no seminário pelo engenheiro agrônomo da Embrapa Uva e Vinho, Daniel Grohs, foi a produção de mudas de qualidade: desafio da viticultura regional. Diante do cenário atual, em que a morte precoce de parreirais é um dos principais problemas fitotécnicos do Sul do Brasil, com áreas com menos de cinco anos entrando em declínio, Grohs falou sobre as estratégias para reverter essa situação, como a renovação de áreas a partir de mudas de qualidade produzidas na propriedade ou adquiridas de viveiristas, e o manejo de implantação. De acordo com ele, é fundamental para reduzir/evitar as doenças de solo, que a muda tenha porta-enxerto. No entanto, 25% dos produtores gaúchos não conhecem o porta-enxerto que estão utilizando, e outros 30% não usam porta-enxerto. 

Grohs deu dicas de como analisar o padrão morfológico e fitossanitário das mudas e lembrou que a Embrapa vem desenvolvendo um trabalho de certificação de viveiros, baseado num padrão da muda. Atualmente, no RS, há cinco viveiristas licenciados. Ele também ressaltou que na produção da muda na propriedade, o produtor deve priorizar a enxertia em verde (herbácea) e usar porta-enxerto enraizado. 

O engenheiro agrônomo da Emater/RS-Ascar, Enio Todeschini, falou sobre o cultivo sucessivo de plantas de cobertura do solo, uma nova prática na viticultura da região. Consiste em ter dois cultivos no ano civil ou agrícola. No primeiro, deve-se utilizar uma espécie de inverno que tolere o calor de final de verão, tenha ciclo curto (precoce) e faça massa verde, sendo recomendado o nabo forrageiro. No segundo plantio, no mês de julho, semeia-se a lanço uma graminínea sobre a vegetação em final de ciclo do nabo, sendo usada principalmente a aveia preta. "Com isso, no período forte de poda (final de julho e agosto) a aveia estará com porte pequeno, não interferindo no fácil trânsito de pessoas na poda", salienta Todeschini. O principal objetivo do cultivo sucessivo é proteger o solo o ano inteiro, evitando a germinação das ervas espontâneas, o que resulta na não necessidade do controle com herbicida. Além da palestra pela manhã, à tarde, na propriedade da família Guzzon, o agrônomo explicou ainda sobre outras espécies para cobertura do solo, dosagem de sementes, época de semeadura e requisitos para a germinação da primeira semeadura, ressaltando que é preciso que penetre luz pela copa para que as plantas germinem e possam se estabelecer.

Após, o coordenador do Centro Ecológico de Ipê, Leandro Venturin, tratou dos compostos biológicos na melhoria da qualidade do solo. Segundo ele, um solo fértil, equilibrado e bem estruturado é o de floresta. Uma forma de reproduzir esse solo de floresta em parreirais, hortas e lavouras, colonizando o solo com microorganismos e devolvendo a vida a áreas compactadas pelo uso do trator ou solos descobertos que ficaram vulneráveis ao sol, é utilizando o fermento crioulo, também chamado de sopão de microorganismos ou composto biológico. À tarde, a campo, a engenheira agrônoma do Centro Ecológico, Alenise Longhi, mostrou como elaborar o fermento crioulo, que leva como ingredientes: serapilheira (material decomposto coletado na terra de mata virgem), leite ou soro de leite, farelo de trigo ou arroz, açúcar mascavo e pó de rocha (opcional). Além de explicar a forma de preparo do produto, que na segunda fase fica líquido, a agrônoma explicou a dosagem a ser aplicada no solo, preferencialmente coberto e em dia nublado, e a armazenagem. A receita e forma de utilização estão disponíveis no site do Centro Ecológico de Ipê. 

O fermento crioulo é uma das ferramentas usadas na agricultura sintrópica, que reorganiza a vida do solo a partir de elementos naturais, promovendo o equilíbrio e melhorando a fertilidade. Conforme Alenise, o fermento crioulo tem fungos benéficos que ajudam as raízes das plantas a se defenderem, por exemplo, do fusarium, aumenta o nível de matéria orgânica no solo e tem microorganismos que aumentam a capacidade de nutrição das plantas. "Ele tem várias funções, pode ser feito em casa com baixo custo e é eficiente", conclui. 

Na sequência, o professor do Instituto Federal do Rio grande do Sul, Marcus Kurtz Almança, abordou o tema do controle biológico em videira, que é o controle de um microorganismo por outro microorganismo, e apresentou os resultados de alguns experimentos realizados.

O uso do controle biológico contribui para tornar o ambiente desfavorável ao surgimento de doenças, podendo atuar como indutor de defesa ou diretamente contra o patógeno. Entre as alternativas de controle biológico estão: Trichoderma, Bacillus e Streptonyces, extratos e óleos essenciais de plantas ou preimunização (vacina).

De acordo com o professor, para pensar em controle, o produtor tem que conhecer as doenças e sua causa. No manejo de uma área de replantio de videira, por exemplo, o Trichoderma deve ser aplicado nas mudas para restringir a chegada do patógeno na raiz e também para regar as plantas ao longo do seu ciclo. Ele destacou ainda a importância de fazer um controle integrado: controle biológico, genético, cultural e físico.

O seminário contou ainda com o depoimento da família Guzzon, que relatou a motivação para o uso de uma tecnologia de produção mais limpa e também as vantagens e as dificuldades enfrentadas. Atualmente, a família conta com aproximadamente 6 ha, ou seja, 100% da área com produção orgânica de uvas das variedades Bordô, Isabel Precoce, Carmen e Niágara Branca. "Além de ser uma grande oportunidade de negócio, um nicho de mercado, a produção orgânica proporciona melhor qualidade de vida para os agricultores e a preservação dos recursos naturais, com a oferta de produtos mais limpos e seguros para os consumidores", destacou o técnico da Emater/RS-Ascar, Fabiano Varela. 

Outro tema abordado no Dia de Campo foi a poda de outono da videira, sua aplicabilidade e resultados. 

O próximo Seminário Regional da Uva Orgânica será realizado em 2018, no município de Antônio Prado.

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