Bioinsumos entram em nova fase: valor virá da diferenciação
“O mercado está crescendo, mas o valor é capturado por quem consegue se diferenciar”
“O mercado está crescendo, mas o valor é capturado por quem consegue se diferenciar” - Foto: Divulgação
O mercado de insumos biológicos acelera na América Latina, mas apenas alguns ganharão rentabilidade, alerta a DunhamTrimmer.
“O mercado está crescendo, mas o valor é capturado por quem consegue se diferenciar”. Com essa definição, Ignacio Moyano sintetizou o cenário atual dos bioinsumos durante sua participação no A Todo Trigo 2026. Para o vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios para a América Latina da DunhamTrimmer, o crescimento acelerado do setor na América Latina abre oportunidades relevantes, embora também apresente um novo desafio competitivo: transformar expansão em rentabilidade sustentável.
Moyano alertou que a oferta global de soluções biológicas está crescendo em ritmo superior ao da demanda, gerando pressão sobre preços e margens. Segundo explicou o especialista em inteligência de mercado, várias companhias ingressam no negócio com portfólios semelhantes, estratégias centradas em volume e baixos níveis de diferenciação técnica. “A região lidera o crescimento global em bioinsumos, mas essa liderança será definida pela execução, não pelo produto”, afirmou durante o painel “Uso de Bioinsumos na Agricultura e Tecnologias de Aplicação”.
Nesse contexto, o especialista destacou que a vantagem competitiva futura estará associada à capacidade de construir evidência agronômica, desenvolver soluções adaptadas a sistemas produtivos específicos e oferecer suporte técnico consistente ao produtor. “Não é a adoção o verdadeiro desafio, mas a captura de valor”, afirmou.
Cenário Latam: expansão e consolidação
As projeções apresentadas pela DunhamTrimmer mostram um cenário de forte expansão para o mercado biológico até 2030. De acordo com os dados expostos por Moyano, o mercado latino-americano de bioinsumos alcançaria US$ 6,7 bilhões até o fim da década, impulsionado principalmente por biocontrole e bioestimulantes, com uma taxa de crescimento anual composta próxima de 14% entre 2025 e 2030.

O relatório também aponta que a América Latina passa por um processo acelerado de consolidação. As operações de fusões e aquisições avançam como mecanismo para escalar a inovação biológica e capturar diferenciação tecnológica. Fundos de investimento, multinacionais e capital estratégico estão ampliando sua participação em startups e empresas especializadas em microbiologia agrícola, agricultura regenerativa e soluções ligadas a carbono e sustentabilidade.
Outro ponto destacado por Moyano foi a heterogeneidade estrutural do mercado regional. O Brasil aparece como o principal motor do negócio, representando cerca de 50% do mercado latino-americano de biológicos e apresentando um ambiente regulatório mais avançado em relação ao restante da região. O executivo destacou ainda a elevada adoção de tecnologias biológicas em sistemas intensivos e a crescente integração entre biológicos e agricultura digital.
No caso argentino, a DunhamTrimmer descreveu um mercado avaliado em aproximadamente US$ 124 milhões em 2024, caracterizado por uma adoção mais conservadora e uma forte orientação à eficiência econômica e ao retorno agronômico. No entanto, Moyano ressaltou que o país mantém importante liderança técnica e elevada capacidade profissional, fatores que podem acelerar o crescimento futuro do segmento.
Para México, Colômbia, Peru e Chile, a análise apresentada mostrou mercados ainda fragmentados, com predominância de biocontrole e bioestimulantes, mas avançando progressivamente para modelos de especialização técnica e captura de valor premium.
Motores do futuro
Moyano também relacionou o futuro dos bioinsumos a transformações mais amplas do comércio agrícola global. Entre elas, mencionou o acordo Mercosul-União Europeia, que pode ampliar o acesso a mercados internacionais, embora também aumente a pressão competitiva sobre os sistemas produtivos regionais. Diante desse cenário, indicou que a inovação biológica será cada vez mais estratégica para sustentar competitividade, produtividade e sustentabilidade.
A participação da DunhamTrimmer ocorreu no âmbito do A Todo Trigo 2026, realizado nos dias 14 e 15 de maio no Hotel Sheraton de Mar del Plata. Organizado pela Federação de Acopiadores de Grãos, o encontro se consolidou ao longo de mais de duas décadas como um dos principais espaços de articulação da cadeia cerealista argentina, reunindo armazenadores, empresas de insumos, exportadores, instituições técnicas, pesquisadores e responsáveis por políticas públicas.
A edição 2026 foi marcada por um contexto particularmente favorável para a safra de inverno argentina. Com uma área de trigo projetada em torno de 6,7 milhões de hectares, nível equivalente ao recorde de 2021/22, melhores perfis de umidade após anos de seca e uma relação insumo-produto mais favorável, o setor se prepara para uma recuperação produtiva significativa. Paralelamente, culturas de inverno como cevada, canola, carinata e camelina ganham protagonismo estratégico dentro dos esquemas agrícolas regionais.
Nesse cenário, os bioinsumos aparecem cada vez mais integrados às estratégias de eficiência produtiva e sustentabilidade. Mas, segundo a mensagem central de Moyano, o crescimento do mercado por si só já não garante rentabilidade. A próxima etapa do negócio biológico na América Latina será definida por quem conseguir transformar inovação técnica em valor econômico tangível para o produtor.