Setor de grãos quer barrar fusão da ALL com a Rumo
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Agronegócio

Setor de grãos quer barrar fusão da ALL com a Rumo

Receio é que a "nova" ALL privilegie cargas de açúcar da Cosan
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 Pelo menos 5 entidades e empresas pressionam o Cade contra o negócio

A mobilização para tentar barrar ou impor condições à fusão da América Latina Logística (ALL) com a Rumo, do grupo Cosan, reúne pelo menos três entidades do setor de grãos e duas empresas privadas. Elas temem que a ALL passe a priorizar cargas do seu novo acionista, com forte atuação no mercado de açúcar e etanol, em detrimento dos demais clientes do setor de soja e milho.

A ofensiva teve início há quatro meses quando a TCA Logística Transportes e Armazéns Gerais Ltda fez uma denúncia no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão antitruste do governo, sobre práticas comerciais abusivas envolvendo a ALL e a Cosan. Um inquérito foi aberto para apurar o contrato de transporte de açúcar da Cosan pela ALL.

Efeito multiplicador

União pode alavancar negócios na área de açúcar e etanol


Se por um lado o setor de grãos pode perder espaço nos vagões da ALL, os produtores de açúcar podem sair ganhando no médio prazo com a fusão, na avaliação da consultoria GO4!, de Curitiba. Na opinião de Marcos Lima, sócio para área de fusões e aquisições, o foco da Cosan na área de açúcar e etanol pode inclusive gerar novos negócios no setor, com compra de ativos no Paraná. "A Cosan pode se interessar por empresas que atuam nessa área e também investir mais no escoamento de açúcar pelo Porto de Paranaguá", afirma.

Para ele, o ponto positivo da operação é que ela deve gerar mais investimentos na malha ferroviária. A ALL opera hoje no limite da sua capacidade. O açúcar pode ganhar importância na pauta de commodities da empresa. "Essa commodity vem crescendo constantemente nos últimos anos, apresentando menor volatilidade do que a soja", acrescenta.

Hoje o terminal portuário paranaense escoa cerca de 20% da safra de açúcar brasileira. O volume é o excedente do centro-sul e do centro-oeste do país que não é atendido pelo Porto de Santos.

Em seguida, a Federação da Agricultura do Paraná (Faep), a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja-Brasil) e a Fibria Celulose S/A se manifestaram como partes interessadas no processo. Todos pressionam para que o Cade imponha medidas de proteção ao setor antes mesmo de o pedido de fusão ter chegado ao órgão.

Interesses à parte, o temor dos produtores de grãos faz sentido. Com a fusão, a Cosan passa a ter poder na ferrovia responsável por atender o principal corredor agrícola do país e responsável pelo maior volume de embarque de grãos. São 12 mil quilômetros de vias férreas com acesso aos portos de Paranaguá e Santos (SP), que passam pelos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. No ano passado, 22% das exportações de soja, 21% das vendas de farelo e 26% das de milho foram transportadas por trilhos da ALL.

"Se o negócio sair, um cliente passa a ser dono da ferrovia. O risco é que a ALL passe a privilegiar a Cosan e limite os vagões para os demais setores", diz Nilson Hanke Camargo, assessor técnico e econômico da Faep.

Sem investimentos

A disputa entre produtores de grãos e açúcar ganhou fôlego porque a capacidade de transporte da ALL é hoje limitada pela falta de investimentos. Embora as safras de grãos e de cana ocorram em períodos diferentes, a demanda hoje é praticamente contínua ao longo do ano, lembra Camargo, da Faep.

Cada tonelada de produto transportada pela ALL é uma tonelada a menos de outro. Segundo o diretor executivo da Aprosoja-Brasil, Fabricio Rosa, desde o ano passado a ALL não aceita novos clientes do setor de grãos.

Os volumes de soja e milho são cinco vezes maiores do que os de açúcar e a recusa ou o aumento do frete pode empurrar essa safra para as rodovias. "Há uma preocupação de que essa fusão possa piorar ainda mais as condições do transporte do setor."

Acionistas devem se manifestar em 15 dias

O Conselho de Administração da ALL tem até 5 de abril para avaliar a oferta de fusão proposta pela Cosan. Se aprovada, a operação será levada para assembleia de acionistas e terá de ser aprovada por no mínimo 51% dos membros. Pela proposta, a Rumo deve incorporar a totalidade das ações de emissão da ALL, ficando com 36,5% da companhia resultante da união, enquanto os demais 63,5% do capital caberiam aos sócios da ALL, segundo fato relevante da Cosan.

A oferta considera um valor de referência para a ALL de R$ 6,959 bilhões, equivalente a R$ 10,184 por ação. O valor, no entanto, não teria agradado aos fundos que têm participação na empresa.

Pelos termos da proposta, a Cosan será responsável por indicar a maioria dos conselheiros da companhia combinada, num total de nove das 17 cadeiras. Os outros acionistas da Rumo, os fundos de investimento TPG e Gávea, teriam uma cadeira cada, bem como os atuais acionistas da ALL (BNDES, fundo BRZ ALL, Previ, Funcef, Julia e Ricardo Arduini e Wilson de Lara).

Essa é a segunda vez que a Cosan tenta adquirir a ALL. Em fevereiro de 2012, a empresa fez uma oferta pela compra do bloco de controle da operadora ferroviária. Foram oferecidos quase R$ 900 milhões para comprar 38,9 milhões de ações da ALL, o equivalente a 5,6% do capital total da companhia. Na época, as negociações esbarraram na exigência da Cosan de fazer uma auditoria nas contas da ALL. Embora estejam negociando uma fusão, as duas empresas têm uma pendência judicial, em que a Cosan acusa a ALL de não fazer investimentos necessários na sua malha até o Porto de Santos (SP).

A fusão tem o apoio do governo, que pressiona a ALL para acelerar investimentos. Os donos da Rumo, no entanto, condicionam a execução de investimentos" estruturantes" à prorrogação dos prazos de concessão da malha.

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