Separação de lotes de trigo ajuda a preservar qualidade
Qualidade industrial depende de características que determinam sua utilização
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A aplicação de Boas Práticas de Produção (BPP) de trigo, desde a implantação da lavoura até o armazenamento, são necessárias para produzir grãos de boa qualidade e garantir melhores preços de comercialização.
Após a colheita, a separação adequada dos lotes de trigo é uma medida importante para preservar a qualidade industrial dos grãos e reduzir perdas na comercialização. Diferenças de umidade, teor de proteína, peso do hectolitro (PH), características de qualidade industrial, fisiológicas (trigo pré-germinado) e tecnológicas podem comprometer o aproveitamento do cereal quando cargas com padrões distintos são misturadas sem critérios de classificação.
Entre outubro e fevereiro, período que concentra operações de colheita, secagem, formação de estoques e início da comercialização, os cuidados na recepção e no armazenamento ganham importância. A mistura de grãos úmidos com lotes já secos, por exemplo, pode favorecer o aquecimento da massa armazenada e o desenvolvimento de fungos, aumentando o risco de deterioração.
Além das condições de conservação, a qualidade industrial do trigo depende de características que determinam sua utilização na fabricação de pães, massas, biscoitos e outros produtos. A segregação permite manter lotes com propriedades semelhantes e direcioná-los às exigências de diferentes compradores.
Um dos principais indicadores utilizados na classificação é o peso do hectolitro, conhecido como PH. Esse parâmetro representa a densidade aparente dos grãos e está relacionado ao rendimento de farinha. Valores mais baixos podem estar associados à presença de grãos chochos ou danificados por chuvas, doenças e geadas.
O teor de proteína também influencia a destinação industrial. Trigos com maior concentração de proteína geralmente são preferidos para panificação, enquanto aqueles com características diferentes podem atender à produção de biscoitos, bolos e outras finalidades.
Outro indicador relevante é a força de glúten, identificada pela letra W, que ajuda a determinar o comportamento da massa durante o processamento. A relação P/L também é utilizada para avaliar suas propriedades. Esses parâmetros permitem diferenciar lotes destinados à fabricação de pães de maior volume daqueles mais adequados a outros produtos.
A avaliação pode incluir ainda o número de queda, conhecido como Falling Number, que indica a atividade da enzima alfa-amilase. Quando ocorre germinação dos grãos ainda na espiga, essa atividade pode aumentar, reduzindo o número de queda e comprometendo características necessárias à panificação.
Grãos pré-germinados podem originar massas pegajosas e pães com menor volume. Por isso, a identificação dessas alterações antes do armazenamento é importante para evitar a mistura de trigo com problemas tecnológicos e lotes de melhor qualidade panificável.
Classificação deve começar na recepção dos grãos
O processo de separação começa com a identificação da origem de cada carga. Informações como talhão, cultivar, data da colheita e condições de manejo ajudam a reconhecer diferenças entre os lotes e orientar sua destinação.
Na recepção, a coleta de amostras representativas é uma etapa fundamental. A avaliação deve considerar, no mínimo, umidade, impurezas e grãos avariados, além do PH e de outros indicadores tecnológicos quando houver equipamentos disponíveis.
A presença de grãos mofados, ardidos, brotados, chochos ou danificados por insetos exige atenção, pois essas alterações podem comprometer a qualidade do produto e sua aceitação pela indústria.
Cargas com umidade elevada devem ser encaminhadas prioritariamente à secagem, sem mistura com trigo já seco. O procedimento precisa respeitar condições adequadas de temperatura e fluxo de ar, evitando danos térmicos que possam provocar quebras e prejudicar a qualidade industrial.
A limpeza também contribui para retirar palhas, terra, sementes de outras culturas e materiais estranhos. Além de interferirem no rendimento industrial, essas impurezas podem aumentar os custos de processamento e favorecer problemas durante o armazenamento.
Após a classificação e a secagem, os grãos devem ser direcionados a silos ou compartimentos conforme suas características. Essa organização permite manter separados os lotes de maior qualidade panificável, os de características intermediárias e aqueles que apresentam limitações para determinados usos industriais.
O acompanhamento das condições de armazenamento deve continuar durante todo o período de estocagem. O monitoramento da temperatura e da umidade, associado à inspeção da presença de insetos, fungos e odores anormais, ajuda a identificar situações que possam comprometer a conservação dos grãos.
Lotes que passaram por dificuldades na secagem, apresentam maior teor de impurezas ou foram colhidos em áreas afetadas por doenças exigem acompanhamento mais rigoroso. Em situações de suspeita de contaminação por micotoxinas, análises laboratoriais são necessárias para orientar a destinação adequada.
A segregação também está relacionada ao planejamento realizado na lavoura. Cultivares com características tecnológicas diferentes, variações na adubação nitrogenada e condições climáticas durante a colheita podem resultar em grãos com padrões distintos de qualidade.
O registro dessas informações facilita a identificação dos lotes e permite organizar o armazenamento conforme as exigências industriais.
Do ponto de vista econômico, a separação pode reduzir descontos na classificação e ampliar as possibilidades de negociação. Lotes homogêneos permitem atender demandas específicas de compradores e oferecem maior previsibilidade aos moinhos na formulação de misturas para produção de farinha.
Por outro lado, a mistura indiscriminada de grãos com características distintas pode reduzir o valor comercial do conjunto e, em determinadas situações, resultar na rejeição de cargas.
A adoção desse manejo exige estrutura de armazenamento com possibilidade de separação física, equipamentos de avaliação e registros das características dos lotes. A qualidade da amostragem também é determinante, pois resultados que não representam adequadamente a carga podem levar a decisões incorretas.
A produção de trigo de boa qualidade industrial depende, portanto, de cuidados que começam na implantação da cultura, passam pelo manejo da lavoura, incluindo a colheita, a recepção, classificação, secagem e armazenamento do produto final. Manter os lotes identificados e separados conforme suas características contribui para reduzir perdas, conservar o padrão dos grãos, atender às diferentes exigências do mercado e garantir melhor remuneração.