Tecnologia é chave contra a fome
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Agronegócio

Tecnologia é chave contra a fome

Genética, insumos, máquinas, gestão e inovação elevam oferta de alimentos
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Genética, insumos, máquinas, gestão e inovação elevam oferta de alimentos
Para os céticos que não acreditam que o mundo será capaz de produzir alimentos para toda a população, o passado pode ser um choque de esperança. Nos últimos 50 anos, a produtividade de grãos e fibras do Brasil saltou incríveis 774%. No ano passado, a pecuária brasileira tirou de cada hectare de pastagem 43% mais carne bovina do que uma década antes.
 
Nesta terceira reportagem especial da série “Onze maneiras de alimentar 7 bilhões”, o Sou Agro mostra que a tecnologia agropecuária produziu o que alguns poderiam chamar de milagre verde, mas que muito ainda precisa ser feito para que esse milagre perdure e reduza ainda mais a fome.

Baseado no melhoramento genético associado ao maior uso de máquinas, adubos e defensivos agrícolas, o Brasil se tornou uma referência em agricultura tropical. “O salto da nossa produção agropecuária não teve paralelo em nenhuma outra região do mundo”, diz o diretor executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Maurício Antonio Lopes.

O caso da produção de grãos no cerrado é um dos maiores sucessos da tecnologia agrícola mundial. A Embrapa conseguiu adaptar para o clima tropical sementes até então melhoradas apenas para os países mais frios, permitindo o grande avanço da agricultura do País.

Ministro da Agricultura à época da criação da Embrapa, Alysson Paolinelli defende que mais investimentos seriam necessários. “A Embrapa passou por 24 anos de sucateamento e essa fase passou, mas o investimento ainda é muito inferior ao necessário”, alerta ele, vencedor do World Food Prize 2006 – considerado o “nobel” da agricultura.

Paralelamente, um grande impulso também foi dado à tecnologia agrícola no País com investimentos privados. No fim dos anos 90 foi criado um marco regulatório de proteção à propriedade intelectual embarcada nas sementes, o que permitiu que grandes empresas mundiais investissem no desenvolvimento de tecnologias agrícolas no Brasil. “Mas ainda precisamos evoluir nas leis de propriedade intelectual para elevar os investimentos”, diz o presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Narciso Barison Neto.
Toda a ajuda será importante para enfrentar os novos desafios que a tecnologia agrícola tem pela frente. “Sem pesquisa e desenvolvimento, não acredito no potencial brasileiro de acompanhar o salto mundial de 7 bilhões para 9 bilhões de habitantes”, diz Paolinelli.

As novas oportunidades abertas pelo avanço tecnológico precisam de estratégia para ser alcançadas, ressalta Lopes, da Embrapa. “Verdadeiras revoluções estão acontecendo em vários campos do conhecimento, na biologia com a genômica, na física e na química com a nanotecnologia, no campo da informação e da comunicação”, cita o diretor da Embrapa.

Acesso à tecnologia

Mas para diminuir a fome, não basta criar tecnologias. É preciso que os agricultores do Brasil e do mundo tenham acesso a elas, e esse continua sendo um desafio do agro brasileiro. “A tecnologia não sai voando”, diz o presidente do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-PR), Rubens Niederheitmann.

Criada praticamente junto com a Embrapa, a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater) foi extinta no início dos anos 90. “Cerca de 3 milhões de propriedades precisariam da extensão rural para acessar tecnologias melhores, mas faltam recursos para os estados fazerem esse trabalho sozinhos”, diz Niederheitmann.

“Temos um estoque altíssimo de tecnologia que não está sendo transferido, como a integração lavoura-pecuária-floresta”, diz Alysson Paolinelli.

O problema passa também pela falta de renda e crédito para que o agricultor possa comprar uma semente mais cara ou o volume ideal de fertilizantes, por exemplo. “Temos sementes com vários níveis de tecnologia, conforme o poder aquisitivo do produtor, e aumentar a adoção das melhores sementes depende da política agrícola”, diz Barison.

Do total de 5,2 milhões de estabelecimentos rurais no Brasil, listados no Censo Agropecuário de 2006, apenas cerca de 983 mil usavam alta tecnologia, recorda Lopes, da Embapa. A produtividade brasileira de milho mostra esse problema com clareza. O País produz em média cerca de 80 sacos por hectare, mas os produtores de ponta chegam a colher mais de 200 sacas.

Tecnologia tipo exportação

As mesmas desigualdades que ocorrem na adoção de tecnologias agrícolas no Brasil se reproduzem de forma ainda mais acentuada no mapa-múndi. “Infelizmente as assimetrias em desenvolvimento tecnológico e capacidade de produção de alimentos fazem com que muitos países pobres na África, Ásia e América Latina ainda não consigam garantir segurança alimentar e nutricional às suas populações”, constata Lopes.

O sucesso brasileiro em superar os desafios da agricultura tropical transformou o País em uma referência para esses países com mais dificuldades. A própria Embrapa possui diversos projetos de cooperação e escritórios na América Latina e na África. “Países da África e da América Latina poderão adaptar tecnologias para superação de limitações dos solos tropicais (acidez, carência de nutrientes, seca etc.), além de melhoramento genético”, explica Lopes.

“A Embrapa está indo na frente, abrindo caminho, e a iniciativa privada deve ir atrás, investindo e plantando”, avalia Paolinelli. Para ele, seria “uma burrice” o País não participar do crescimento da produção agropecuária na África, considerada – ao lado do Brasil – a grande fronteira agrícola mundial.

Biocombustíveis

Outro desafio que pode ser enfrentado com tecnologia é o dos biocombustíveis. A agricultura tem que responder ao mesmo tempo as crescentes demandas por alimentos e por combustíveis renováveis. O grande consumo de milho para a produção de etanol nos Estados Unidos eleva os preços do grão, diminuem a oferta de ração animal e aumentam os custos das carnes.

Pela primeira vez na história, o consumo de milho para a produção de etanol superou os usos alimentares no mercado americano, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. A solução está nos biocombustíveis que não gerem pressão sobre a oferta de alimentos, como o etanol de cana-de-açúcar.

Além disso, há dezenas de empresas e instituições públicas trabalhando no desenvolvimento do chamado etanol de segunda geração, que é produzido a partir da celulose presente em resíduos como a palha do milho e o bagaço de cana.

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