Nova pera é resistente a doenças e menos atrativa à mosca
Embrapa apresenta nova pera com maior conservação pós-colheita
Foto: Divulgação
A BRS Áurea, nova cultivar de pera desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho (RS), começa a chegar ao setor produtivo como alternativa para o cultivo no Sul do Brasil. A variedade reúne adaptação climática, potencial produtivo, qualidade dos frutos e conservação pós-colheita, características que podem contribuir para ampliar a produção nacional da fruta.
A cultivar é a primeira pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da unidade gaúcha. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, a BRS Áurea surgiu do cruzamento entre as peras asiática Hosui e europeia Abate Fetel, realizado em 2006, em Vacaria (RS).
Após cerca de 20 anos de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes condições de cultivo, a cultivar foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 26 de maio de 2025, sob o número 59.655. Posteriormente, foi solicitada a proteção junto ao Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC).
Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, os frutos são uniformes e simétricos, com massa entre 145 e 190 gramas. Quando maduros, apresentam coloração amarelo-alaranjada ou dourada.
O pesquisador João Caetano Fioravanço, da Embrapa Uva e Vinho, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da cultivar, destaca que o trabalho teve como objetivo obter uma pera adaptada às condições brasileiras.
“A BRS Áurea reúne boa adaptação às condições do Sul do Brasil, potencial produtivo e frutos de excelente qualidade. Esses atributos são importantes para estimular a produção brasileira de peras”, avalia.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, a BRS Áurea foi testada e validada no Rio Grande do Sul, nos municípios de Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul. A recomendação é para regiões produtoras de pera que apresentem entre 400 e 600 horas de frio abaixo de 7,2 °C durante o inverno.
Um dos diferenciais da cultivar é a precocidade de maturação. Nas condições avaliadas, a colheita ocorre predominantemente entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo aproximado de 106 dias entre a plena floração e a maturação.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, a antecipação da colheita pode ampliar a janela de comercialização das peras produzidas no Brasil.
Em sistema de alta densidade, com plantas enxertadas sobre o marmeleiro Adams e espaçamento de quatro metros entre filas e um metro entre plantas, a produtividade estimada da BRS Áurea fica entre 25 e 30 toneladas por hectare.
A combinação entre época de colheita, potencial produtivo e qualidade dos frutos amplia as possibilidades de utilização da cultivar em sistemas comerciais. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, a produção brasileira de peras ainda não é suficiente para atender à demanda interna, o que mantém a cadeia dependente de importações para uma parcela significativa do consumo nacional.
A qualidade também foi avaliada após a colheita. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, em condições experimentais, as peras mantiveram boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado a 0,5 °C, seguidos de sete dias a 20 °C.
Durante esse período, a firmeza da polpa diminuiu e os frutos adquiriram coloração mais alaranjada, mantendo características consideradas adequadas para consumo.
A pesquisadora Lucimara Antoniolli, da área de pós-colheita da Embrapa Uva e Vinho, destaca o potencial de conservação da cultivar. “A BRS Áurea apresenta propriedades muito interessantes para o mercado de frutas frescas pelo bom potencial de conservação pós-colheita, aspecto importante para ampliar o período de comercialização e facilitar a distribuição da fruta”, enfatiza.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, ensaios experimentais também indicaram potencial para períodos mais prolongados de armazenamento. Em atmosfera controlada, frutos mantidos por até 165 dias a 0,5 °C apresentaram maior firmeza após a retirada da câmara.
Apesar da capacidade de conservação, os frutos são considerados delicados e podem sofrer danos por impacto durante a colheita e o transporte. Por isso, segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, são necessários cuidados no manuseio, na classificação, na embalagem e no transporte.
A BRS Áurea também apresentou características favoráveis em relação a problemas fitossanitários da cultura. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, nas condições avaliadas, a cultivar demonstrou resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, doença fúngica que afeta folhas e frutos.
A variedade também apresentou menor suscetibilidade à mosca-das-frutas em comparação com a pera Rocha.
Em áreas experimentais onde as duas cultivares foram plantadas e submetidas à infestação natural, foram registrados 70% de frutos infestados na pera Rocha e 10% na BRS Áurea. Em outro experimento, no qual os frutos foram expostos diretamente aos insetos em condições sem chance de escolha, a infestação foi de 40% na BRS Áurea, contra 100% na Rocha.
O pesquisador Marcos Botton, também da Embrapa Uva e Vinho, aponta a menor suscetibilidade como uma característica de interesse para o sistema de produção.
“A menor infestação observada na BRS Áurea é uma característica bastante interessante, principalmente considerando a importância da mosca-das-frutas para a fruticultura do Sul do Brasil. Isso não significa que o produtor possa deixar de monitorar e manejar a praga, mas indica uma característica favorável da cultivar que pode contribuir para o sistema de produção”, pontua.
A nova cultivar também foi avaliada em parceria com produtores. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, em 2021 foram estabelecidas duas unidades de validação em Vacaria e Caxias do Sul, com plantas conduzidas sobre o marmeleiro Adams.
Para o produtor Fernando Soldatelli, que participou da validação, a cultivar apresenta potencial para uma produção mais competitiva.
“De todas as diferentes cultivares de pera que já plantei, acredito que a BRS Áurea é a que apresenta maior potencial para a produção competitiva”, avalia.
Segundo ele, a qualidade dos frutos também atende às características buscadas pelo mercado. “Além de produzir bem, é bonita, suculenta e gostosa. Tudo o que precisamos”, salienta.
O desenvolvimento da BRS Áurea começou em 2006, com o cruzamento realizado em Vacaria. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, a partir de 2015 o material selecionado passou por novas etapas de avaliação.
No ano seguinte, foram implantadas áreas experimentais da Embrapa Uva e Vinho em Bento Gonçalves e Vacaria para análises de fenologia, produção, qualidade dos frutos e conservação pós-colheita.
A equipe responsável pelo desenvolvimento da cultivar é formada por João Caetano Fioravanço, Lucimara Rogéria Antoniolli, Silvio André Meirelles Alves, Marcos Botton, Luis Fernando Revers, Daniel Santos Grohs, Valtair Comachio e pelo pesquisador aposentado Paulo Ricardo Dias de Oliveira, da Embrapa Uva e Vinho.
As mudas da BRS Áurea podem ser reservadas no Viveiro São Francisco, licenciado pela Embrapa. Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, outros viveiristas interessados em obter licenciamento para comercializar a cultivar podem solicitar material propagativo à Embrapa Uva e Vinho pelo e-mail informado pela instituição.
A reserva pode ser realizada ao longo do ano, enquanto a entrega ocorre na segunda quinzena de julho do ano subsequente, conforme a disponibilidade de material.
Com características agronômicas, produtivas, fitossanitárias e de conservação pós-colheita avaliadas ao longo de quase duas décadas, a BRS Áurea representa uma nova alternativa genética para a produção de peras no Sul do Brasil.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Uva e Vinho, a expectativa é que a cultivar contribua para diversificar os pomares e ampliar as possibilidades de produção da fruta em condições brasileiras.