Vacina para uso humano e veterinário é semelhante

Imagem: Divulgação

IMUNIZAÇÃO

Vacina para uso humano e veterinário é semelhante

Médico veterinário do Instituto Biológico de São Paulo explica os processos de desenvolvimento
Por: -Eliza Maliszewski
309 acessos

Nos últimos dois meses o assunto vacina ganhou protagonismo mundial. Isso porque a população está na expectativa do desenvolvimento de doses para combater o coronavírus (Covid-19). Já existem formulações em teste  por empresas do Canadá e Israel e mais recentemente estudos em tomate e até tabaco.

O processo de desenvolvimento de uma vacina segue determinadas fases para assegurar eficácia e sanidade. O trabalho demanda anos de trabalho e pesquisa. A curiosidade é que o processo é semelhante para vacina destinadas à humanos e a agropecuária. No agronegócio as vacinas são bastante usadas na produção animal, na criação de bovinos, suínos e aves, sendo as mais conhecidas as que imunizam os animais para Febre Aftosa, Brucelose, Raiva, Parvovirose, Newcastle, Gumboro entre outras. 

O médico-veterinário do Instituto Biológico (IB-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Ricardo Spacagna Jordão, que é especialista no desenvolvimento, otimização e produção de vacinas, explica que as vacinas para uso veterinário levam 18 meses, no mínimo, de estudos e testes para serem disponibilizadas ao setor de produção. "Na área humana isso pode levar ainda mais tempo, visto que possuem diferentes fases na espécie alvo, ou seja, em pessoas", afirma Jordão, que realizou no seu Mestrado ensaios em que desenvolveu vacina contra a Diarreia Viral Bovina (BVD) com o emprego de estirpes nacionais do vírus, já que no mercado, apenas vacinas importadas eram comercializadas.

O Portal Agrolink conversou com Jordão sobre essas semelhanças. Confira:

Portal Agrolink: como é o processo de desenvolvimento de uma vacina contra doenças virais?
Jordão:
o isolamento viral, de pacientes positivos, é a primeira etapa, seguido da identificação do vírus. Este precisa ser destrinchado. Saber sobre seu material genético, estudar suas proteínas etc. Um mesmo vírus pode ter várias mutações e o estudo epidemiológico ajuda a saber qual variante está circulando na população. Várias perguntas precisam ser respondidas: este vírus replica bem em cultivo celular? Qual tecnologia vai ser empregada na produção, será uma vacina inativada, recombinante, atenuada ou deletada? São muitas as tecnologias, todas dependem do tipo de vírus, qual população e a rapidez para produção da vacina. Muitos questionamentos precisam ser respondidos, que dependem da etapa inicial de identificação e pesquisa com o vírus e suas estruturas.

Vírus conhecido e tecnologia definida, agora é hora de trabalhar na vacina. Digamos que a vacinas será inativada, a mais simples e tradicional. Qual inativante irá ser empregado, qual concentração, quanto tempo será necessário para o inativante destruir o material genético, mas preservar as proteínas da superfície do vírus. Queremos que o vírus estimule a imunidade, mas não cause doença. Fazemos estudos de cinética de inativação. E todos estudos precisam ter repetibilidade e reprodutibilidade, então são repetidos diversas vezes.

Lembra da fita cassete? Mais ou menos igual, temos que retirar a fita marrom, que seria o material genético do vírus, mas a fita continua cabendo no toca fitas, só não toca a música. É a mesma coisa, queremos enganar o organismo que receberá a vacina. A vacina irá estimular o sistema imune, muito parecido como o vírus vivo faria, mas sem causar a doença com a intenção de criar imunidade para quando este paciente realmente entrar em contato com um vírus.

O inativante é um constituinte das vacinas, ainda temos adjuvante, preservantes, veículo etc. É um processo complexo.

Definido tudo isto, é hora de testar a vacina. Elas passarão por uma etapa de testes em animais de laboratório e depois da espécie alvo.  

Portal Agrolink: que diferenças há entre o desenvolvimento de vacina para humanos e animais?

Jordão: basicamente, o custo de produção, onde vacinas humanas podem ter um custo maior por dose. Pense em uma família que leve dois filhos para tomar uma vacina. Agora pense um fazendeiro, com 2 mil animais para serem imunizados. A etapa de teste na espécie alvo é bem diferente. Aqui entra dois protocolos de bioética distintos, um humano e outro veterinário. Em humanos há necessidade atender os preceitos da bioética em animais, pois há testes em animais de laboratório, e em humanos, com suas diferentes fases. Vacinas veterinárias também podem ser formuladas com produtos que não são aceitos em humanos. Adjuvantes, para humanos apenas os sais de alumínio são aceitos, na veterinária chegamos a ter vacinas oleosas, que promovem a liberação lenta do agente. O volume da dose pode ser maior em animais de produção, por exemplo.

Portal Agrolink: como são os testes e que critérios avaliam se realmente pode seguir para produção comercial?

Jordão: são muitos testes. Iniciam em bancada, em cultivo celular, se o vírus tem bom rendimento e é seguro. Em animais de laboratório e na espécie alvo, continuam as avaliações de segurança e se a vacina é capaz de produzir bons título de anticorpos, por exemplo. A vacina ideal precisa ser barata, estável, segura e não apresenta efeitos colaterais. Tudo isto é avaliado durante as etapas da pesquisa.

Portal Agrolink: como está o Brasil em relação ao desenvolvimento de vacinas animais? 

Jordão: o Brasil possui muitos cientistas focados em desenvolvimento de vacinas animais, principalmente devido à necessidade de as vacinas protegerem contra micro-organismos que circulam no país. Não adianta importar uma vacina de uma doença que não exista no país.  Uma doença passa por várias fases, assim como para alcançarmos a erradicação, sendo que cada etapa exige uma ferramenta, seja para detectar ou para imunizar a população. Por isso a importância das pesquisas nacionais. Temo uma quantidade gigantesca de isolados (virais, bacterianos etc), o que permite a realização de estudos extremamente ricos. O setor veterinário é muito forte no Brasil e o desenvolvimento de vacinas segue esta mesma linha.
 

Anúncios que podem lhe interessar


Atenção: Para comentar nesta página é necessário realizar o seu cadastro gratuíto ou entrar.
  • Clicar no botão Entrar caso já possua cadastro no Agrolink
  • Se não tiver cadastro ainda em nosso site Cadastre-se gratuitamente e terá acesso a conteúdos exclusivos
  • Clique aqui todas as vantagens de fazer seu cadastro no Agrolink