Embrapa integra projeto de intercâmbio acadêmico

Intercâmbio acadêmico

Embrapa integra projeto de intercâmbio acadêmico

Atividades, iniciadas no dia 10, se estendem até 29 de julho
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Estudantes e professores de pós-graduação de instituições de ensino de diversos estados estão em Rio Branco (AC) para realizar a disciplina Etnobotânica, oferecida por meio de projeto de intercâmbio acadêmico, da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Campus Botucatu - SP). A programação inclui aulas teóricas ministradas na Universidade Federal do Acre (Ufac), ações complementares na Embrapa e em instituições de apoio a povos tradicionais e vivência prática em comunidades rurais. As atividades, iniciadas no dia 10, se estendem até 29 de julho.

Financiado pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (Procad), iniciativa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do Ministério da Educação (MEC), o projeto reúne mestrandos e doutorandos da Unesp, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Manaus/AM), integrantes do Procad, além de pós-graduandos da Universidade Federal do Acre (Ufac) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre (Ifac).

De acordo com o professor Lin Chau Ming, coordenador da disciplina, a Etnobotânica é um tema comum a diversos cursos e esse caráter transversal permite realizar o intercâmbio de forma multidisciplinar. A edição 2018 contempla estudantes vinculados às áreas de Produção Vegetal, Agroecologia, Biologia, Botânica e Química, entre outros campos do conhecimento. As atividades práticas são realizadas no Seringal Sibéria, na Reserva Extrativista Chico Mendes (Xapuri - AC).

“O objetivo é proporcionar experiências distintas da realidade dos estudantes. A cada ano as aulas práticas ocorrem em uma localidade ainda não conhecida pela maioria dos participantes, mas este ano a programação acontece integralmente no Acre. A escolha do estado se justifica principalmente pela riqueza vegetal existente, diversidade das populações tradicionais e apoio das instituições para viabilizar a disciplina fora da sede da Universidade”, ressalta.

A atividade tem ainda com a parceria da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), Comissão Pró-Índio (CPI/AC), Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre (Cooperacre) e Associação dos Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes em Xapuri (Amoprex).

Ciclo de palestras

A Embrapa Acre participa do projeto há quatro anos, coordenando um ciclo de palestras. Durante a atividade, realizada no dia 17, profissionais da Unidade e de outras instituições compartilharam conhecimentos com os acadêmicos sobre a pesquisa científica e outros aspectos da Amazônia. O pesquisador Amauri Siviero contextualizou os estudos com Agrobiodiversidade no Acre e apresentou resultados de pesquisas sobre diversidade agrícola em quintais urbanos de Rio Branco e comunidades da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira. Já o pesquisador Moacir Haverroth, ponto focal do intercâmbio na Unidade, abordou os projetos envolvendo a temática Etnobotânica e povos indígenas.

“Essa aproximação da pesquisa com a academia é importante para fortalecer a atuação da pesquisa e ensino na região e proporciona benefícios mútuos. Além de contribuir com a formação acadêmica, acaba motivando escolhas futuras e muitos alunos retornam à Embrapa como bolsistas de doutorado ou pós-doutorado”, afirma Haverroth.

Em abordagem mais geral, a arqueóloga Ivandra Rampaneli falou sobre “Sítios Arqueológicos”, formas geométricas desenhadas na terra conhecidas como geoglifos, e enfatizou a abundância desses desenhos em estados amazônicos, além do processo de descoberta e os benefícios proporcionados para a região, incluindo o turismo. No Acre, existem 523 registros de geoglifos e, destes, 231 foram identificados por Ivandra. “Essas estruturas ajudam na compreensão do processo de ocupação da Amazônia e da cultura dos povos que aqui viveram em séculos passados”, pondera a palestrante.

A historiadora Selma Neves trouxe detalhes da saga dos nordestinos que vieram trabalhar nos seringais amazônicos e explicou sobre a dinâmica do “sistema de aviamento”, mecanismo de endividamento contínuo do seringueiro. Os alunos também puderam conhecer mais sobre as políticas de ocupação e desenvolvimento da região, implementadas pelo governo militar, e suas consequências, em especial os conflitos pela posse da terra, e a atuação do movimento seringueiro no Acre em prol da conservação das florestas, iniciativa que influenciou decisões políticas como a criação das Reservas Extrativistas.

Ciência e saberes locais

Para a professora da Ufac, Almecina Balbino, coordenadora local do intercâmbio, a execução de projetos acadêmicos com foco na troca de conhecimentos regionais é essencial para atrair novos profissionais para a Amazônia. O trânsito entre diferentes contextos ajuda a conhecer o potencial de cada localidade, as pesquisas desenvolvidas e o modo de vida das populações tradicionais e contribui para despertar o interesse pela região. “Alunos do centro-sul do País, que participaram de edições anteriores da disciplina Etnobotânica, hoje atuam como professores e pesquisadores no Acre, Pará e outras localidades amazônicas”, enfatiza.

O engenheiro agrônomo Guilherme Henrique Moleiro, mestrando em Horticultura Orgânica pela Unesp/Botucatu, acredita que o intercâmbio possibilita novas reflexões sobre a região. “O que mais chama a atenção é a exuberância florestal e as grandes distâncias geográficas entre as localidades. Retornarei para São Paulo com outra noção de tempo e espaço e pretendo vivenciar novas experiências na região para aprender mais sobre sistemas agroflorestais”, diz.

A acreana Uiara Mendes de Pinho, professora do Ifac e Doutoranda em Química pela Rede de Biodiversidade e Biotecnologia na Amazônia Legal (Bionorte/Ufac), considera a disciplina uma forma eficiente de associar Ciência e saberes locais, processo indispensável para a formação acadêmica e pessoal. “Ao mesmo tempo em que oportuniza conhecimentos sobre lugares e culturas, permite ampliar o entendimento sobre a realidade local e nossa própria identidade. Levarei esse aprendizado para a prática educativa e para outros aspectos da vida”.

Agrobiodiversidade e PANC

O biólogo Valdely Kinupp, professor no Programa de Pós-Graduação do Instituto nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), participa do intercâmbio como ministrante da disciplina “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)”. Segundo o especialista, essa denominação envolve uma grande variedade de sementes, castanhas, raízes, folhas e frutos presentes na agrobiodiversidade da Amazônia e outras regiões, que apresentam elevado potencial nutricional e podem ser consumidos em substituição a alimentos tradicionais. Parte desse vasto mundo de nutrientes está disponível na natureza como “plantas daninhas”, mas muitas espécies precisam ser cultivadas.

“Existe um grande interesse pelas PANC, entretanto, devido à carência de informações sobre o cultivo, manejo, colheita, pós-colheita e outros aspectos agronômicos, como a produção de sementes e germinação, ainda são pouco encontradas no mercado. As instituições de pesquisa e ensino têm papel crucial na geração de conhecimentos para viabilizar a produção em escala comercial e ampliar o consumo desses alimentos. É preciso investir em projetos de longa duração e em pesquisas acadêmicas. Além disso, é necessário rever a matriz curricular dos cursos de Agronomia e Agroecologia para contemplar o tema”, destaca Kinupp.

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