Embrapa aprova projetos em bioinsumos e macaúba
Agricultura brasileira depende fortemente de fertilizantes importado
Foto: Simone Favaro
A Embrapa Agroenergia teve a aprovação de duas propostas na Chamada 06/2025 - Universal: Prioridades das Unidades Descentralizadas, realizada no âmbito do Sistema Embrapa de Gestão (SEG). A chamada foi a oportunidade disponibilizada pela Empresa para que todas as Unidades pudessem enviar até dois estudos que respondessem aos desafios para a inovação de cada um dos nove portfólios atualmente ativos. A Embrapa Agroenergia submeteu dois projetos estratégicos que visam responder a desafios cruciais de inovação e ambos receberam sinal verde para execução.
O primeiro destaque é o projeto “Bioinsumos a partir de lignina Kraft e minerais para fertilidade, proteção e sustentabilidade do solo (LIGNONEMAINPUTS)”, coordenado pelo pesquisador Clenilson Martins Rodrigues. A iniciativa propõe transformar a lignina Kraft — um coproduto abundante da indústria de celulose e papel — em bioinsumos avançados para fertilidade, proteção e sustentabilidade do solo.
“A agricultura brasileira depende fortemente de fertilizantes importados e enfrenta desafios associados à baixa disponibilidade de nutrientes em solos tropicais, perdas por deriva de pós minerais e danos causados por fitonematoides. O LIGNONEMAINPUTS busca responder a esses desafios com uma rota tecnológica baseada em recursos nacionais: lignina Kraft, rochas regionais e biomassas vegetais com atividade biológica”, explicou Clenilson.
Com duração de 36 meses, o projeto deve ser iniciado em junho de 2026. O objetivo central é prototipar bioinsumos que integrem a lignina, as rochas regionais e as biomassas antagonistas para criar soluções que reduzam a dependência de fertilizantes importados e combatam fitonematoides.
Entre os diferenciais tecnológicos do projeto de Clenilson estão o uso de ferramentas de mineração de dados, aprendizagem de máquina e modelagem estatística para reduzir o número de formulações experimentais e otimizar combinações entre lignina, ácidos orgânicos, minerais e biomassas vegetais. Em paralelo, serão conduzidas análises de impacto econômico, estudos de anterioridade, patenteabilidade, mercado e adequação regulatória. Com isso, o projeto pretende gerar um portfólio de bioinsumos capazes de contribuir para sistemas agrícolas mais eficientes, sustentáveis e menos dependentes de insumos importados.
Os produtos desenvolvidos atuarão como agentes antideriva, pré-ativadores de rochas e biofertilizantes, promovendo uma agricultura de baixo carbono e a economia circular.
A equipe do LIGNONEMAINPUTS reúne especialistas em química dos produtos naturais, química de biomassa, agronomia, geologia, biotecnologia, nematologia, estatística, formulações, impacto econômico e estratégia de inovação. Da Embrapa Agroenergia, além de Clenilson, participam Bruno Laviola, Diogo Keiji Nakai, Felipe Carvalho, Felipe Wouters, José Antônio Ribeiro, Larissa Andreani, Leonardo Valadares, Rosana Guiducci e Sérgio Saraiva. Também integram o projeto Éder Martins (Embrapa Cerrados), Ricardo Valgas (Gerência-Geral de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia) e Thales Rocha (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia).
MACAÚBA
A segunda proposta aprovada foca na cadeia produtiva da macaúba, sob a coordenação dos pesquisadores Dasciana de Sousa Rodrigues e Rossano Gambetta. O projeto, cujo título é “Desenvolvimento de processo de despolpa enzimática para extração de óleo de polpa do fruto de macaúba e obtenção de caroços aptos à germinação”, também tem a duração de 36 meses e está previsto para iniciar em junho de 2026.
Este estudo ataca um gargalo histórico: a baixa taxa de germinação natural da macaúba, que hoje é de apenas 7%. Ao substituir a despolpa mecânica agressiva por uma rota enzimática de baixa temperatura, o projeto visa preservar a integridade do embrião da semente.
O objetivo é duplo: maximizar a extração de óleo para a produção de biocombustíveis e aumentar a oferta de mudas viáveis, reduzindo custos de produção. Essa inovação é vista como essencial para estabelecer uma cadeia de bioenergia economicamente sustentável no Cerrado brasileiro.
“A inovação centra-se na despolpa enzimática, que é uma ideia da Embrapa para a extração aquosa de óleos, e que ocorre sob baixa agitação e temperatura. Essas condições são cruciais para preservar a viabilidade do embrião, ao contrário do processo de despolpa mecânica, que contribui para a perda de viabilidade dos embriões. Ao substituir as etapas destrutivas de despolpa mecânica, o processo enzimático permite que o caroço seja recuperado de forma íntegra e limpa, podendo ser direcionado para a produção de mudas. Além disso, espera-se que as enzimas abram o canal que liga o ambiente externo ao embrião, permitindo a chegada da água e do oxigênio, e germinação da macaúba”, explicou Dasciana.
Além de Dasciana e Rossano, o projeto inclui também Agnaldo Chaves, Felipe Carvalho, Simone Favaro e Thais Demarchi, todos da Embrapa Agroenergia.
Ambas as propostas aprovadas na Chamada 06/2025 reforçam o compromisso da Embrapa Agroenergia com a geração de ativos tecnológicos de alto valor. Enquanto um transforma resíduos industriais em insumos agrícolas de precisão, o outro viabiliza a expansão de uma palmeira nativa estratégica para a energia limpa.
As iniciativas se alinham às demandas globais por sustentabilidade, demonstrando como a ciência pode converter desafios ambientais em oportunidades econômicas para o setor agroindustrial.