Soja brasileira sofre crise de credibilidade
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Agronegócio

Soja brasileira sofre crise de credibilidade

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Os exportadores de soja brasileiros terão de passar, nos próximos meses, por um processo de reconquista de credibilidade no mercado internacional, principalmente o chinês. O envio para a China de soja misturada a sementes com traços de fungicida, pelo Porto de Rio Grande (RS), abala a confiança externa na qualidade do grão exportado em todo o país, de acordo com analistas do mercado agrícola e com o Ministério da Agricultura. Uma prova desse “abalo nacional”, segundo especialistas, é o aumento do risco portuário de Paranaguá, referência nacional em exportação de soja, que atingiu novo recorde histórico no início desta semana.

Segundo o analista da Agência Rural Commodities Agrícolas, Seneri Paludo, o “prêmio negativo” de Paranaguá chegou a 180 pontos-base negativos na terça-feira. Isso significa um desconto de US$ 1,80 sobre o preço do bushel do grão (27,21 quilos) na Bolsa de Chicago, que define preços mundiais para o produto. Ontem, o risco foi reduzido um pouco em Paranaguá, para 160 pontos, mas ainda estava acima do valor recorde de março (150 pontos), quando uma greve e denúncias de irregularidades paralisaram o porto.

Paludo explica que os compradores chineses não conseguem separar Rio Grande, Paranaguá e demais portos em categorias diferentes – por isso, o país inteiro sofre. “O que importa é que seis multinacionais que atuam no Brasil enviaram soja contaminada para a China”, diz o analista, referindo-se às empresas ADM, Cargill Agrícola, Louis Dreyfus, Noble Grain, Irmãos Trevisan e Bianchini, que atualmente estão impedidas de vender para o país. As duas primeiras também operam no Paraná. Ao contrário de outros mercados, que aceitam uma pequena quantidade de semente na soja commodity, os chineses não aceitam a mistura.

A informação do analista da Agência Rural de Notícias é reforçada por Ywao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja). Segundo ele, no curto prazo, o envio de cargas com mistura pelo Rio Grande do Sul vai acarretar um “cancelamento geral das compras de brasileiros”.

Miyamoto disse, porém, que em um futuro próximo o rigor na fiscalização no Paraná pode ser usado como estratégia de marketing em favor de outros estados. “Embora o governo paranaense tenha proibido os transgênicos para beneficiar os agricultores, o resultado até agora foi o oposto”, afirmou, referindo-se ao aumento dos riscos portuários, que abocanham parte dos lucros dos agricultores.

Ontem, o governo do Paraná divulgou nota afirmando que o banimento da soja com mistura de sementes pela China deve beneficiar o Porto de Paranaguá. O governador em exercício, Orlando Pessuti, disse que as pessoas que contratam cargas sabem diferenciar a qualidade dos serviços nos diferentes portos brasileiros.

Entretanto, o gerente técnico-econômico da Organização e Sindicato das Cooperativas do Paraná, Flávio Turra, disse que, fora os dois navios que atracaram ontem no porto paranaense, por causa das dificuldades de fiscalização em Rio Grande, o mercado não detectou qualquer benefício adicional para o Paraná.

O preço do bushel de soja em Chicago, que passou dos US$ 10 no início de março, está em marcha-ré nas últimas semanas – ontem, fechou em US$ 8,72, segundo a consultoria Safras & Mercados, de Curitiba. O gerente da Ocepar explicou que as cotações foram puxadas para baixo por causa do aumento de expectativa de safra nos Estados Unidos.

A safra brasileira de soja está praticamente concluída. No Paraná, 98% das lavouras já foram colhidas. A produção do estado deve ficar em 10 milhões de toneladas – redução de 15% em relação ao inicialmente previsto. “Mas as perspectivas são de preço bom (para os próximos meses). O mercado mudou e não deve mais voltar aos patamares históricos, de US$ 6,50 para o bushel de soja”, disse Turra.


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